Olhos e pés no chão.

Olhos e pés no chão.

Já nos acostumamos a ver placas, cartazes e indicações no alto, grafites e mapas nas paredes da cidade, mas no chão? Nunca vi ou soube disto até que a minha vizinha de Charitas, que os locais chamam de Charita, sem o s, Leila B. falou-nos de seu novo projeto para Niterói. Foi ela que num rasgo de invenção forrou de mosaicos a escada que de sua casa na encosta ia até a rua de baixo. Precisou para tanto não só do apoio da Prefeitura, havia que arrumar a escada e seus contornos bem como a rede pluvial que jorra morros abaixo, precisou e convocou um mutirão da comunidade em volta para compor os mosaicos plantados nos degraus.

Primeiro acorreram a seu ateliê as crianças, adultos sempre mais arredios e céticos acabaram contagiados com o quebra quebra de azulejos depois  fixados nas telas de suporte. Como as pessoas os mosaicos são cada um cada um, diversos talhados e montados ao jeito da mão que os corta e cola.  Podem ser só cores, figuras, frases, ou um pouco de tudo, lá estão alegrando e filosofando no caminho. Brotando no convívio não só afetos e trocas mas idéias, reuniu e deu voz a esta experiência coletiva no seu mestrado em Ciência da Arte, batizando-o de “Mosaico do Lugar” e por visual também guardado em vídeo, melhor ir lá vê-lo em seu lugar, mas não indo pode-se vê-lo longe, bem longe, mistérios do audiovisual.

Desenvolvendo sua reflexão teórica, todo mundo já sabe, não basta fazer, tem que balizar nossa estrada, ensinar o caminho das pedras, fixou-se no conceito de lugar, como a escada um belo achado. O lugar é onde estamos, onde vivemos, acho que é onde alcançamos a pé, depois, depois é o mundo, em que pra se estar é preciso estar ou passar em outros tantos lugares. Sempre ouvi dizer que utopia, ao pé da letra, é o não lugar, algo que se imagina, que se sonha mas que não existe, é inexistente.

Com efeito é algo que não existe ainda. Tive a honra, difícil e laboriosa, de ainda estudante traduzir ao português o clássico da sociologia, que cursava, o “Ideologia e Utopia”, de Karl Mannheim, e lá aprendi que utopia não é devaneio, não é delírio, é projeto, é algo para ser, é uma antecipação do que existirá, é um modelo do que a vida deva ser. Assim é com Thomas Morus, Leonardo ou Santos Dumont com as suas utopias em algum tempo realizadas.

Pois a nova utopia de Leila B., seu atual projeto, é ampliar o lugar, a topia, desde o seu, imediato, onde mora, para um maior, em que também mora, a sua cidade, Niterói. Não vou aqui, por ora, reclamar da expansão urbana, mas quero frisar que melhor seria se cada um ampliasse o seu quintal, o seu lugar, de que cada um forçosamente deve cuidar para que não seja devastado por intempéries, deve varrê-lo, reciclá-lo, lixo e folhagem, parte e digno de nossa convivência.

Não é que inventou de incrustar no próprio chão um mapa síntese do município, com destaque dos limites e pontos de referência de nossa geografia física e espiritual, distribuídos em pelo menos 12, como os apóstolos, lugares em vários cantos da cidade. Compôs uma técnica de fixação permanente que nos permitirá não só vê-los como animei-me pisá-los, serão parte não estorvo de nossos caminhos. Não me perguntem como, não sei, é sua a utopia, é a da Leila, e como projeto, como proposta, é como um sonho que, diz-nos a canção, sonhado junto é realidade.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

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