É Natal.

É Natal.

Não o dele, nem o meu, ambos em dezembro, é o Natal no Rio Grande do Norte, onde é natal o ano inteiro, e não o de Santa mas o da grande duna que litoral afora vai dar no Ceará. Ainda outro dia, numa das últimas aulas do ano, semana passada, cogitávamos os estudantes e eu de dois grandes eventos  que marcam o tempo que vivemos.

Um foi o surgimento súbito e inesperado da cifra espantosa mobilizada para satisfazer a ânsia devoradora do capitalismo internacional: o quatrilhão. O que é um quatrilhão? Nem consigo pensar. Meu teto financeiro imaginável é um milhão, pra mais é coisa demais pra mim, mas foi o que por primeira vez li no jornal. Botei no quadro branco a cifra, começando com o 1 e fui acrescentando os zeros, afinal 15.

Ficou lá, como enigma para os retardatários que iam chegando e que não conseguiam decifrá-lo. O que é isto: 1.000.000.000.000.000? A outra questão tambem colocada na aula é referindo-se ao natal que já entope ruas e lojas à cata de mais um surto de consumo consumista: o que será de Noel, não o nosso, o Rosa, mas o deles, o Nicolau, quando derreterem-se as calotas polares,  já que se vão derretendo tôdas as neves suspensas.

E descobrimos: virá um novo lá de onde tudo começou, não o das neves mas o de África. Um Noel tinto e retinto como a mamacaca Ardi que já enalteci aqui tempos atrás. Aqui em Natal  aportei a convite do festival, felizmente ainda não internacional e que assim se conserve, para passar tres dos meus filmes: Primeiros Cantos (1977) Isto é Brasil (1984) e Passion a la Vie (2009), e encontrar-me com os realizadores da terra, o que primeiro vi é claro foi o mar. Êsse marzão besta que não tivesse sangue mineiro sempre me encanta.

Aqui é diferente, parece mais selvagem, é mar aberto, com ondas não grandes mas em quase imediata sucessão de vagas derramando na areia, uma pequena faixa, que na alta quase some. Fui vê-lo à noite, maravilhoso, luzes iluminando a praia e portanto tambem  as ondas, encostado à balaustrada do hotel acima.

Aqui também é diferente, a expansão de hoteis na orla, atração ao turismo, ocupa o lado da praia, que se torna de  acesso direto não exclusivo para os hóspedes, não sei se é bom, mas acho meio esquisito. Fico imaginando uma ressaca nem das piores e o mar vai acabar entrando pra hóspede. E tem o vento permanente, como o calor é quente, o vento sempre refresca. Hospitalidade e bom atendimento foram as marcas do festival potiguar.

E sempre há o encontro e o reencontro de novos e velhos camaradas, bem como os novos e os velhos adversários mas a despeito de estranhamentos nestas ocasiões vige um código de mútua cordialidade e podemos trocar acenos e afagos até com quem de quem falamos ou fomos mal falados. Uma pequena nuance de sorriso ou cumprimento mostra até que ponto é possível esta convivência publica.

Convivência e não conivência para todos os envolvidos, cada um continuará com seus princípios, se os tiver, com os seus meios e seus fins mas podemos trocar uma palavra sempre há pelo menos uma palavra de cinema nestes torneios que funciona como pretexto para uma conversa desarmada. Bom Natal para todos nós.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

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