Chove na Tela.

Chove na Tela.

O único ponto de contato entre a revolução no cinema brasileiro e a do neo-realismo e a da nouvelle vague que são contemporâneos é a descoberta por eles da luz natural a que sempre estivemos lidando inclusive pela inadequada emulsão, coisa que os favoreceu, e fêz o cinema brasileiro ser o precursor de dispensar o que os americanos nem imaginam pois por faltar-lhes ficam sempre a querer mais luz.

Menas luz, não basta o sol? E os europeus ainda levam a vantagem dos difusores naturais atmosféricos. Pra nós aqui a barra é dura, muitas vezes não dá pra filmar de tanta luz, ou dá, dependendo do artífice na câmera que além da luz na hora controla a luz na revelação. Não é uma grande palavra? Revelação é um dos pilares da sociedade ocidental.

Daí que os brasileiros inventaram o mais branco e por suposto o mais preto. Deixa estourar apenas um pouco mais, não ter medo da luz, e só precisar capturá-la suavemente. Nada se compara ao  recorte de imagem na tela, em nossa era digital, o que mais se vê é que chove na tela. A fotografia, a base, é o instante, no cinema é o momento. Cada momento, unidade entre o ação e o corta, chama-se plano. E de momento em momento, de plano em plano vai-se fazendo o filme. Não necessàriamente nessa ordem, diz Godard. Nunca na ordem.

É uma palavra. É preciso tomar cuidado com as palavras, mal usadas, elas influem nos juízos provocando desvios, e assim é com a palavra ordem que agrego ao arsenal de palavras erradas: ordem, demasiado autoritária; cadeia produtiva, nenhuma pode sê-lo; publico alvo, é escusado alvejar o publico, seja atirando, seja branqueando; e grade de programação, é preciso libertá-la.

E aí estamos com o audiovisual bombando por todos os lados, como sempre, em desiguais condições. A franquia digital no filmar banaliza a mensagem. Filma-se, ou grava-se, de qualquer jeito, o acaso é bom parceiro mas não é só ele que dita o filme. Só ele, fica uma alucinação de crioulo doido mais parece esse tal de videoclipe. No comércio não tem problema, é sempre mais do mesmo, às vêzes um pouco disfarçado.

Aos criadores do patrimonio audiovisual brasileiro tristemente é tambem um mais do mesmo: escassa pecúnia. Nunca vi tanto meio circulante circulando no cinema mas de forma absurda, muita festividade pra pouca efetividade. Logram alguns fazer seus filmes, dificil é exibi-los, e ainda mais decentemente. Faltam cinemas. Sempre falta, sempre faltará, mas o que primeiro falta é garantir a ocupação das salas que existem e das que existirão para o audiovisual brasileiro.

Aquele, segundo Paulo Emílio, que nos diz mais que qualquer filme estrangeiro, permitindo a circulação de nossos sentimentos e nossas idéias. E nem é patriotismo tampouco nacionalismo, pêtas vindas junto com a invasão colonialista. É nativismo, é o direito primordial do nascituro à terra que o viu nascer. Tenho pra mim que todos temos direito em vida ao mesmo chão em que vão nos botar na morte.

Quanto seria? Imaginar-se uma extensão de terra equânime para toda a humanidade em tôrno ao ponto de nascença de cada um. Assim talvez tenha sido desde o início até o surgimento da propriedade. Mais uma vêz olha o jogo perigoso das palavras: propriedade é o que é próprio a cada um, portanto não pode ser mais de uns que de outros, para ser própria, tem que ser para todos, senão é imprópria ou é apropriada. Estamos há séculos no mundo da propriedade, fomos à lua, dizem, só não conseguimos superar essa enorme distancia entre os que temos mais e os que tem menos.

Tornar-me fui um demagogo?

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

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