Archive for dezembro, 2009

Re-moçar

domingo, dezembro 13th, 2009

Re-moçar.

Nêste dezembro último reuniram-se os colegas da turma de 63 no colégio que desde então não nos tínhamos mais visto. Era pra eu ir, como mais tarde lhes mensageei, mas caiu aquela chuva braba que tudo entope e alaga, e vendo aquela parede d´água à minha frente arrepiei caminho e conformei-me a do alto de meu terraço em Charitas-sur-mer vê-la cair água na água.

Quase todos no entanto tiveram melhor sorte e o encontro foi um sucesso, quase todos lá, menos eu. Menos eu em corpo, pois não é que um dêles levou um poema que eu na época havia escrito a pedido de outro dêles pra galantear a jovem de seus sonhos, uma Helena que jamais conheci, e que ele descrevera-me assim assim.

E era, acreditem, um manuscrito em minha letra e assinado em 1962, aos dezasset´anos, se bem me lembro, e agora vi-o pois mandou-me em pdf, revi-o 47 anos passados, já tendo-o dado por perdido. Dizem que é normal ser poeta e comunista na juventude e anormal depois, e eu continuo sendo os dois, coisa que ninguém diria lendo tais versos, que hoje acho que transponho nestas prosas e nos meus filmes.

Sou o que se chama de poeta bissexto, falta-me a continuidade: paro e escrevo, escrevo e paro, mas tem uns tantos por aí, e agora os guardo como não o fiz na época.  Na época, como muitos, mantive um caderno em que recolhia meus poemas, talvez maus mas meus. Meus sim, de certa forma, embora evidentes transcriações dos poetas consagrados de meu gôsto, de Camões a Vinicius, via Gonçalves Dias e Castro Alves, este ultimo servindo como poderão constatar de modelo a meus versos para Helena.

Também de mesma época fiz uma notável tradução do famoso If, de Rudyard Kipling, em inglês, que tampouco guardei e não sei se alguem ainda me fará o favor de ter guardado. Meu caderno infelizmente num maldito surto de autocrítica foi pro lixo. Deve ser por isso que desde então abomino críticas, as construtivas então dá vontade de matar. Como alguem se atreve a querer paternalizar-me, será que eu não me enxergo? Será que não sei o meu lugar nos olimpos da vida?

Imagino que tudo isso pouquíssima importância terá pra quem me lê, mas já que me lê, é pelo menos curioso ver a volta que o tempo dá e que certamente de um ou de outro jeito com todo o mundo acontece. Retrato não vale, descobrir em algum baú como já fomos engraçadinhos é demais materialista.

Melhor é a flôr sêca  amassada entre o livro, de quem dirá? Ou um bilhete sem destino ou remetente que a vulgaridade de nossos dias chama de torpedo. E olha o proustiano sentir da madeleine, mostrando que estou em ótima companhia, o doce perfume junto ao chá aciona a máquina do tempo de cada um, e ela existe. Olhem os meus versos: um pedido feito a pedido, pois não é o poeta um fingidor como Pessoa?

“Por quem sonhas?

Ó Helena, tão amada, desejada.

Por quem tremes?

Por quem gemes?

Por quem choras?

Por quem sonhas?

Do teu sono sem lampejo, meu desejo é despertar-te.

Mas tu sonhas, tao risonha, tão amada, desejada

Meu desejo perde vida, és tão querida!

Por quem tremes?

Teus cabelos, luz dourando, fogem soltos por teu rosto.

Fazem ondas na tua fronte tão amada, desejada.

Teus cabelos tremem inda, és tão linda!

Por quem gemes?

Tua bôca semi-aberta, mal-desperta pede beijos.

Dar-tos-ei em tua bôca tão amada, desejada.

Dar-tos-ei de minh´alma, és tão calma!

Por quem choras?

Nos teus olhos, são castanhos, bens tamanhos, correm larmas.

Doce lágrima eu tivesse tão amada, desejada.

Mas as larmas se não movem, és tão jovem!

Ó Helena, és tão pura! Minha jura mais perene.

Ó Helena, por ti choro, por ti sonho,

por ti tremo, por ti gemo”.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

Meus Meia Cinco

quinta-feira, dezembro 10th, 2009

Meus Meia Cinco.

Já vos brindei com o meu sexagenário, adiciono agora mais cinco. Nenhuma mudança extraordinária, só as costas reclamam um pouco além do que já reclamavam. Este ano o meu 20 caiu no domingo, na segunda realizo meu sonho de consumo: o vale-idoso de transporte. Passearei por aí tudo sem precisar contar e portar moedas, estarei mais leve e solto. Ah! E também meu segundo presente, pode, não pode?

Geralmente, presente é um só por pessoa, mas pra quem se acostumou a ver seu niver e o presente embrulhados com o Natal, desta vez dou-me dois, ambos destinados à livre locomoção, vou na loja e pego minha bicicleta que há dois anos namoro. É uma de freio contrapedal, não gosto de freio de mão, acho muito brusco, prefiro a que permite a elegante derrapada de lado.

Quando menino salvou-me do desastre. Costumava fazer o que chamávamos de circuito da Gávea. Saíamos em bando de Copacabana, no Lido, atravessávamos Ipanema, Leblon, Jóquei, Jardim Botânico, Botafogo e pelo Túnel Novo, de volta em casa. Certa vêz, atravessando a Siqueira Campos, bobeei e dei de cara com um pesadíssimo caminhão que me cortaria ao meio. Dei aquela freada de lado, a roda de trás, graças a deus, só ela foi passada por cima, eu safei-me, ela sacrificou-se por mim. Sob as vistas do povo, assustado com a iminência, voltei a pé, com a heroina gemendo, a roda torta, raios partidos, raspando na armação.

Dois anos de namoro, por que não fizeste como nos outros de consumação imediata? Por que não compraste logo o objeto de desejo e o consumistes. Hesitei primeiro porque eram dois modelos, um preto, que preferi, e um de alumínio, mais visível ao trânsito, principalmente no escuro. Não seja por isso, o preto pode ser adornado com os olhos de gato, talvez seja essa a melhor solução.

O que de repente mais pesa é saber se a minha preguiça garante a volta. É que nem escada: pra baixo todo santo ajuda, pra cima a coisa toda muda. Na ida, tudo é farra, mas na volta … Também posso deixá-la guardada em alguma parte, sempre há. Principalmente se beber, sacumé, se beber não dirija. Dirigir carro sinceramente enfasteei-me, tô achando muito chato, não tem direito como andar, é quase parando, e menos ainda onde parar, dando voltas e mais voltas pra ver se pinta vaga, não pinta.

Outro dia no mercado, só consegui parar numa praça a três quarteirões, e aí com as tantas sacolas condenadas de plástico, sempre se compra mais do que se precisa, bateu aquele pé d´água costumeiro, e lá fiquei eu na porta um tempão pagando prenda esperando aquela amainada na chuva que nunca chega pra não ficar e as compras encharcado que nem pato que só se molha porque quer o que não era o meu caso.

É verdade que de bicicleta chovendo é pior, aí mesmo é que molha tudo, se chover não bicicleteie, acrescento. Quando menino andar na chuva a pé ou de camelo era o maior barato. Agora, nos meus meia cinco, me dá uma má vontade da porra, prefiro ir pro terraço ver a tempestade no mar: água para a água, doce no sal.

Vejo que as previsões para o aquecimento global são de mais tempestades, não sei como as previsões são também para escassez de água, no resto do mundo talvez seja, mas no nosso brazilzinho vai ser ruim secar nossa hidrografia. Sei não, com tanta ciência, não dava pra colher as borrascas, ordenhá-las, como se faz com as vacas, empurrando a bezerrada? Sei sim, desde 21 do 12 ninguém estranhe se me vir passando a pedalar sem chuva, é claro, e sem cachaça, mas com o vale idoso no bôlso, invisível, benvindo a mais um passo para a ansiada serena idade.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

Antigamente

quarta-feira, dezembro 9th, 2009

Antigamente

(um monólogo a ser filmado).

Zana, meu nome é Zana, Suzana Zana. Su … Zana. Eu me apresento porque eu não sou conhecida, vocês não me conhecem e eu também não conheço vocês

Mas estamos aqui, todos juntos, respirando o mesmo ar sujo de poeiras, gases e fumaças das cidades, dos campos, das matas, das geleiras e do céu.

E o barulho, os barulhos das máquinas, o vozerio, as campainhas, tudo nos faz ficar indiferentes: – A indiferença é o preço da sobrevivência! E sobreviver acima de tudo é o que é preciso.

Aprendemos desde pequenos, não andes pelos caminhos, anda na tua, não te metas no alheio, fica na tua, seja indiferente… aos diferentes.

Indiferentes ao que vemos e ao que somos? E essa gente abandonada pelas ruas é para nós um estôrvo? Nem são tantas mas parece que a cada esquina sempre tem umas a desafiar a indiferença da nossa sobrevivência mas permanecemos indiferentes.

Até olhamos com desprêzo, chegamos a rir da desgraça alheia, não pensamos que pode acontecer a qualquer um de nós, ninguem está livre da decadência. Eu não, passa fora, vira essa bôca pra lá!

Representamos uns para os outros e para nós mesmos.Somos atores naturais, encenamos o que achamos que é o melhor de nós mesmos, nem sempre somos, nem sempre é.

E desfilamos rua afora de casa para o trabalho, para o trabalho, para casa empenhados em garantir nem o futuro mas o presente para si e para os seus. Ninguém vive no futuro, né, nem no passado! O dia que passou devemos comemorar, o dia que virá, bem, ninguém sabe o que virá.

Mas nada no caminho pode nos descaminhar. De que serve os caminhos se não pudermos caminhá-los. Acordo de manhã e saio à procura do que fazer. Nunca é fácil. Uma trombada aqui, outra trombada ali, temos que ir passando, e conosco a vida passa.

Às vêzes a gente até tenta consertar os erros, os erros que a gente faz. Melhor não, um remendo, outro remendo, de tanto remendo, a costura nem segura. Melhor deixar os furos, os furinhos, pensa só que é como um céu estrelado. As estrelas da noite acabam servindo de consolo pros pobres.

Nessa imensidão, nesse mundão de deus não terá lugar pra uns furinhos que nem nós? Que é que uns furinhos pode atrapalhar a vida das pessoas. Se não atrapalha, deixa estar, um dia o pano junta se preciso e fica tudo bem.

Bem, desculpe, eu tenho que ir… fazer a sopa e botar os meninos pra dormir. Não, não é preciso … Bom, já que insiste, duas moedas de 1, é o que me ajuda.  Eu estava mesmo só de passagem. FIM.

A que serve o cinema

segunda-feira, dezembro 7th, 2009

A que serve o cinema.

Leio estarrecido que no Mato Grosso do Sul milicia e pm expulsam os terena de sua terra tradicional. Em nosso mundo contemporâneo convivemos com tempos históricos diversos, sociedades em diversas condições sociais e econômicas, condições estas geradas pelo domínio do capitalismo.

E não aprendemos a conviver com os nossos iguais, gente como a gente, e alegamos mundos e fundos para nos darmos o direito de desrespeitá-los os direitos deles. Alegar propriedade sobre terra indígena, a dos nativos da terra, beira o absurdo.  Tambem não se pode esquecer que deveriam como todos nós estar sujeitos à guarda da União. Que União é essa que não consegue dirimir interesses tão básicos e deixa chegar às raias plena da violência do poder nacional contra os cidadãos naturais desarmados ante ao evidente abuso de poder do estado.

O estado não tem o direito de usar armas contra a população porque republicanamente foi ela que lhe conferiu o monopólio legítimo de defendê-la e nunca de atacá-la. Só ao estado se reconhece o poder das armas, as demais se existem são ilegítimas, o que torna o cidadão um ser desarmado frente ao estado.

Não será o estado de tão  empenhado em garantir a taxa de lucro capaz de com a rapidez com que compra dólares articular as condições de sobrevivência de seus cidadãos evitando confrontos evidentemente antes que eles ocorram. Sempre se soube que o maior fator de conflito no país é a questão fundiária com questionáveis títulos de propriedade em algum momento fraudados quem sabe no Império.

Li tal notícia em lista de discussão de cinema, em que pouco se discute e menos se resolve. Procuro circunscrever-me em minha área de trabalho, não posso dar palpite em tudo, às vêzes dou, e pelo visto não sou só eu. E isto porque dificilmente conseguimos resolver ou mesmo entender os nossos embaraços, que dizer os dos outros. Em tudo há duas partes.

Contava meu pai o causo acontecido com ele: um servidor da faculdade um dia propôs-lhe a seguinte questão: duas pessoas discutem, uma tem razão e a outra não tem; a quem o senhor daria razão? A quem tem, é claro. Errado. Quem tem já tem, não precisa. É preciso dar a quem não tem.

Talvez não seja aqui o caso mas com certeza é ao estado que incumbe zelar pela convivência ordeira de seus cidadãos, o que se torna terrível quando se parte para a agressão e a violência ao invés dos acordos e compensações necessárias sempre que as divergências se acirram.

O que mais me impressiona neste como em muitíssimos outros casos é a omissão do estado, um faz que não vê, e ao espoucar dos problemas, ao invés de resolvê-los, desembarca as tropas tanto faz se federais, estaduais ou municipais.

Um país como o nosso, abençoado por Deus  em que não creio, com sua vasta dimensão, recursos de tôda a natureza, não é possível que não caiba além de sua população originária tambem nós outros pós-chegados mas a esta altura todos igualmente contemporâneos e aqui nascidos igualmente brasileiros.

Tanta terra tem que servir a tanta gente só que não ao mesmo tempo e não no mesmo lugar. Dois pra lá, dois pra cá, será que os nossos maestros não sabem dançar?

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)