Antigamente

Antigamente

(um monólogo a ser filmado).

Zana, meu nome é Zana, Suzana Zana. Su … Zana. Eu me apresento porque eu não sou conhecida, vocês não me conhecem e eu também não conheço vocês

Mas estamos aqui, todos juntos, respirando o mesmo ar sujo de poeiras, gases e fumaças das cidades, dos campos, das matas, das geleiras e do céu.

E o barulho, os barulhos das máquinas, o vozerio, as campainhas, tudo nos faz ficar indiferentes: – A indiferença é o preço da sobrevivência! E sobreviver acima de tudo é o que é preciso.

Aprendemos desde pequenos, não andes pelos caminhos, anda na tua, não te metas no alheio, fica na tua, seja indiferente… aos diferentes.

Indiferentes ao que vemos e ao que somos? E essa gente abandonada pelas ruas é para nós um estôrvo? Nem são tantas mas parece que a cada esquina sempre tem umas a desafiar a indiferença da nossa sobrevivência mas permanecemos indiferentes.

Até olhamos com desprêzo, chegamos a rir da desgraça alheia, não pensamos que pode acontecer a qualquer um de nós, ninguem está livre da decadência. Eu não, passa fora, vira essa bôca pra lá!

Representamos uns para os outros e para nós mesmos.Somos atores naturais, encenamos o que achamos que é o melhor de nós mesmos, nem sempre somos, nem sempre é.

E desfilamos rua afora de casa para o trabalho, para o trabalho, para casa empenhados em garantir nem o futuro mas o presente para si e para os seus. Ninguém vive no futuro, né, nem no passado! O dia que passou devemos comemorar, o dia que virá, bem, ninguém sabe o que virá.

Mas nada no caminho pode nos descaminhar. De que serve os caminhos se não pudermos caminhá-los. Acordo de manhã e saio à procura do que fazer. Nunca é fácil. Uma trombada aqui, outra trombada ali, temos que ir passando, e conosco a vida passa.

Às vêzes a gente até tenta consertar os erros, os erros que a gente faz. Melhor não, um remendo, outro remendo, de tanto remendo, a costura nem segura. Melhor deixar os furos, os furinhos, pensa só que é como um céu estrelado. As estrelas da noite acabam servindo de consolo pros pobres.

Nessa imensidão, nesse mundão de deus não terá lugar pra uns furinhos que nem nós? Que é que uns furinhos pode atrapalhar a vida das pessoas. Se não atrapalha, deixa estar, um dia o pano junta se preciso e fica tudo bem.

Bem, desculpe, eu tenho que ir… fazer a sopa e botar os meninos pra dormir. Não, não é preciso … Bom, já que insiste, duas moedas de 1, é o que me ajuda.  Eu estava mesmo só de passagem. FIM.

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