Meus Meia Cinco

Meus Meia Cinco.

Já vos brindei com o meu sexagenário, adiciono agora mais cinco. Nenhuma mudança extraordinária, só as costas reclamam um pouco além do que já reclamavam. Este ano o meu 20 caiu no domingo, na segunda realizo meu sonho de consumo: o vale-idoso de transporte. Passearei por aí tudo sem precisar contar e portar moedas, estarei mais leve e solto. Ah! E também meu segundo presente, pode, não pode?

Geralmente, presente é um só por pessoa, mas pra quem se acostumou a ver seu niver e o presente embrulhados com o Natal, desta vez dou-me dois, ambos destinados à livre locomoção, vou na loja e pego minha bicicleta que há dois anos namoro. É uma de freio contrapedal, não gosto de freio de mão, acho muito brusco, prefiro a que permite a elegante derrapada de lado.

Quando menino salvou-me do desastre. Costumava fazer o que chamávamos de circuito da Gávea. Saíamos em bando de Copacabana, no Lido, atravessávamos Ipanema, Leblon, Jóquei, Jardim Botânico, Botafogo e pelo Túnel Novo, de volta em casa. Certa vêz, atravessando a Siqueira Campos, bobeei e dei de cara com um pesadíssimo caminhão que me cortaria ao meio. Dei aquela freada de lado, a roda de trás, graças a deus, só ela foi passada por cima, eu safei-me, ela sacrificou-se por mim. Sob as vistas do povo, assustado com a iminência, voltei a pé, com a heroina gemendo, a roda torta, raios partidos, raspando na armação.

Dois anos de namoro, por que não fizeste como nos outros de consumação imediata? Por que não compraste logo o objeto de desejo e o consumistes. Hesitei primeiro porque eram dois modelos, um preto, que preferi, e um de alumínio, mais visível ao trânsito, principalmente no escuro. Não seja por isso, o preto pode ser adornado com os olhos de gato, talvez seja essa a melhor solução.

O que de repente mais pesa é saber se a minha preguiça garante a volta. É que nem escada: pra baixo todo santo ajuda, pra cima a coisa toda muda. Na ida, tudo é farra, mas na volta … Também posso deixá-la guardada em alguma parte, sempre há. Principalmente se beber, sacumé, se beber não dirija. Dirigir carro sinceramente enfasteei-me, tô achando muito chato, não tem direito como andar, é quase parando, e menos ainda onde parar, dando voltas e mais voltas pra ver se pinta vaga, não pinta.

Outro dia no mercado, só consegui parar numa praça a três quarteirões, e aí com as tantas sacolas condenadas de plástico, sempre se compra mais do que se precisa, bateu aquele pé d´água costumeiro, e lá fiquei eu na porta um tempão pagando prenda esperando aquela amainada na chuva que nunca chega pra não ficar e as compras encharcado que nem pato que só se molha porque quer o que não era o meu caso.

É verdade que de bicicleta chovendo é pior, aí mesmo é que molha tudo, se chover não bicicleteie, acrescento. Quando menino andar na chuva a pé ou de camelo era o maior barato. Agora, nos meus meia cinco, me dá uma má vontade da porra, prefiro ir pro terraço ver a tempestade no mar: água para a água, doce no sal.

Vejo que as previsões para o aquecimento global são de mais tempestades, não sei como as previsões são também para escassez de água, no resto do mundo talvez seja, mas no nosso brazilzinho vai ser ruim secar nossa hidrografia. Sei não, com tanta ciência, não dava pra colher as borrascas, ordenhá-las, como se faz com as vacas, empurrando a bezerrada? Sei sim, desde 21 do 12 ninguém estranhe se me vir passando a pedalar sem chuva, é claro, e sem cachaça, mas com o vale idoso no bôlso, invisível, benvindo a mais um passo para a ansiada serena idade.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

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