Re-moçar

Re-moçar.

Nêste dezembro último reuniram-se os colegas da turma de 63 no colégio que desde então não nos tínhamos mais visto. Era pra eu ir, como mais tarde lhes mensageei, mas caiu aquela chuva braba que tudo entope e alaga, e vendo aquela parede d´água à minha frente arrepiei caminho e conformei-me a do alto de meu terraço em Charitas-sur-mer vê-la cair água na água.

Quase todos no entanto tiveram melhor sorte e o encontro foi um sucesso, quase todos lá, menos eu. Menos eu em corpo, pois não é que um dêles levou um poema que eu na época havia escrito a pedido de outro dêles pra galantear a jovem de seus sonhos, uma Helena que jamais conheci, e que ele descrevera-me assim assim.

E era, acreditem, um manuscrito em minha letra e assinado em 1962, aos dezasset´anos, se bem me lembro, e agora vi-o pois mandou-me em pdf, revi-o 47 anos passados, já tendo-o dado por perdido. Dizem que é normal ser poeta e comunista na juventude e anormal depois, e eu continuo sendo os dois, coisa que ninguém diria lendo tais versos, que hoje acho que transponho nestas prosas e nos meus filmes.

Sou o que se chama de poeta bissexto, falta-me a continuidade: paro e escrevo, escrevo e paro, mas tem uns tantos por aí, e agora os guardo como não o fiz na época.  Na época, como muitos, mantive um caderno em que recolhia meus poemas, talvez maus mas meus. Meus sim, de certa forma, embora evidentes transcriações dos poetas consagrados de meu gôsto, de Camões a Vinicius, via Gonçalves Dias e Castro Alves, este ultimo servindo como poderão constatar de modelo a meus versos para Helena.

Também de mesma época fiz uma notável tradução do famoso If, de Rudyard Kipling, em inglês, que tampouco guardei e não sei se alguem ainda me fará o favor de ter guardado. Meu caderno infelizmente num maldito surto de autocrítica foi pro lixo. Deve ser por isso que desde então abomino críticas, as construtivas então dá vontade de matar. Como alguem se atreve a querer paternalizar-me, será que eu não me enxergo? Será que não sei o meu lugar nos olimpos da vida?

Imagino que tudo isso pouquíssima importância terá pra quem me lê, mas já que me lê, é pelo menos curioso ver a volta que o tempo dá e que certamente de um ou de outro jeito com todo o mundo acontece. Retrato não vale, descobrir em algum baú como já fomos engraçadinhos é demais materialista.

Melhor é a flôr sêca  amassada entre o livro, de quem dirá? Ou um bilhete sem destino ou remetente que a vulgaridade de nossos dias chama de torpedo. E olha o proustiano sentir da madeleine, mostrando que estou em ótima companhia, o doce perfume junto ao chá aciona a máquina do tempo de cada um, e ela existe. Olhem os meus versos: um pedido feito a pedido, pois não é o poeta um fingidor como Pessoa?

“Por quem sonhas?

Ó Helena, tão amada, desejada.

Por quem tremes?

Por quem gemes?

Por quem choras?

Por quem sonhas?

Do teu sono sem lampejo, meu desejo é despertar-te.

Mas tu sonhas, tao risonha, tão amada, desejada

Meu desejo perde vida, és tão querida!

Por quem tremes?

Teus cabelos, luz dourando, fogem soltos por teu rosto.

Fazem ondas na tua fronte tão amada, desejada.

Teus cabelos tremem inda, és tão linda!

Por quem gemes?

Tua bôca semi-aberta, mal-desperta pede beijos.

Dar-tos-ei em tua bôca tão amada, desejada.

Dar-tos-ei de minh´alma, és tão calma!

Por quem choras?

Nos teus olhos, são castanhos, bens tamanhos, correm larmas.

Doce lágrima eu tivesse tão amada, desejada.

Mas as larmas se não movem, és tão jovem!

Ó Helena, és tão pura! Minha jura mais perene.

Ó Helena, por ti choro, por ti sonho,

por ti tremo, por ti gemo”.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

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