Archive for janeiro, 2010

A Luta do Curta.

quarta-feira, janeiro 27th, 2010
Ao contrário de voce, evito personalizar as discussões. E extrais mal.
Pouco importa quem ou o que nestes detalhes. O fato é que a lei do
curta, o art. 13, explicitamente em vigor, nunca foi abolido, como
mais recentemente reconheceu o Ministério Publico, consultado pelo
Marcelo Lafitte, e o escândalo é uma lei federal ser descumprida pelo
governo federal, Weffort, Gilberto Gil, Juca ou quem quer que o
represente.

O projeto Magela naquela época, tantos anos atrás, não era uma “nova
lei”. Não se pode fazer uma “nova lei” quando a anterior permanece em
vigor como reconhecido em várias instâncias. Tratava-se de uma emenda
para explicitar incluindo no próprio texto da lei o que estes
ministros e suas parvas assessorias alegavam e que poderia ser uma
simples portaria do ministro como hoje pode ser essa besteira de
instrução normativa que a Ancine de antes e de agora só usam para
beneficiar os estrangeiros, poupe-me a exaustiva repetição.

E a Ancine de ontem e de hoje recusa-se a cumprir a lei federal. E
como conta o próprio Marcelo: “mas a ABD Nacional, bem

como as ABDs presentes, endossaram a proposta do Santeiro.

No último dia da plenária final, antes das
entidades votarem as resoluções, Ugo Sorrentino
(então dirigente da FENEEC) nos parou no corredor
(estávamos Leopoldo Nunes, Roger Madruga e eu) e
pressionou para que esta proposta do Magela não
fosse aprovada pelo CBC.”

Isto é o que se chama de “golpe”. Sem consulta a ninguem fêz-se um
conchavo espúrio tanto faz que seja um ou meia dúzia, de A, B, ou C, o
fato é que o então presidente da ABD Nacional contrariou a decisão da
plenária das ABDs, favorecendo os exibidores que defendem os
interesses do cinema estrangeiro de cujos meros 5% viria a justa
remuneração dos curtistas, cuja defesa é a principal razão de
existencia das ABDs.

Nesta democracia colonizada qualquer um pode defender os interesses do
inimigo estrangeiro menos o poder de estado e espero que tambem as
entidades de classe dos trabalhadores brasileiros. Se exibidores
brasileiros e hoje como na época os estrangeiros cinemarks e
similares, ou seja, os patrões, os burgueses querem impedir o povo
brasileiro de se ver nas telas, curtas, médias ou longas não é
possível que se aceite que imponham suas normas e regras ao estado
brasileiro e menos ainda que se busque “acordos” que não serão
cumpridos simplesmente porque nunca foram.

Coincidencia ou não o fato é que as ABDs tem servido de escada a estes
titulares vindos do nada passarem a ocupar os cargos de governo do
audiovisual e a escamotear e descumprir a lei, além dos demais e
inúmeros prejuizos ao cinema brasileiro como um todo, e além da
perseguição explícita a inúmeros realizadores independentes, cujos
protestos tambem devem constar de seu notável e meritório banco de
dados. Poupem-me seus nomes, é lamentável.

Encurtando a conversa, afinal trata-se do curta, a sugestão de
aplicar-se o incentivo fiscal, que é manipulado diretamente pelos
ministros da cultura e outras agencias de governo como petrobrases,
eletrobrases e demais ases, através tambem de coleguinhas traíras da
classe que julgam, vetam ou aprovam como querem as propostas dos
colegas de classe, podendo então as bestas dos ministros mitigar as
injustificadas alegações de prejuizos de exibidores testas de ferro do
monopólio da exibição estrangeira no mercado brasileiro, o que é mais
um crime inominável.

Pois muito bem, pra voces, há dez, 15 ou 20 anos no pedaço pode ser
que o arrego seja solução, mas o que se pleiteia, e sou apenas o que
lembro, nada invento, é o mero e simples cumprimento de uma lei que
tanto foi dando certo até os anos 90, com muita luta, que permitiu a
tal da “primavera do curta”, e depois o verão, o outono, e o inverno e
porque não depois de novo a primavera, o verão e etc, e o princípio da
carreira de todos voces que pelo visto acham que tudo se deveu ao
acaso ou ao inegável talento pessoal de cada um. Desconhecem o que é a
longa luta do curta que muito menos minha foi de muitos, de tantos,
alguns até citados, e por mim e tantos outros presenciada de perto há
mais de  40 anos, e hostilizada brutalmente por fulano, sicrano e
beltrano, com quem partilhávamos os pfs da vida.

Já vai longa esta mensagem, imagina se eu for historiar em detalhe a
luta do cinema e do curta brasileiro desde o nosso patrono Humberto
Mauro tambem ele alijado por esta maldita prevalência dos invasores
estrangeiros acobertados pelos governos e seus aliados nativos.

O que parece que voces não entendem e pra mim isto é o que basta, é
que não podemos permitir a nossa miséria e a nossa exclusão, a de
todos nós, e não apenas as meias dúzias escolhidos e selecionados,
como voces insistem em defender. Qualquer que seja a proposta tem que
ser indistintamente para todos e não só para alguns. Quem banca? Tem
que bancar os que manipulam as NOSSAS verbas publicas, os que se
banqueteiam, passeiam, festivaleiam, compram sórdidos programas estrangeiros para as 
teves, inclusive a “esta-é-a-tal”, criada e dirigida por ex-abedistas.

Todos os brasileiros tem direito nato em qualquer área ou setor à
preferencia no atendimento de suas necessidades do que qualquer
estrangeiro e é para isto e  só para isto que existe o estado e seus
governos. Tolerar a exclusão de qualquer um dos 200 milhões de brasileiros em favor de um 
único batráquio alienígena é crime de alta traição ao povo brasileiro que não dispensa 
nenhum de nós em sua indispensável defesa.

E por favor, poupe-nos de sua desinformação esclarecida e seletiva, assim como espero que 
um dia nos poupem da traição dos coleguinhas, então a vitória será fácil porque somos nós 
os realizadores independentes brasileiros os melhores intérpretes audiovisuais das 
necessidades e da vontade do povo brasileiro nosso único soberano. s.

Citando Marcos
Manhães Marins <marcos@cinemabrasil.org.br>:

Remoçando.

sábado, janeiro 23rd, 2010

Remoçando.

Não sei porque insistir, mas insisto. São casualidades que tornam-se causalidades? Falei a vocês do reencontro do colégio em dezembro quando ressurgiu o meu poema castroalvino para a Helena que não conheci e ao reproduzir a coluna para os colegas lamentando a perda da minha tradução na época em 1962 para o famoso poema If, de Rudyard Kipling, não é que outro deles, o Pedro Paulo me diz que o tinha guardado.

E, de novo, 47 anos depois, revi-o e o reconheci. Não sei porque o traduzi, talvez por desafio, quem sabe dele se falou em alguma aula, uma aula de inglês provávelmente. Embora nativista radical, nacionalista não, o conceito de nação é mais uma das barbaridades na nascença do capitalismo, engodo unificando as republicas e monarquias europeias para o domínio do imperialismo sobre o mundo, no entanto, dei-me e muito prezo o aprendizado do inglês e francês que permitiu-me sem sair de casa viajar literáriamente nestas línguas e isto me basta, não preciso sair do meu quintal, ainda mais agora, nas ondas da rede.

Meu nativismo, eu fruto de minha terra e minha gente, não me impede antes me estimula visitar os nativismos alheios, Kipling, o grande e festejado escritor britânico nascido em Bombaim a 1856 e morto em Londres a 1936, Nobel de Literatura em 1903, mereceu por outro lado de seu compatriota George Orwell o apôdo um tanto inglório de profeta do imperialismo inglês. Seu poema If (Se) é sem duvida uma destas louvações ao individualismo liberal que não deveria ou deveria ter me encantado à época. Não creio. Não que já tivesse então as minhas convicções comunistas de agora mas certamente desde cedo, aos dezasset’anos, ou ainda bem antes já não me faltava o gôsto da bravata que orgulhosamente hoje como ontem ostensivamente cultivo.

Mais tarde ainda como estudante de sociologia de fato traduzi alguns clássicos como Mannheim, Merton e Deutscher não só pelos trocados ou créditos no curso mas pela empáfia de dizer na minha lingua o que disseram eles nas deles. Seja como fôr, ofereço-lhes este arroubo juvenil que cotejado com o original que tambem lhes ofereço não ficou de todo mal, com algumas licenças, afinal tradutor traidor, só o que mais lhe falta é a musicalidade nas palavras, esta vejo que me faltou. Primeiro êle, o original, depois a minha, a tradução. Contextos à parte, é sempre uma bela canção, e nesta revisita, remoça-me e retorna-me como se possível aos tempos há tempos passados.

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don’t deal in lies,
Or, being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;

If you can dream – and not make dreams your master;
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build ‘em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on”;

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings – nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run –
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man my son!

If (de Rudyard Kipling, em minha tradução, 1962).

Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres
Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objetivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,

e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
“Aguenta-te!”

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender
Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu és um Homem, meu filho!

Sergio Santeiro.

Somos Imitadores.

sábado, janeiro 2nd, 2010

Somos  Imitadores.

Somos imitadores, temos dois olhares, olhamos no espelho e olhamos em volta. No espelho para ver se estamos nos agradando, em volta para ver se estamos agradando aos outros. E vamos  nos imitando e imitando os outros para apurar o agrado.

Podemos também cultivar o desagrado, de repente o que nos agrada é desagradar a outrem, merecida ou imerecidamente, é como açúcar e sal, um revela o outro, não são o mesmo, não são idênticos, não são iguais, antípodas, o postos, um não cabe onde cabe o outro, ou cabe?

Cabemos, é claro que cabemos, é só um o mundo, só está mal distribuído, ou melhor, nunca foi distribuído, foi sendo apropriado e apropiando-se os apropiadores pela força, esta coisa inumana porque tampouco é universalmente distribuída. A força só se mantém pela força, nada há que a justifica a não ser o seu emprego para o bem geral de todos.

Há que se usar a força e também a das idéias para se debelar os obstáculos naturais, a esta altura dos  milênios, também multiplicados por nós, pelos detentores da força humana, mal aplicada porque não é universalmente distribuída. Mas não é, não se pode, usar a força contra no mínimo nenhum de nós humanos. Ou será contra os viventes?

Há quem acredite, quase chego lá, que tudo é vivente, tudo é vida.  Parece que tudo é emanação e troca de energia, isto é a vida. Quando pára, quando cessa, quando fêz-se?

Bem aí a coisa complica, e eu não vim pra complicar-me. Como desatar o nó górdio do pensamento sem nos desatarmos de todo? Por enquanto deixa estar. Quem sabe algum dia o nó desfaz-se por si mesmo ou alguém desata-o: um Einstein, um Darwin ou um Marx.

Em que espelhos nos vemos? O de dentro ou o de fora, e nos outros  igualmente o que é dentro ou o que é fora? Babel de espelhos e miragens, gentes passando de dentro pra fora e de fora pra dentro. A quem imitamos? E é claro que não é só conscientemente, há como uma mímesis, uma imitação natural, vemos mais aos outros que a nós mesmos no de fora, no de dentro  inverte-se a equação, vemos mais a nós mesmos que aos outros, nova babel.

Profundezas à parte, o certo é que temos a humanidade mal distribuída até na imitação, temos imitado mal.  Começa que montou-se o que se chama vida humana como as pirâmides, piramidal. Continua que a base apesar de dominada pela força da cúpula ela é que é a força que a tudo sustenta.

E ela é a que vive a vida humana, a medida que se vai subindo, vai se acrescentando esquemas para afastar-se da base, querem os cupuláveis subir sempre mais. Vai se inventando negócios, valores, mentalidades que mantém a inexplicável supremacia das pirâmides,babéis.

Em baixo, aqui no chão, multiplica-se a vida, necessàriamente compartilhada, tem menos para os muitos, e a medida que se sobe mais sobra para os poucos. Como solução, abaixo as pirâmides, como  a babel.  Cada um só terá direito ao maior espaço de sua sombra, e será um recomeço. Espelho, espelho meu, alguém será mais agradável  do que eu, ou desagrado-vos?

Sergio  Santeiro  (santeiro@anaterra.mus.br).