Archive for fevereiro, 2010

Cara e Coroa.

sexta-feira, fevereiro 26th, 2010

Cara e coroa.

Se der cara, meta a cara, vá em frente, pé no jato. Se der coroa, contenha-se, pé no freio, aguarde. Somos todos apenas indivíduos, quase idênticos, mas sempre cada um diferente dos semelhantes de nossa espécie. A cada um sua identidade, sua cara e seu enigma.

Nas outras espécies achamos que todos são iguais, todos tem a mesma cara, a mesma aparência. Até mesmo em relação a outros povos também achamos que todos tem a mesma cara, o que até conta no tocante à identidade do povo que certamente não tem a mesma cara e das espécies, o que eu não sei.

Achamos, por exemplo, que todas as formigas de um mesmo tipo são iguais entre si, não as distinguimos uma da outra, claro que ninguem confunde saúva com tanajura que até podem ter a mesma  cara mas não terão, digamos, a mesma coroa.

Além dos determinantes de-ene-aúticos, em que piamente acredito, somos fruto das circunstancias em que vivemos e dos acasos que atravessam à nossa frente sem obedecer a sinais. Se estiver cansado nem eu mesmo percebo os sinais que me instruem e, sem vê-los, posso atravessar no vermelho ou fora da faixa, o que pode dar em nada, mas é pouco recomendável, não se deve abusar da sorte.

Sorte é quando se ganha, azar, que não se deve dizer sob pena de atraí-lo, é quando se perde. Raios, perdi o trem, pode ser sorte se o acaso, o destino, que te esperava não fôr benfazejo. E se o fôr sempre tem jeito de refazer o mau acaso. Há males que vêm para o bem, há bens que sempre acabam.

Tanto é que o homem, na sua sapiência, que ele acha que o distingue das demais espécies, inventou o jogar da moeda, e primeiro inventou-a, para lhe dar uma dica de como agir, de como enfrentar o acaso. Certamente não é para comprá-lo que é só pra que servem as moedas, mas é pra ajudar-nos a responder ao permanente enigma da existência: ou dá ou desce.

Como em muitas outras coisas, parece que a sapiência humana é binária, assim é que últimamente inventou o computador como sua extensão, o que joga no acaso entre o um e o nada. Que esfinge que nada: – decifra-me ou devoro-te, mero binário, qual o que, nem olho, passo batido.

O êrro nesse enigma é parar pra respondê-lo. O bicho tá lá, contido em sua condição de firmemente plantado no solo, tanto é que séculos não o moveram, é só sair do alcance de seu bote. E grande como é, pesado, fica  mais difícil pegar-nos na corrida.

E ainda recupero no Anibal Machado, em seu Caderno de João, Livraria José Olympio Editora, RJ, 1957, p.25, sua anedota a respeito:“- Ou tu me decifras, ou eu te devoro. A Esfinge dera longo prazo. Não foi decifrada. E quando ia aplicar a pena, achou que não era preciso: os próprios homens se entredevoravam. Então começou a rir. Ri até hoje …”

Não é que divirja do mestre, mas sendo como sou, quase igual aos seres da minha espécie, eu sou esperto, prefiro jogar a moeda, nem que seja a última,  que resta, no ar, para enfrentar o acaso, para que me diga se vencedor ou perdedor. Tem que dar cara.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Parece.

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010

Parece.

Até parece que em tudo é assim: um bando de espertos que se investe de poder e favorece um bando de neófitos que em reconhecimento lhe rende homenagens. Para alguns, nesta ou naquela posição, sua carreira é longa, apesar das flutuantes condições, sempre dão um jeito de retornar aqui e ali no exercício do mando.

Estranho, curioso e injusto mundo, o do mando. Claro que ninguém pode exercer todas as funções na vida e tanto mais complexos e numerosos somos na terra, a grande, o universo ou o planeta, e a pequena, em que efetivamente cada um de nós vive, cada um deve procurar mover-se com suas habilidades e, ao exercitá-las, crescer com elas.

Mas tinha que hierarquizar as infindáveis funções, quando parece que a cada dois, um há de querer mandar?  Cá entre nós, entre o lixeiro e eu, qual o mais indispensável à vida? Como posso imaginar que a mim me caberia o mando sôbre o lixeiro. Nesta inacreditável sociedade nossa de mais consumo e mais lixo, melhor o lixeiro que nos livra da peste.

E mais inacreditávelmente porque essa nossa sociedade mais lixenta não transforma os lixeiros em operários da reciclagem do  lixo, diminuindo o prejuízo evidente que o lixo nos causa. Industrializá-lo a cada bairro, a cada região, a cada cidade, conforme à razoabilidade.

Nem sei como é ou pode ser essa sociedade sem mando, parece que é assim nas ditas primitivas, ou seja nem sempre imperou o mandonismo. Atualmente diriam que cairia na anarquia. E no que vivemos senão uma anarquia controlada pelo mando do poder e do dinheiro?

Ora, sabeis que o dinheiro não existe, é uma mera convenção social como dar bom dia ao cachorro.

O dinheiro compra  tudo, só não compra o pleno exercício da função de cada um para o bem estar de todos. Sem ninguém querer mandar em ninguém, acredito que seria um mundo melhor e perfeitamente possível.

Entre mais velhos e mais novos, há um certo mandar, digamos, natural, que visa a não repetirmos os    erros, tipo, se botar a mão no fogo, queima. Embora também se diga que é  com os erros que melhor se aprende. E o aprender é na verdade buscar o que desperta a nossa atenção, daí deriva o progresso da humanidade, por incrível, há um progresso, que infelizmente não beneficia igualmente a todos.

Cada um que  aprende  e descobre soma a sua descoberta num enorme acervo de acertos, melhor é seguirmos com eles, ao invés de insistirmos sempre em inventar a roda. Seguir exemplos é uma boa medida, seguir os bons é melhor, apesar de tantas vezes e na história do  mundo o que mais se faz é seguir os maus. Vejam as guerras,por exemplo, será que não se aprende que não pode, não dá certo?

O pior de tudo é que geralmente os mandões, que já são um erro em si, padecem de outro erro fundamental: pouco ouvem, pouco vêem e muito falam, ou mesmo que pouco falem. Sua voz, no entanto, no alto a que indevidamente chegaram, soa como forte em cima de nós outros, não só porque somos naturalmente humildes, mas porque sabemos que não  somos os bilhões melhores que ninguém e, portanto, não nos cabe mandar. Também não deveríamos obedecer, é um erro.

Obedecer? Tenho para mim que obedecer é sinistro. Se não reconhecemos o mando não temos por que reconhecer o obedecer. Se a palavra é justa e correta devemos concordar e agir conformemente. Se não, não. Sem combatermos e acabarmos com o mandonismo, eventualmente a começar por nós mesmos, pouco poderemos gozar nesta vida. Nem sim, e muito menos, senhor.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus..br).

É carnaval.

sábado, fevereiro 6th, 2010

É carnaval.

Sou brasileiro, sei que vão estranhar, mas não gosto de carnaval. Não gosto dêsse jeito, com dia e hora pra começar e pra acabar. Prefiro o ano inteiro a qualquer dia e a qualquer hora quando der na telha.Verdade que pra muita gente é meio assim, baiano então, diz que baiano não nasce, estreia.

Nasci carioca, em Copacabana, vira e mexe, gosto de fantasiar e de fantasiar-me. Sou do tipo que dorme que nem uma pedra e só sonha acordado. Um belo dia de fevereiro a gente acorda e parece que o mundo pirou, é homem vestido de mulher, tem a ala das escrotas, tem a das baianas, tem o bloco dos sujos, tem o comigo ninguem pode, tem uma porção deles.

Últimamente, ressurgido o carnaval de rua, não mais o corso, hoje é a multidão de blocos, imagina, até organizados. O que raramente se consegue no resto do ano que é juntar um bando de gente com a mesma disposição no tríduo momesco é mole. A mulherada toda nua tirando o sossego da gente, ou nem tanto, de tanta esmola até quem não é cego desconfia.

E claro, é como peça no museu, é só pra olhar, não é pra tocar, mas o que tem de cabra folgado não está no gibiu, e folgado nem sempre se dá mal, só petisca quem arrisca. Se der problema finge que tá bêbo, ou tá mesmo, o de bêbado não tem dono, e as mãos são como as pernas, escorregam, precisa se agarrar num poste, ou na cabrocha pertinho.

A maioria nem liga porque se ligar dá choque, melhor é tambem fingir que não viu ou não sentiu, a menos que considere de seu interesse, quem sabe o bofe tem mão elétrica, e no carná a eletricidade é contagiante.

Não há surpresa, tá  no calendário, a turma se prepara o ano inteiro pra tudo se acabar na quarta  feira, nem sempre, a cada ano vai esticando mais um dia pra depois e porque não dizer pra antes. O tríduo vira semana ou quem sabe mês, não é que seja abuso, mas é que é gostoso, regala a vista, e quem é que quer parar o jogo. Se perder, tem direito, se ganhar tem que dar revanche, e nesse jogo não pode ter um a um.

E tem o desfile de escola de samba que, como dizem, virou negócio mas sem deixar de ser popular.

Antes, no seu começo, Ismael, aqui da terrinha, e seu Paulo era uma festa da maior responsa. É uma festa pagã no intervalo das missas, talvez como a capoeira, como a feijoada, réplica do escravo ao domínio da coerção. Não por acaso, entoa o Silas: “Liberdade abre as asas sôbre nós”, sàbiamente apropriando-se do opressor.

É isso aí o carnaval: uma reversão do jogo, que foi se insinuando, foi se afirmando e foi se impondo

acima das otoridades que tambem revidam querem mas não conseguem mandar no jogo, ele salta de um lado pro outro como o passista, seus reis os mestres-sala sòmente se curvando na elegancia pra suas rainhas as porta-bandeiras e beijando o lábaro, o estandarte de sua devoção.

Até sambódromo criaram, a genial criação, embora tirando a escola da  avenida, fizeram uma avenida só pra elas, coroada pela escola integral pros filhos e netos dançarem melhor na vida que nas comunidades empobrecidas onde tôda essa vida começou. Perda não foi, é mais uma volta que o povo dá como quando ao final do primeiro desfile ao invés de acabar voltou a escola vindo por onde ia indo.

Não deixei de reparar que ao sair do asfalto, os pretos sôbre o preto, nunca perderam o brilho ainda no chão agora pintado de branco para ajudar as imagens nas têvês. Pouco importa, mais luz, mais luz pro povo passar. Pena que depois se disperse. Pois é, o carnaval do povo é pra ser o ano inteiro,  quem sabe, ano que vem.        Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Fim de Mundo

quinta-feira, fevereiro 4th, 2010

Fim de Mundo.

Agora compra agora gasta

agora poupa trabalha trabalha

vem o cara e diz dá cá

que eu vou ali vender

nem volta manda mais

dois cara um  diz dá cá

o outro coça o cinto

tem arma ou tem peixeira

aí eu digo não

melhor dizer que sim

senão apanha apanha

o outro nunca mais

se vê agora é dono

preciso ter comida

agora compra e paga

agora paga e poupa

trabalha trabalha

e nunca mais se vê

o fruto do trabalho

agora paga e paga

agora gasta e gasta

não tem com que pagar

farinha os dois levaram

nem pra comer sobrou

primeiro o outro levou

depois os dois levaram

e aí mandaram um outro

e paga e paga e paga

não tem com que pagar

nem pra comer sobrou

senão apanha e apanha

senão vai apanhar

seu moço não me bate

tô velho no trabalho

o que guardei poupei

agora eu vou buscar

e lá do fim do mundo

o dono a gargalhar

poupou poupou poupou

o vento deu levou

o que poupou poupou

farinha vai no vento

o vento esfarinhou

o vento esfarinhou

o que poupou poupou

não é justo me debato

mandou gastar gastei

mandou poupar poupei

gastei só pra comer

gastei só pra plantar

o pouco que sobrou

o que sobrou poupei

o dono gargalhou

o que poupou o vento

o vento esfarinhou

e agora não tem mais

nem mais para plantar

nem mais para comer

nem mais para plantar

e agora trabalhar

e agora trabalhar

nem trabalhar não dá

não tem o que comer

não tem o que plantar

o dono a gargalhar

mandou mais um capanga

capanga a ameaçar

e agora tu vai ter

vai ter que trabalhar

sem ter o que comer

sem ter o que plantar

e agora trabalhar

e agora trabalhar

sem ter o que comer

sem ter o que plantar

vai trabalhar na roça

na roça que eu mandar

sem ter o que comer

sem ter o que plantar

na roça que eu mandar

na roça vai roçar

pra ter o de comer

sem ter o de plantar

vai trabalhar pra mim

o dono a gargalhar

vai trabalhar pra mim

sem ter o que poupar

vai trabalhar pra mim

e vai comprar de mim

e vai comprar de mim

pra ter o que comer

pra ter o pra gastar

pra ter o que gastar

pra ter o que comer

e vai comprar de mim

sem nunca mais poupar

o dono a gargalhar

e assim é só farinha

o braço a esfarinhar

farinha o dono leva

o corpo a esfarinhar

roçando a roça dele

que a minha o vento leva

a minha o vento leva

e pro sem fim levou

levou minha farinha

e lá do fim do mundo

o dono gargalhou

o dono gargalhou

meu corpo esfarinhou

farinha o vento leva

meu corpo esfarinhou

farinha o vento leva

meu corpo esfarinhou

nem mais comprar comprei

nem mais plantar plantei

nem mais gastar gastei

nem mais poupar poupei

e lá do fim do mundo

o dono gargalhou

meu mundo se acabou

farinha o vento leva

meu mundo esfarinhou

meu mundo esfarinhou

e a trova se acabou.

FIM.

Sergio Santeiro

(santeiro@anaterra.mus.br)