Fim de Mundo

Fim de Mundo.

Agora compra agora gasta

agora poupa trabalha trabalha

vem o cara e diz dá cá

que eu vou ali vender

nem volta manda mais

dois cara um  diz dá cá

o outro coça o cinto

tem arma ou tem peixeira

aí eu digo não

melhor dizer que sim

senão apanha apanha

o outro nunca mais

se vê agora é dono

preciso ter comida

agora compra e paga

agora paga e poupa

trabalha trabalha

e nunca mais se vê

o fruto do trabalho

agora paga e paga

agora gasta e gasta

não tem com que pagar

farinha os dois levaram

nem pra comer sobrou

primeiro o outro levou

depois os dois levaram

e aí mandaram um outro

e paga e paga e paga

não tem com que pagar

nem pra comer sobrou

senão apanha e apanha

senão vai apanhar

seu moço não me bate

tô velho no trabalho

o que guardei poupei

agora eu vou buscar

e lá do fim do mundo

o dono a gargalhar

poupou poupou poupou

o vento deu levou

o que poupou poupou

farinha vai no vento

o vento esfarinhou

o vento esfarinhou

o que poupou poupou

não é justo me debato

mandou gastar gastei

mandou poupar poupei

gastei só pra comer

gastei só pra plantar

o pouco que sobrou

o que sobrou poupei

o dono gargalhou

o que poupou o vento

o vento esfarinhou

e agora não tem mais

nem mais para plantar

nem mais para comer

nem mais para plantar

e agora trabalhar

e agora trabalhar

nem trabalhar não dá

não tem o que comer

não tem o que plantar

o dono a gargalhar

mandou mais um capanga

capanga a ameaçar

e agora tu vai ter

vai ter que trabalhar

sem ter o que comer

sem ter o que plantar

e agora trabalhar

e agora trabalhar

sem ter o que comer

sem ter o que plantar

vai trabalhar na roça

na roça que eu mandar

sem ter o que comer

sem ter o que plantar

na roça que eu mandar

na roça vai roçar

pra ter o de comer

sem ter o de plantar

vai trabalhar pra mim

o dono a gargalhar

vai trabalhar pra mim

sem ter o que poupar

vai trabalhar pra mim

e vai comprar de mim

e vai comprar de mim

pra ter o que comer

pra ter o pra gastar

pra ter o que gastar

pra ter o que comer

e vai comprar de mim

sem nunca mais poupar

o dono a gargalhar

e assim é só farinha

o braço a esfarinhar

farinha o dono leva

o corpo a esfarinhar

roçando a roça dele

que a minha o vento leva

a minha o vento leva

e pro sem fim levou

levou minha farinha

e lá do fim do mundo

o dono gargalhou

o dono gargalhou

meu corpo esfarinhou

farinha o vento leva

meu corpo esfarinhou

farinha o vento leva

meu corpo esfarinhou

nem mais comprar comprei

nem mais plantar plantei

nem mais gastar gastei

nem mais poupar poupei

e lá do fim do mundo

o dono gargalhou

meu mundo se acabou

farinha o vento leva

meu mundo esfarinhou

meu mundo esfarinhou

e a trova se acabou.

FIM.

Sergio Santeiro

(santeiro@anaterra.mus.br)

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