É carnaval.

É carnaval.

Sou brasileiro, sei que vão estranhar, mas não gosto de carnaval. Não gosto dêsse jeito, com dia e hora pra começar e pra acabar. Prefiro o ano inteiro a qualquer dia e a qualquer hora quando der na telha.Verdade que pra muita gente é meio assim, baiano então, diz que baiano não nasce, estreia.

Nasci carioca, em Copacabana, vira e mexe, gosto de fantasiar e de fantasiar-me. Sou do tipo que dorme que nem uma pedra e só sonha acordado. Um belo dia de fevereiro a gente acorda e parece que o mundo pirou, é homem vestido de mulher, tem a ala das escrotas, tem a das baianas, tem o bloco dos sujos, tem o comigo ninguem pode, tem uma porção deles.

Últimamente, ressurgido o carnaval de rua, não mais o corso, hoje é a multidão de blocos, imagina, até organizados. O que raramente se consegue no resto do ano que é juntar um bando de gente com a mesma disposição no tríduo momesco é mole. A mulherada toda nua tirando o sossego da gente, ou nem tanto, de tanta esmola até quem não é cego desconfia.

E claro, é como peça no museu, é só pra olhar, não é pra tocar, mas o que tem de cabra folgado não está no gibiu, e folgado nem sempre se dá mal, só petisca quem arrisca. Se der problema finge que tá bêbo, ou tá mesmo, o de bêbado não tem dono, e as mãos são como as pernas, escorregam, precisa se agarrar num poste, ou na cabrocha pertinho.

A maioria nem liga porque se ligar dá choque, melhor é tambem fingir que não viu ou não sentiu, a menos que considere de seu interesse, quem sabe o bofe tem mão elétrica, e no carná a eletricidade é contagiante.

Não há surpresa, tá  no calendário, a turma se prepara o ano inteiro pra tudo se acabar na quarta  feira, nem sempre, a cada ano vai esticando mais um dia pra depois e porque não dizer pra antes. O tríduo vira semana ou quem sabe mês, não é que seja abuso, mas é que é gostoso, regala a vista, e quem é que quer parar o jogo. Se perder, tem direito, se ganhar tem que dar revanche, e nesse jogo não pode ter um a um.

E tem o desfile de escola de samba que, como dizem, virou negócio mas sem deixar de ser popular.

Antes, no seu começo, Ismael, aqui da terrinha, e seu Paulo era uma festa da maior responsa. É uma festa pagã no intervalo das missas, talvez como a capoeira, como a feijoada, réplica do escravo ao domínio da coerção. Não por acaso, entoa o Silas: “Liberdade abre as asas sôbre nós”, sàbiamente apropriando-se do opressor.

É isso aí o carnaval: uma reversão do jogo, que foi se insinuando, foi se afirmando e foi se impondo

acima das otoridades que tambem revidam querem mas não conseguem mandar no jogo, ele salta de um lado pro outro como o passista, seus reis os mestres-sala sòmente se curvando na elegancia pra suas rainhas as porta-bandeiras e beijando o lábaro, o estandarte de sua devoção.

Até sambódromo criaram, a genial criação, embora tirando a escola da  avenida, fizeram uma avenida só pra elas, coroada pela escola integral pros filhos e netos dançarem melhor na vida que nas comunidades empobrecidas onde tôda essa vida começou. Perda não foi, é mais uma volta que o povo dá como quando ao final do primeiro desfile ao invés de acabar voltou a escola vindo por onde ia indo.

Não deixei de reparar que ao sair do asfalto, os pretos sôbre o preto, nunca perderam o brilho ainda no chão agora pintado de branco para ajudar as imagens nas têvês. Pouco importa, mais luz, mais luz pro povo passar. Pena que depois se disperse. Pois é, o carnaval do povo é pra ser o ano inteiro,  quem sabe, ano que vem.        Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Comments are closed.