Parece.

Parece.

Até parece que em tudo é assim: um bando de espertos que se investe de poder e favorece um bando de neófitos que em reconhecimento lhe rende homenagens. Para alguns, nesta ou naquela posição, sua carreira é longa, apesar das flutuantes condições, sempre dão um jeito de retornar aqui e ali no exercício do mando.

Estranho, curioso e injusto mundo, o do mando. Claro que ninguém pode exercer todas as funções na vida e tanto mais complexos e numerosos somos na terra, a grande, o universo ou o planeta, e a pequena, em que efetivamente cada um de nós vive, cada um deve procurar mover-se com suas habilidades e, ao exercitá-las, crescer com elas.

Mas tinha que hierarquizar as infindáveis funções, quando parece que a cada dois, um há de querer mandar?  Cá entre nós, entre o lixeiro e eu, qual o mais indispensável à vida? Como posso imaginar que a mim me caberia o mando sôbre o lixeiro. Nesta inacreditável sociedade nossa de mais consumo e mais lixo, melhor o lixeiro que nos livra da peste.

E mais inacreditávelmente porque essa nossa sociedade mais lixenta não transforma os lixeiros em operários da reciclagem do  lixo, diminuindo o prejuízo evidente que o lixo nos causa. Industrializá-lo a cada bairro, a cada região, a cada cidade, conforme à razoabilidade.

Nem sei como é ou pode ser essa sociedade sem mando, parece que é assim nas ditas primitivas, ou seja nem sempre imperou o mandonismo. Atualmente diriam que cairia na anarquia. E no que vivemos senão uma anarquia controlada pelo mando do poder e do dinheiro?

Ora, sabeis que o dinheiro não existe, é uma mera convenção social como dar bom dia ao cachorro.

O dinheiro compra  tudo, só não compra o pleno exercício da função de cada um para o bem estar de todos. Sem ninguém querer mandar em ninguém, acredito que seria um mundo melhor e perfeitamente possível.

Entre mais velhos e mais novos, há um certo mandar, digamos, natural, que visa a não repetirmos os    erros, tipo, se botar a mão no fogo, queima. Embora também se diga que é  com os erros que melhor se aprende. E o aprender é na verdade buscar o que desperta a nossa atenção, daí deriva o progresso da humanidade, por incrível, há um progresso, que infelizmente não beneficia igualmente a todos.

Cada um que  aprende  e descobre soma a sua descoberta num enorme acervo de acertos, melhor é seguirmos com eles, ao invés de insistirmos sempre em inventar a roda. Seguir exemplos é uma boa medida, seguir os bons é melhor, apesar de tantas vezes e na história do  mundo o que mais se faz é seguir os maus. Vejam as guerras,por exemplo, será que não se aprende que não pode, não dá certo?

O pior de tudo é que geralmente os mandões, que já são um erro em si, padecem de outro erro fundamental: pouco ouvem, pouco vêem e muito falam, ou mesmo que pouco falem. Sua voz, no entanto, no alto a que indevidamente chegaram, soa como forte em cima de nós outros, não só porque somos naturalmente humildes, mas porque sabemos que não  somos os bilhões melhores que ninguém e, portanto, não nos cabe mandar. Também não deveríamos obedecer, é um erro.

Obedecer? Tenho para mim que obedecer é sinistro. Se não reconhecemos o mando não temos por que reconhecer o obedecer. Se a palavra é justa e correta devemos concordar e agir conformemente. Se não, não. Sem combatermos e acabarmos com o mandonismo, eventualmente a começar por nós mesmos, pouco poderemos gozar nesta vida. Nem sim, e muito menos, senhor.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus..br).

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