Cara e Coroa.

Cara e coroa.

Se der cara, meta a cara, vá em frente, pé no jato. Se der coroa, contenha-se, pé no freio, aguarde. Somos todos apenas indivíduos, quase idênticos, mas sempre cada um diferente dos semelhantes de nossa espécie. A cada um sua identidade, sua cara e seu enigma.

Nas outras espécies achamos que todos são iguais, todos tem a mesma cara, a mesma aparência. Até mesmo em relação a outros povos também achamos que todos tem a mesma cara, o que até conta no tocante à identidade do povo que certamente não tem a mesma cara e das espécies, o que eu não sei.

Achamos, por exemplo, que todas as formigas de um mesmo tipo são iguais entre si, não as distinguimos uma da outra, claro que ninguem confunde saúva com tanajura que até podem ter a mesma  cara mas não terão, digamos, a mesma coroa.

Além dos determinantes de-ene-aúticos, em que piamente acredito, somos fruto das circunstancias em que vivemos e dos acasos que atravessam à nossa frente sem obedecer a sinais. Se estiver cansado nem eu mesmo percebo os sinais que me instruem e, sem vê-los, posso atravessar no vermelho ou fora da faixa, o que pode dar em nada, mas é pouco recomendável, não se deve abusar da sorte.

Sorte é quando se ganha, azar, que não se deve dizer sob pena de atraí-lo, é quando se perde. Raios, perdi o trem, pode ser sorte se o acaso, o destino, que te esperava não fôr benfazejo. E se o fôr sempre tem jeito de refazer o mau acaso. Há males que vêm para o bem, há bens que sempre acabam.

Tanto é que o homem, na sua sapiência, que ele acha que o distingue das demais espécies, inventou o jogar da moeda, e primeiro inventou-a, para lhe dar uma dica de como agir, de como enfrentar o acaso. Certamente não é para comprá-lo que é só pra que servem as moedas, mas é pra ajudar-nos a responder ao permanente enigma da existência: ou dá ou desce.

Como em muitas outras coisas, parece que a sapiência humana é binária, assim é que últimamente inventou o computador como sua extensão, o que joga no acaso entre o um e o nada. Que esfinge que nada: – decifra-me ou devoro-te, mero binário, qual o que, nem olho, passo batido.

O êrro nesse enigma é parar pra respondê-lo. O bicho tá lá, contido em sua condição de firmemente plantado no solo, tanto é que séculos não o moveram, é só sair do alcance de seu bote. E grande como é, pesado, fica  mais difícil pegar-nos na corrida.

E ainda recupero no Anibal Machado, em seu Caderno de João, Livraria José Olympio Editora, RJ, 1957, p.25, sua anedota a respeito:“- Ou tu me decifras, ou eu te devoro. A Esfinge dera longo prazo. Não foi decifrada. E quando ia aplicar a pena, achou que não era preciso: os próprios homens se entredevoravam. Então começou a rir. Ri até hoje …”

Não é que divirja do mestre, mas sendo como sou, quase igual aos seres da minha espécie, eu sou esperto, prefiro jogar a moeda, nem que seja a última,  que resta, no ar, para enfrentar o acaso, para que me diga se vencedor ou perdedor. Tem que dar cara.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Comments are closed.