O mal do mundo.

O mal do mundo.

O homem mau dorme bem, diz a lenda. Geralmente durmo bem e não me consta que eu seja mau, até evito pisar em formiga, embora  seja de certo modo alvo de algumas maldades, de que nem reclamo ao ver o tamanho e a quantidade das maldades que nos cercam no mundo que não me atingem, atingindo em cheio tantos mais de nossos semelhantes.

E não estou a falar das tragédias e das catástrofes que tanto animam e alimentam a mídia pátria, parece que não lhe interessa outro assunto que não os mortos, os feridos e os escombros que vão buscar no mais longínquo chão quando não no nosso.

No nosso até faz algum sentido, pode ser que algo esteja ao meu alcance, senão serve sòmente para sublinhar a nossa pequenez de gente face a enormidade do universo e à intimidaçao dos desastres naturais e dos não tão naturais como as guerras e o avião espatifado no himalaia.

Bem sei que somos os brasileiros privilegiados, aqui a natureza é pródiga, ela não nos aflige, ao contrário, este é o mais rico rincão do planeta, aqui só nos afligimos uns com os outros e na verdade poucos afligem mais os muitos. Mas que o que querem é nos intimidar, logo a nós, seus fregueses, disto não tenho a menor dúvida.

Há algum tempo dizia-se de alguns papéis que se torcer dá sangue, não sei como torcer os noticiários de tv, todos idênticos, mas que daria daria, muito, quase só, e dos outros, claro, porque o deles fica sempre protegido naquela limpeza hígida e luxuosa de cenários virtuais.

Fora isso, ou entre isso, tome de comerciais que pelo preço sómente alcançam de fato os privilegiados gerando na imensa maioria de desprivilegiados o mesmo sentimento de pequenez e de intimidação que os excessos da natureza. E temos que ganhar muito, mais que os outros,  para poder gastar como manda a mídia.

Carro só se for do ano, afora serem a crescente desgraça do convívio urbano, gostava mais dos exclusivos desenhos de cada qual, um gordini, um dkw, um fusca, que essa atual robustez igual em todos,  não sei se efetiva, justificada segundo dizem pelo melhor desempenho que tampouco sei pra que serve engarrafados uns trás os outros nos cada vez menores espaços das cidades. Nêles como em tudo e por tudo acabamos escravizados pelas marcas industriais e por elas marcados.

Sei que sou um privilegiado, privilégio significa o que é privativo, o que não é de todos, é o que priva os demais do que só nós podemos ter. Quando menino, um enteado meu, na volta da escola privada a poucos quarteirões de casa foi despojado por um ou uns outros meninos de seu tênis de marca. Imagino que ninguém o despojaria de um calçado comum ou até sim no andar da carruagem em que andamos.

Para manter os nossos privilégios que insistimos em aumentar e o desprivilégio geral teremos que cada vez mais circunscrever nossos andares, cada vez mais nos privarmos de andar perto aos desprivilegiados, nós, aterrados em frente às tevês cuspindo sangue. Ou não: tivéssemos todos o de que necessitamos e não o que nos mandam ter, nem privilegiados, nem desprivilegiados.

Algo no gênero do que ouvi dizer: um verdadeiro comunista é um cristão, embora não o saiba, e um verdadeiro cristão é um comunista, embora não o queira. Ambos cultivamos a igualdade porque sem ela não temos todos como sobreviver. Como dizia o Conselheiro: quem estiver de sapato não sobra.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

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