Gira Geraes

Gira Geraes.

Assisto o maior espetáculo de arte contemporânea, aqui na Cantareira, onde assisti outros notáveis como Patricia Britto, o Bloco do Vigário, o São do Mato e agora o Gira Geraes. Gosto de surpresas. Sei que todo o mundo, muita gente, tem trabalho há muito tempo, mas eu, como espectador comum, que não tenho como saber de tudo, sou mais de vêr o que não esperava.

Girando a geral. O que ainda não se viu é que é original.São artistas múltiplos, e não é só a música, é a presença, é personalidade, o que sei que existe tanto por aí, e que é próprio do país inteiro, mas como lá, em tudo não posso estar, minha satisfação é ver isto aqui na minha esquina.

Artistas que se exercem nem só por fôrça do ofício, nem só, mas arte viva, a que emana de quem se apresenta. Quem se apresenta é rei. Estamos todos assistindo. E eles são os que dão o tom. A arte na rua é a melhor do mundo.

Pouco importa, embora inquiete, ninguém vive de brisa, a viabilidade apenas comercial desta arte. E é preciso cuidar disto também para que sobreviva, para que não se exaure à míngua, enquanto os de cima nos entopem olhos e ouvidos com a tralha que lhes enche os bolsos.

O azar é que a viabilidade comercial não sabe sequer ser comercial. Não sabe que esta explosão que a quem está por perto agrada pode ser ampliada para todos porque é forte na base, é forte de espirito. Como se faz agora, não é só música, não é só som, é palavra, é dança, que é a expressão do corpo.

Não é de estrelas que se faz o mundo em que vivemos, elas ficam lá poucas, penduradas no além, pisadas pelos negócios a recolher tostões de tantos de nós até juntar o milhão pra jabazar a captura de mais tostões para o bolso dos emprusurários, medianeiros desta mediocridade que não nos ilumina, cintila ao longe, só de longe, muito longe.

A nossa turma é a que faz palco em tôda a parte, a que anda conosco, a que é parte da multidão, a que é trabalho. Capetalistas nas tôrres do poder ou das televisões não são o que nos alimenta nem o corpo nem a alma, são os que nos extorquem e tornam dificil a nossa vida e o pão do espírito.

Se não fôsse trágico seria engraçado como fabricam e como se servem do sucesso, nem estou preocupado em negar aos exitosos mérito, mas o tanto que cada vez é de mais poucos melhor seria aplicado aos muitos. Concentração é coisa de campos de extermínio. De muitos e para muitos é mais melhor que a penúria geral que os poucos mandões garantem, até quando o que de todos vier  para todos voltar.  Quem manda não sabe o que é fazer.

Essa gente, esses meninos o que fazem não é só alguma coisa, espalham-se por todo o lado. Este é o desafio artístico que se põe pra nós, pro quarteirão, pra esquina, pro mundo. E temos que acreditar não no que vem de cima, no que manda a máquina, mas no que vem do chão, o que emerge do sentimento, o que nos bota na rua, sentindo, aplaudindo.

E nós que ali estamos usufruindo o espetáculo também não podemos só usufruir, precisamos coçar o bolso, sabemos que nem o cafezinho e nem a coca são de graça, que dirá o suor alheio. Precisamos retribuir o que no nosso mundo de perdas e ganhos significa contribuir para o ganho e não para a perda dos que estão a nos expôr o seu trabalho que como todo trabalho é o ganha-pão de cada um. Esta é a arte.

É a que está ali, o bate-bolas batendo bola à nossa frente, enquanto a vocal gira a cabeça, gira com os braços, gira geral à frente do som. O verbo é encarnado e encarnado é a côr que nos faz prazer.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

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