Archive for maio, 2010

As universidades.

segunda-feira, maio 24th, 2010

Nem tudo são flores. Há tantos espinhos. Erguidas como santuários na Idade Média, universidades insistem em continuar medievais. Entre seus muros a centralização de poder, como na sociedade em geral, atropela as necessidades e demandas dos vários campos do saber. Também é muita a presunção, presumem-se a universalidade do conhecimento: monastérios são sucedidos por ministérios.

Na minha modesta praia, a arte, reza a experiência que o que vale não é o mando, é o convívio, melhor que universidade era o velho Liceu de Artes e Ofícios. Ali iniciantes acompanhavam o trabalho dos mestres em que a arte imita a vida que imita a arte. A arte é imitação, e a vida, o que é? Mera transmissão de saberes?

Aprendemos que atravessar a rua sem olhar é perigoso. Atropelado ou trombando, dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo espaço, ou podem? Olhando, e sabendo, podemos avaliar o não mesmo tempo e o não mesmo espaço que nos permita atravessá-la com sucesso. Mais difícil é obedecer às cores do sinal ou semáforo, nem todos obedecem, e basta um que não pra nos levar a vida.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo; quanta besteira! Com isto pensa o poder que se legitima , essa coisa abjeta, geralmente o poder de não poder, ou é o poder que não pode ou é o que não deixa os outros poderem. Lá na universidade, atrás de seus muros, é também a mesma coisa.

Poucos podem e muitíssimos não podem, seja porque não sabem,  seja porque sabem mais e são atropelados pelos que sabem menos. O que o cara quizer, façamos logo, sem tugir nem mugir. Assim não dá, eu tujo e mujo.

É como o aluguel, só tens direito, se avalizado por um donatário. Nestes vais e vens não só perde-se muito tempo como perde-se o que se estava a fazer. Parado! Mamãe, posso ir? Quantos passos? Ao lado, o saber definha, existir sempre existe, mas perde seu sentido de instruir, de ensinar aprendendo, e aprendendo ensinar. Assim é que se descobre não o mando, árido, mas o convívio, fecundo.

Toda uma vida ali dentro, o que aprendi? Que não se bate o prego sem estopa, machuca a mão. Que uma andorinha, só, não faz? Verão! Quem vem depois não se soma a quem veio antes, o que se fêz, desfaz-se, como a borracha apaga o lápis.Quando estudante andava aqui e ali catando saberes, depois fiquei tentando plantá-los, flores no asfalto. Felizmente sempre tem quem as colha mas saberão plantá-las?

Momentos houve e ainda os há em que julguei passar dos muros, de dentro pra fora, e de fora pra dentro, pulá-los, mas fazem-se paredes. Atravessá-las, dizem ser possível, nossos átomos cabendo nos vãos dos seus. Isto ainda não tentei, só quando fôr apenas alma, andarei nos corredores ou de sala em sala, como nos monastérios.

Lá dentro ouve-se vozes, murmúrios, orações, liturgias, celebrações, ladainhas. São tugúrios. Eu tanto queria não ficar a ouvir os ecos ou a arrepiar-me de sofreguidões. Não me agrada lamber botas ou chãos. Meus cuidados não se prestam a vassalagens. Prefiro ser pândego.

Infelizmente não aprendi a ser monge, aprendi sim a beber o vinho e a comer a carne. É como eu dizia, às universidades prefiro os liceus.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

A cultura.

terça-feira, maio 18th, 2010

É tudo o que o animal faz: seus ninhos, sua comida, a criação dos filhotes. A tartaruguinha sai andando do ninho na areia e entra nadando no mar. Andando, nadando, é só o n que muda de lugar. Ao que dizem, conosco, os humanos, foi ao contrário: a nadar no mar viemos a andar na terra.

A cultura era tudo o que fazíamos na convivência uns com os outros sobrevivendo na natureza: ninhos, comida, filhotes. Na sociedade primitiva a cultura era como tudo coletiva: os instrumentos, as práticas, o que fazer com a mandioca, a cestaria, os adornos, as pinturas. Todos comungavam partilhando-se a cultura sem donos.

De lá pra cá, e sob o império do capital, a cultura individualiza-se como propriedade de donos e assim como se apropria do trabalho alheio para gerar dinheiros, apropria-se da cultura para gerar ideologias. Ideologias são o conjunto de idéias que se usa para manter a dominação de uns sobre os outros.  Mas como o trabalho, a cultura não é a posse de donos.

Recriando-se e expandindo a cada momento a cultura é a resposta humana às contingências da natureza em permanente transformação: a cultura modifica a natureza que modifica a cultura. Não pode ter donos. No entanto, os donos da sociedade, os que dela històricamente se adonaram, as burguesias de tal modo operam para se apoderarem do que os homens produzem tanto o trabalho quanto a cultura, distorcendo o sentido de um e outra.

Ao invés de expandirem-se na relação com a natureza acabam sendo atrofiados, o trabalho espremido entre o emprêgo e o desemprêgo, a cultura entre a oficial e a independente. Na evolução do processo de apropriação capitalista ergue-se o que se denomina de industria cultural, a cultura passa a ser manipulada como se fôsse exclusivamente mercadoria. Tudo no mundo capitalista é mercadoria e por isso é que aí fica aprisionada a iniciativa humana subjugada ao domínio do comércio avêsso à invenção, à criação, que não seja a repetição de um mesmo modelo, daí ser vista como indústria, a industria cultural.

Porem, a cultura como criação antecede o domínio ou mesmo a existência do mercado que é o lugar do comércio, mercado e comércio eles mesmos criações culturais quando as sociedades primitivas foram sendo transformadas nas sociedades modernas, foram sendo descoletivizadas, foram sendo individualizadas e divididas entre empregados e desempregados, entre criadores e mantenedores culturais.

Dividindo-os, incluindo uns e excluindo outros, disseminam a disputa predatória entre a minoria que estimula e a maioria que subjuga. No mundo em que vivemos é muito difícil sobreviver na exclusão, e os excluidos são a grande maioria.  Assim tambem é o que sucede no mundo da cultura. Convivendo e tendo que disputar sua sobrevivência com a cultura burguesa, a cultura oficial ou a industria cultural, expressões da mesma coisa sob vários nomes, a criação cultural permanece viva e atuante porque sua razão de ser não é o seu valor em dinheiros mas o seu valor em dizer dos fenômenos da vida em que vivemos.

E então vemos a burguesia que se apodera da sociedade e os governantes que a representam empenharem-se em que a cultura não seja o que da sociedade emana e sim o que eles querem que seja, a mera reprodução de valores consagrados apenas para as operações de consumo no mercado que lhes renda o vil metal.

Geralmente entregam a gestão cultural a capatazes ignorantes e truculentos que insistem em inventar uma atuação paralela reprimindo a cultura autôma e esbagaçando os propositalmente escassos recursos publicos enquanto deixam o mercado permanecer invadido e dominado pelos estrangeiros.

Deixa estar, por mais que se esforcem, o seu domínio é puramente temporário e a cultura como acender um fogo é eterna.

Sergio Santeiro

Te cuida nikit.

segunda-feira, maio 10th, 2010

Te cuida nikit.

Depois da chuva das águas e suas graves consequências, a cidade periga ganhar uma chuva de bandidos, egressos do confronto com a polícia no Rio. Não me digam que não, é o mais provável. O sucesso das operações lá significa, no mínimo, a tentativa de estabelecerem-se aqui. Claro, Niterói  não só é menor, como felizmente não tem escala para abrigar a complexidade do crime organizado do Rio, mas basta atravessar a ponte ou navegar na baía para fugir ao assédio e ao cêrco oficiais que os vem desalojando.

À frente de sua gleba, Araribóia contempla mais uma invasão de invasores, e uma cidade, um município, não tem como se defender. Uma cidade é composta básicamente por seus moradores, apesar do enorme fluxo dos que trabalham no Rio e dos que de fora trabalham aqui. É um pecado não poderem os trabalhadores morar próximo a seu trabalho ou trabalhar próximo a sua morada.

Mantem-se a expansão urbana desordenada e predatória como em todo o país, fruto do atraso em pelo  menos 200 anos sem reforma agrária que assentasse no campo os camponeses produzindo a necessária provisão de alimentos ao invés de empurrá-los a se empilharem na cidades atravessando-as de lá pra cá atrás do que comer e aos seus.

Chegamos ao escárnio de ver poderosas corporações transnacionais espojarem-se em nossas terras exaurindo-as com suas ervas e com a praga dos trangênicos, os agrotóxicos agora chamados de defensores envenenando a que já foi louvada como em se plantando tudo dá. Isso quando aqui estávamos em nosso nirvana tropical protegidos pelas florestas e águas abundantes de então dizimadas pelas sucessivas monoculturas extensas do açucar, café e soja e dos gados soltos a pastar sem fim.

Tanto tempo a acumularem-se erros fica dificil de repente consertá-los todos mas é preciso começar para que não continuem a se multiplicar e porque parece que estamos cada vez mais contra as paredes a caminho da sem saída. Seria preciso imaginar as cidades a partir de seus moradores  e em seu entorno blindá-las contra as invasões de fora, como se fôssem países.

Até nisto o país é fantástico, não é aqui que se fazem as armas e as drogas que tecem a violência criminal. Somos invadidos e apesar dos tantos fortes e fortalezas em nossas orlas não tem as cidades como defender-se porque somos tão tolerantes com o que vem de fora e tão pouco com o que se vê ao lado.

Achamos bonito invejar o estrangeiro e suas máquinas de guerra, as que atiram e as que desempregam, queremos copiar-lhes a violência e a repressão entre nós que não dão certo lá e não tem como dar certo aqui. Não sei o que é bom pra eles mas para nós o que se exige é moradia e trabalho para todos em nossas cidades.

Refazê-las, fazê-las urbanas,com urbanidade,ou vocês acham que resolve jogar os meninos e seus papelotes nas cadeias, gentes vagando atônitas sem o que fazer, e gentes atarantadas em correr atrás e longe para caberem nêste tosco e mesquinho mercado de sonhos capitalista. Sonhos de ser o que não somos são pesadelos.

Dizem que os bandidos não virão pra cá, assim esperamos, a melhor defesa não é o ataque, é a prevenção,é cuidar melhor dos que vivemos dentro para não sucumbirmos ante os que nos vem de fora.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Utopia e Barbárie.

segunda-feira, maio 3rd, 2010

Utopia e Barbárie.

(o que teu filme me fêz pensar).

Aprendi quando traduzi do inglês o “Ideologia e Utopia”, de Karl Mannheim que utopia é projeto. Não é sonho, não é devaneio, não é desejo. É o que se precisa, o que se tem que fazer. A utopia significa trazer para o nível concreto, externo, o atendimento das necessidades que vão surgindo ao longo dos tempos e até  hoje nunca foram satisfatóriamente atendidas.

Há sempre um momento em que parece que o tempo pára, a energia reverte-se e o que sobrevem é uma fase de barbárie. A barbárie é a cena primitiva de toda a humanidade. Reza a lenda que dos filhos de Adão e Eva, o casal original, Caim matou Abel, o mau matou o bom. É a fatídica condição humana: irmão contra irmão.

Podemos pensar ao contrário: Abel o bom matou Caim o mau. A repressão matou a rebeldia. Eis a barbárie: o que é o bom e o que é o mau. Ouvi dizer que israelitas e ismaelitas são primos. São civilizações que vieram de um mesmo tronco como, ao que consta, todos nós humanos, e fomos nos apartando uns dos outros até que cada um se considere o bom e o outro seja considerado mau, alternada e mútuamente.

O mal nunca vence mas ainda estamos muito distantes de matá-lo. Ressurge aqui e ali, não diria quando menos se espera, aí está o materialismo histórico para nos ajudar a entender. Não o determinismo econômico que não é bem assim; é em última instância. Também não gosto do materialismo dialético, no limite, na negação da negação da negação, não se sai do lugar.

É bom para analisar depois o que aconteceu mas para o mundo andar para a frente, para pretender conseguir atender às necessidades que são as mesmas de sempre mas para uma humanidade crescente em número e diversidade. Para isto é que existe a utopia. Para projetar e projetar-nos a um futuro melhor, em que o homem não explore o homem, o bem não mate o mal, o mal não mate o bem, ninguém mate ninguém.

Além da paz, supremo anseio da humanidade, talvez encontremos o verdadeiro paraíso perdido, quando não havia guerra. Necessidades e dificuldades, sim, na luta pela sobrevivência na natureza. De lá certamente viemos,  mas não sei por conta de que mistério,  dela nos separamos fazendo cultura, que são os meios e as formas de moldá-la a nossas necessidades.

Nessa alternância tantas vezes mortal entre utopia e barbárie, irmão contra irmão é simplesmente o homem contra o homem, um contra o outro. Ao invés de somarem-se querem subtraírem-se, o que é zero. Revestidos na presunção de que são o bem e de que os outros são o mal, carreiam toda a energia social para exterminá-los.

Desviam todos os frutos do trabalho de seu povo para armarem-se e partirem em guerras para conquistar terras em que não nasceram, e ainda assim julgam-se o bem e ideologizam como se lutassem contra o mal.

O império das colônias da América do Norte antecipa em séculos o racismo, a expansão territorial e o extermínio em massa que se considera atributos do nazismo. Talvez por isso tenha se atrevido a explodir a bomba atômica que explodiu o mundo, e isto não para vencer a guerra que já estava ganha mas para ameaçar o mundo com sua supremacia bélica.

Montou o seu império, redesenhou o mapa e implantou em pleno o modo de produção capitalista assentado no estado industrial militarista, históricamente determinado a um nunca acabar de guerras, dominação dos povos e extermínio dos rebeldes.

Berlim tombou ante os russos e Paris foi liberada pela resistência chefiada pelo comunista Jean Moulin, entregue pelos americanos aos nazistas para que a França não saísse comunista da guerra. A guerra entre comunistas e anarquistas entregou a Espanha à ditadura franquista. A guerra entre leninistas e trostkistas entregou a União Soviética à ditadura stalinista.

Para mim o mais extraordinário conceito contemporâneo é a autodeterminação dos povos, cuja insurgência é o que estamos assistindo em nossos dias. A dos povos, a célula básica, a comunidade de origem e hábitos comuns, de mesma cultura, de mesmo estilo de vida construído nos embates da sobrevivência com a natureza. Aprendendo e defendendo-se dos fenômenos naturais, organizando-se em grupos de convivência em tribos, aldeias e progressivamente em cidades, burgos, países e nações.

Progressivamente no tempo mas não melhoradamente para construírem e  periodicamente reconstruírem-se em mapas que na verdade são fruto da dominação de povos e não de sua autodeterminação.  Desde os tempos primitivos povos se guerreiam, irmãos contra irmãos como na imagem bíblica. Atravessando-se a história e seu motor bélico o que vemos é construírem-se as nações, que originalmente é sinônimo de povos, com as hegemonias que governam os estados às custas da exploração e massacre dos outros povos que não o hegemônico.

Eis como se campeia pelo mundo, as mesmas atrocidades supostamente justificadas pelos mesmos meios: o que eu acho que é o bem precisa exterminar o que eu acho que é o mal. Mas a guerra é que é sempre o mal. O mal que não se consegue vencer porque é a destruição, é o aniquilamento de ambos os lados, vencendo o que mais matar e o que menos morrer.

O supremo bem da humanidade é a paz: a utopia. A que desarma para construir. O seu preço é enorme. Seus construtores acabam alvos dos recorrentes surtos de supremacias reativadas. Quando se busca superá-las, elas reagem, tomam as armas que se estava a desarmar e em novo ciclo a barbárie oprime a utopia.

Tendo que aprender que o socialismo não se faz em um só país, não há no entanto como negar que o progresso da história é a melhoria crescente das condições de vida para as populações e as populações são numericamente demais crescentes para caber nas mesquinhas previsões capitalistas. Não se pode aumentar para todos se fôr aumentar para poucos.

A humanidade na paz, irmãos entre irmãos, a trocar entre si energias e ensinamentos para melhor atender às necessidades de todos.

Sergio Santeiro.

O ludopédio.

domingo, maio 2nd, 2010

Sou brasileiro mas não gosto de futebol, pelo menos não tanto, como dizem, a maioria dos compatriotas, é preferência nacional.  É de fato um mistério. Aprecio um bom jogo, ainda mais se acertar no milhar ou na sena, de fato causando espécie a proibição federal dos jogos de azar, a não ser as centenas  a favor do caixa nem sempre ou pouco confiáveis do governo.

Iniciativa do Dutra que ninguém mais sabe quem foi ou na verdade de sua senhora,d. Santinha, que pelo codinome atesta seu temor ou devoção a Deus. Duas outras de suas notáveis iniciativas, igualmente distintas foi a queima das reservas hauridas no comércio internacional da guerra bem como a inventiva redução do tamanho do pão, o pãozinho, para não aumentar-lhe o preço. Não há como ter saudades ou sequer memória do marechal como aliás da espécie em geral.

Imagina: mandado pela mulher! Não, bem, não tô falando de você. Tô falando do marechal que proibiu o jogo. Mulher tem ouvido de tísico. De tanto chutar pedra na ruas a garotada acaba chutando bola nas várzeas, e assim surgem os craques da pátria de chuteiras. Noutros jogos é com a  mão, mas aqui é com os pés, como o samba, outra excelência nossa, que tambem é no pé, que tambem serve pra nós dispensar com o pé na outra preferencia nacional.

Assim é o jogo da vida, uns ganham, chutam, outros perdem, levam, mas depois troca. Acho que um dos segredos de tanto sucesso é que aqui claramente o mundo se divide como de fato se divide escamoteadamente entre êles e nós. A sociedade, a comunidade, todos nós sabemos que não somos na geral tudo a mesma coisa. Somos uma mesma espécie, a dos jogadores, só que uns de cá, e outros de lá. Mesmo entre nós, a coisa não é a mesma Tem os craques, os bons de bola, e tem os manés que somos a imensa maioria e que só servimos pra ser driblados.

Não pode botar a mão, mas de repente até gol se faz com ela. Não pode dar pernada, é falta, mas até pode se o juiz não vê, ou se vê finge que não, como na roleta, a bola só pára na caçapa. Não pode perder penalti que é a falta na cara do gol, mas pode, e deve, o adversário e assim levamos a copa. É a arte do improviso, é a arte do momento. Táticas são boas mas como dizia o Garrincha: – já combinaram com os alemão?

As torcidas se esgoelam, uma de cada lado, se juntar não devia mas sai porrada, ou então é como na vida: tô te esperando na saída. E logo tudo se esquece porque amanhã tudo começa de novo, quem perdeu pode ganhar, e quem ganhou pode perder. Às vezes, às vezes não,  neguinho sai ganhando sempre no campo ou no tapetão. Se perder faz que nem o burguês, ou sai comprando ou sai demitindo todo mundo. Alguem tem que lavar a honra, alguem tem que pagar o pato.

Na época de ouro da expansão urbana fizeram-se os cassinos, os estádios, as favelas e os paredões nas orlas pros nossos senhores morarem. Santa burrice, como já disse, os maiores não podem ficar na frente dos menores porque tapa o sol, bloqueia o ar e até a vista impede, servindo tudo tão só aos que não jogam, mas mandam no jogo, são a banca da mesa que legal ou ilegalmente, jogo é jogo, são quem arrebanha a féria.

Não há de ser nada, amanhã tem mais, qualquer um pode ser o craque da vez, mas tem que ter talento e tem que suar, tem que malhar, não pode dopar-se, se ninguem souber, pode, ou pode o cartola mandar dopar o craque ferido para ainda assim jogar e quem sabe orgasmar-nos a todos com  um improvável gol. O jogo é improviso, é surpresa, o inesperado acontece, como na vida.

E de repente o cartola fardado manda parar o jogo: o do cassino, não o do estádio, não o coliseu. De repente acaba a festa da roleta, sobrou a russa; do carteado, sobrou em casa; e dos espetáculos, viraram evento, e se é vento, como até o que é sólido, desmancha-se no ar.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).