As universidades.

Nem tudo são flores. Há tantos espinhos. Erguidas como santuários na Idade Média, universidades insistem em continuar medievais. Entre seus muros a centralização de poder, como na sociedade em geral, atropela as necessidades e demandas dos vários campos do saber. Também é muita a presunção, presumem-se a universalidade do conhecimento: monastérios são sucedidos por ministérios.

Na minha modesta praia, a arte, reza a experiência que o que vale não é o mando, é o convívio, melhor que universidade era o velho Liceu de Artes e Ofícios. Ali iniciantes acompanhavam o trabalho dos mestres em que a arte imita a vida que imita a arte. A arte é imitação, e a vida, o que é? Mera transmissão de saberes?

Aprendemos que atravessar a rua sem olhar é perigoso. Atropelado ou trombando, dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo espaço, ou podem? Olhando, e sabendo, podemos avaliar o não mesmo tempo e o não mesmo espaço que nos permita atravessá-la com sucesso. Mais difícil é obedecer às cores do sinal ou semáforo, nem todos obedecem, e basta um que não pra nos levar a vida.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo; quanta besteira! Com isto pensa o poder que se legitima , essa coisa abjeta, geralmente o poder de não poder, ou é o poder que não pode ou é o que não deixa os outros poderem. Lá na universidade, atrás de seus muros, é também a mesma coisa.

Poucos podem e muitíssimos não podem, seja porque não sabem,  seja porque sabem mais e são atropelados pelos que sabem menos. O que o cara quizer, façamos logo, sem tugir nem mugir. Assim não dá, eu tujo e mujo.

É como o aluguel, só tens direito, se avalizado por um donatário. Nestes vais e vens não só perde-se muito tempo como perde-se o que se estava a fazer. Parado! Mamãe, posso ir? Quantos passos? Ao lado, o saber definha, existir sempre existe, mas perde seu sentido de instruir, de ensinar aprendendo, e aprendendo ensinar. Assim é que se descobre não o mando, árido, mas o convívio, fecundo.

Toda uma vida ali dentro, o que aprendi? Que não se bate o prego sem estopa, machuca a mão. Que uma andorinha, só, não faz? Verão! Quem vem depois não se soma a quem veio antes, o que se fêz, desfaz-se, como a borracha apaga o lápis.Quando estudante andava aqui e ali catando saberes, depois fiquei tentando plantá-los, flores no asfalto. Felizmente sempre tem quem as colha mas saberão plantá-las?

Momentos houve e ainda os há em que julguei passar dos muros, de dentro pra fora, e de fora pra dentro, pulá-los, mas fazem-se paredes. Atravessá-las, dizem ser possível, nossos átomos cabendo nos vãos dos seus. Isto ainda não tentei, só quando fôr apenas alma, andarei nos corredores ou de sala em sala, como nos monastérios.

Lá dentro ouve-se vozes, murmúrios, orações, liturgias, celebrações, ladainhas. São tugúrios. Eu tanto queria não ficar a ouvir os ecos ou a arrepiar-me de sofreguidões. Não me agrada lamber botas ou chãos. Meus cuidados não se prestam a vassalagens. Prefiro ser pândego.

Infelizmente não aprendi a ser monge, aprendi sim a beber o vinho e a comer a carne. É como eu dizia, às universidades prefiro os liceus.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

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