Archive for junho, 2010

Gatos e Ratos

domingo, junho 20th, 2010
Vejo como um certo cinismo quando às vezes me dizem que a nossa relação com o poder é como a de gatos e ratos, nós, indivíduos, os menores, os ratos, eles os gatos. E então, como é da natureza, gatos caçam e matam os ratos.
Gatos gatunos e ratos indefesos. Mas não é assim. Se aceitarmos esse paralelismo virtual, estaríamos aceitando ser dominados por eles no clássico jogo de gato e rato.
O que de fato acontece é que somos, tanto o poder como os indivíduos, humanos. Somos iguais, idênticos, de mesma natureza. Não é natural que uns sobrepujem, dominem, persigam e matem os outros. Além do que fôssemos gatos ou ratos, quem seriam os cães?
O exercício do poder como uma pata de gato à espreita não tem nada de natural, é uma excrescência, um abuso. Sabemos que assim foi se fazendo na civilização. Quem empunha a arma pode mais que quem empunha um arado.
Supostamente a arma serviria para nos defender para que com o arado pudéssemos e a todos nos alimentar. Defender-nos de quem nos ataque, os outros animais e com o tempo os outros humanos que se reunissem em outro grupo que não o nosso.
Sim, porque os indivíduos não sobrevivem individualmente. Unem-se aos mais próximos. Generais não podiam entrar com seus exércitos e suas armas nas cidades. Não se permite atravessarem o rubro cão. A cidade, o burgo, a aldeia é a casa em que as pessoas moram, não é, não poderia ser um campo de batalha.
A batalha é pra se dar nas áreas externas entre as nossas aldeias e as aldeias de outros grupos mas, vencida a batalha no campo externo, desarmadas as defesas, os grupos de outras aldeias, vitoriosos, invadem a nossa casa. Se formos nós os vitoriosos, invadiremos a casa deles.
Se assim admitirmos, se reconhecermos que nós ou os outros podemos pelas armas subjugar os arados e submeter nossas casas às armas, aí começou esta guerra sem fim.
A guerra que era lá fora nos campos de batalha expande-se para dentro de nossas vidas, de nossas casas, em nossos campos de trabalho. Os grupos exercitam sua coesão interna, somos exogâmicos ou endogâmicos,  pastores ou guerreiros, nômades ou sedentários, citadinos ou campesinos.
À medida que o tempo passa as civilizações constroem-se, complexificam-se e tornam-se uma e outra coisa ao mesmo tempo. E internamente os que mais parecem gatos arrumam-se de tal sorte que nos querem a todos os demais indivíduos como se fôssemos ratos. Nem eles, os do poder, são gatos nem nós somos ratos. Fomos feitos e fazemo-nos todos à nossa semelhança.
Somos todos semelhantes, nem gatos, nem ratos, somos em tudo e por tudo iguais, é o que nos identifica. O que se chama de poder é um erro de origem, era pra nos proteger dos outros grupos, os que achávamos que eram outros, de outra natureza. Hoje vemos, sabemos, comprovamos, somos todos o mesmo barro.
Quando jovem compus um poema de que só lembro a primeira quadra: ” – Ó Deus, criado eu por vós do barro, não valho mais que um escarro do meu irmão pela origem?”. O deus que nós achamos que nos criou não nos responde. Deve ser porque nunca existiu. Visto aqui de baixo mais parece um chão no céu.
Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

A fotografia em Vidas Secas.

sexta-feira, junho 18th, 2010

 

Acho muito importante a existência dos trabalhos finais de conclusão de curso, uma pequena monografia.  Há os inspirados e há os apurados, nada impedindo que se mesclem aqui e ali como melhor lhes convenha. Na área em que atuo, o cinema, tenho visto, assim como na pós-graduação, muitos bons destes trabalhos. No momento refiro-me a este – Luzes, Cores e Sombras de Graciliano Ramos: a transposição fotográfica em Vidas Secas, de Flávia S. Neves.

O romance de Graciliano Ramos, filmado por Nelson Pereira dos Santos, o clássico de nossas letras torna-se um clássico de nossas telas, luzes e sombras criadas por Luiz Carlos Barreto, um clássico da luz brasileira. Inventores são os que inventam, vem neste trabalho, desde o início, e do romance e do filme, narrada mais uma invenção de Brasil, que é o que acontece sempre que os nossos filmes aparecem para as telas.

Narra de como a luz brasileira inconforme à fotogenia do negativo importado do hemisfério norte precisa ser inventada no nosso hemisfério sul e, como sabemos, esta é uma longa história desde que  Afonso Segreto à bordo da nau Brésil ao entrar na  baía da Guanabara no Rio de Janeiro, o Pão de Açucar ao fundo, inventou o cinema em nossa terra.  Muitos e tantos foram os talentos que vem construindo a nossa imagem à nossa semelhança.

E na pesquisa da Flávia também se somam os comentários e os labores dos muitos fotógrafos estrangeiros que visitando-nos também nos gravaram, somando-se a nós, de Chick Fowle, a Ricardo Aranovich, a Guido Cosulich, e tantos outros operadores, como os dos filmes naturais, os documentários.

Seu método de análise é primoroso. Compõe a escaleta das cenas e cores no romance e no filme, expondo a montagem por Graciliano no texto e a remontagem por Nelson no filme que segundo é sabido foi feito com o livro nas mãos. Comenta como o fragmentário no original é recriado nas imagens que o recriam na película. E aí o mistério da aridez de gentes e cenários é esculpido em luz para que todos a vejam lá na tela e em nossa condição humana universal. São as estações da vida.

O sucesso de seu trabalho permite-me, e já eu com tanto tempo nesta estrada, nem propriamente analisá-lo mas divagar. E no interior da casa, é só a luz do fogo? O que haveria ali de luz artificial, o que de rebatedores? É de se ver a possível flutuação da luz natural ao longo do plano. E o tempo? A duração de planos, cenas e sequências. Não é o cinema uma equação de espaço sobre tempo?

Referindo-se ao difícil diálogo entre os membros desta família primal brasileira no romance e no filme é que emerge o tema das relações sociais na palavra, a incomunicabilidade como um escuro entre as pessoas. Sem luz não vemos as pessoas em diálogo, como não as vemos no telefone e no computador. Mas sempre é possível na vida real ver no escuro, já no cinema…

E sabemos que a dificuldade da comunicação nas pessoas é um dos grandes temas universais do século xx. Ao não viver o progresso na história e sim seus retrocessos os pensamentos e as palavras se atrasam, se atropelam, se atrapalham, se incomunicam. E o cinema tem um mundo de filmes retratando isso.

No entanto, pra bem ou mal, o trato social sempre se comunica, nem sempre por palavras, ou não só, mas por gestos, por sentimentos e sobretudo por ações. O humano mal realizado socialmente torna-se um reprimido, e daí perigando tornar-se um repressor. A mais maldita das palavras, a repressão, invocada instala-se em todos os sentidos: “mas acorrentado ninguém pode amar”. Ao fazer do filho o objeto de sua impaciência como que se vinga da violência que irá sofrer, mas a vingança é fundamentalmente um ato de retórica porque visa anular o já ocorrido, o que não se tem como negar ou extirpar.

Falar de fotografia é ousadia minha que não tenho a necessária formação mas já me aventurei nessa seara a propósito de Humberto Mauro, Edgar Brasil e Hélio Silva. Pessoalmente não me apraz imaginar a cultura brasileira senão por seus próprios passados e desenvolvimentos históricos.

Refuto alegadas influências como as que tanto se diz do neo realismo e do expressionismo, afinal temos uma farta e antiga vivência de construção e desconstrução de nossos realismos caboclos. Não carece. E ao que eu saiba, cá não tivemos as guerras como lá, tivemos as nossas. O gravurismo de Goeldi e seu quê de expressionismo é na verdade uma forma de mais-realismo, e olha aí a presença da xilogravura na cultura popular nordestina. No filme, como em tantos dos nossos, o que mais vejo é um realismo poético que é como exercita Nelson a questão do realismo, do mais ou do menos, no cinema.

Uma inegável influência da tradição estrangeira ocidental é mais na formação que na criação estética. Temos que regurgitá-la como se faz com o negativo importado. A estética, que é um nível de representação autônoma da realidade, brota de suas próprias raízes, enterradas no chão, e evolui no sentido de escola de samba e não do que se imagina como um progresso universal, raízes do Brasil.

Vai crescendo e vai crescendo sua percepção à medida que evolui em meio à realidade em expansão e o que registra é sua relação participada nessa expansão e que afinal  só vemos e só reconhecemos a que nos está próxima.

No mais tudo é movimento: Galileu, recém homenageado pelo Vaticano que o condenara e do qual esquivou-se o gênio. No cinema, como se sabe, o movimento é uma ilusão que gira recriando um mundo de ilusão paralelo ao real mas que quer narrá-lo. A fotografia em movimento ganha toda essa riqueza aqui neste trabalho da Flávia, também autora de um Sangue Carioca, brilhantemente narrada, detalhada e demonstrada, exemplificada na reprodução dos fotogramas em que se pode ver tudo que aqui se fala, até sem nem estar vendo todo o filme.

Desde antes, com outros estudos sobre a fotografia do cinema brasileiro e seus exemplos, como o belo ensaio do Miguel Freire sobre Mário Carneiro, parecem-me base bastante para uma autosuficiência da cultura, do cinema e sua fotografia brasileiros. Ainda mais naquelas lonjuras sem socorro, faz-se a telha com o barro que tiver.

Como se sabe antes de Vidas Secas, Nelson inventa o Mandacaru Vermelho, um cotejo entre os dois, inclusive fotográfico, é uma delícia. Mandacaru foi o Vidas Secas que não pode ser naquele então, as chuvas abundantes enverdeceram o sertão. A experiência da fotografia de Hélio Silva ( sem esquecer o Major Reis e os tantos casos de fotógrafos  eles mesmos na inospidão revelando seus filmes)  igualmente laboriosa e fecunda, consagra como a vida do vaqueiro a lida por uma luz brasileira. (Sergio Santeiro. Charitas. 17/06/2010).

Rô e as veredas.

segunda-feira, junho 14th, 2010

Tese acadêmica de filósofo mineiro mostra o saber dos pequenos-grandes filmes de Sergio Santeiro. E uma versão nova do trabalho do realizador cinematográfico e sua obra paradoxal.

“Em cada época, tem-se de outra vez tentar o resgate da tradição contra o conformismo, que dela quer apossar. (…) Se o inimigo vencer, também os mortos estarão em perigo.”
Walter Benjamin

Veja Isto é Brasil, de Sergio Santeiro, em ViaPolítica

Não conheço um só período da história de nossa porca civilização onde não tenha havido fome, guerra, dor e sofrimento. Então, o que poderia ser etapa de um processo passa a ser estrutural e condicional. Condição da natureza humana, social, política e econômica, o que de modo algum podemos aceitar como normalidade histórica. Estamos vivendo um período de transformações radicais, e não sabemos ainda qual será o saldo de tudo isso. Muitas vezes é como se estivéssemos regressando à barbárie.

O cinema brasileiro com Xuxa, Angélica, Globo Filmes, Fernando Meirelles e Tropas das Elites tem optado por um caminho que felizmente não é o mundo a que pertence “Santeiro e suas veredas”, na delicada tese de Leandro de Souza Domith. Da parte de Sergio Santeiro, seus tantos curtas, textos, artigos e manifestos divididos entre a fome e a esperança de um Brasil melhor, retratam não somente o cinema, e sim, de certa forma, a classe “pensante” do país, incluindo aí os políticos, problema dos mais graves.

Ao mesmo tempo, todo esse deslumbre brasileiro com a contemporaneidade, com as tecnologias, com as transformações (mas a mente, a estrutura mental das pessoas, continua a mesma), não esconde o acirramento das misérias outras, da enorme parte do país-continente excluída da tal modernidade, esse acirramento que levará (e já está levando) o país a mergulhar no eterno sacrifício às custas do sangue, da dor da fome, da perda e do desespero, tanto no campo como na cidade.

Talvez da parte de Leandro de Souza Domith, o mais longotravelling teórico sobre o saber num mergulho desde Paixão, de 1966, até Paratodos, passando por KlaxonHumor Amargo, Isto é Brasil, Encontros com Prestes… e que recusamos a ver, entender, pensar e transformar em novas veredas tropicais. Só que, com a tese, o mito de que disso escaparíamos quebrou. E, agora, estamos em guerra da minoria rica e fascista contra a maioria de pobres, miseráveis, famintos… mas ainda alimentados por uma esperança no país e no afeto, tão bombardeados pela TV.

O país da TV é diferente do país mostrado por Santeiro e Leandro Domith. Sem exagero, posso afirmar que a volumosa tese “Santeiro e suas veredas” tem muito a ver com os conceitos de arte política expressos por Gramsci, Brecht e Rossellini. O trabalho de ambos é uma busca generosa de encontros, que o tempo infelizmente tenta tornar perdido.

Mesmo aos melhores partidos políticos (como se isso fosse possível), o povo só lhes interessa como gado. Que interesse têm, para eles, filmes como Encontros com Prestes, os índios, os quilombos ou o lixão das favelas? Que interesse despertam nossos curtas-metragens sem espaço nos cinemas, na TV, nas universidades, comunidades e escolas? Movimentos que se colocam de maneira crítica sem abrir mão do sonho, do afeto, do saber e da esperança. Não se está vendendo mais um espetáculo fajuto e “espetacular” da miséria humana.

Com o cinema de Sergio Santeiro na tese de Leandro de Souza Domith se está pensando um outro Brasil para os brasileiros. “Santeiro e suas veredas” é uma sólida manifestação afetiva, política e cultural para o nosso cinema de curta-metragem. Não é pouco e nem é muito. É simplesmente, indispensável. Um marco que o eleva até onde deveria sempre estar: criativamente ao lado do povo, da história, da formação e do saber.

Paixão, Ismael Nery e mesmo a tese sobre Sergio Santeiro não são produtos embalados ao gosto do cardápio fastfood do freguês. O cinema é um tema muito amplo, mas fácil de ser resolvido num país continental como o nosso. Basta querer enfrentar os tantos latifúndios e transformar a terra e o homem em produtividade, sonho e poesia.

Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Mas o inferno pode estar em nós mesmos. E a guerra contra as tantas fomes que se trava hoje é também a guerra do imaginário na comunicação. Ora, uma coisa é combater o fascismo exterior, outra é combater o fascismo em nós mesmos. E cuja abrangência na tese “Santeiro e suas veredas” extrapola o pragmatismo, a impositividade do mercado e da banalização da cultura. A tese, ao ser um poema-político-filosófico de resistência, aproxima a estrutura da superestrutura, sem o caráter arrogante da hegemonia e do senso comum.

Um rigoroso trabalho de tese que definitivamente fica acima de todos os modismos por sua verdade, rigor e seriedade do jovem autor e do personagem escolhido. Pela abrangência e espontaneidade do projeto humano. Mas que não se espere frutos imediatos. Só o tempo os trará. A época nossa é de superficialidades, tela rasa que interessa ao sistema, ao poder – mas não ao pensamento dialético de Leandro de Souza Domith, que investe o seu saber contra a mumificação do pensamento, do afeto e da ação. A luta do seu mestrado é uma luta pela felicidade contra a tirania – no caso, da desinformação, de uma formação e educação duvidosa. Dos latifúndios e das favelas dos grandes centros urbanos. Se quer com “Santeiro e suas veredas” um Brasil e um saber humano e melhor para todos.

Ora, o autor procura nos textos e imagens de Santeiro uma reciprocidade afetiva e política com o saber, a história e o país. Concebe influências, contradições e confrontos, e faz avançar, em sua análise, o âmago do movimento do Ser para o seu (nosso) tempo, com a filosofia agindo num comprometimento maior com a liberdade, a poesia, a política e o país e a sua história. Ou seja, a tese “Santeiro e suas veredas” traz de volta reciprocidades e ressignificações políticas oportunas, mais do que necessárias, tornando-se ao mesmo tempo preciosa para se compreender um projeto viável para o país, via os textos e o cinema do poeta, articulista, professor e cineasta Sergio Santeiro.

O cinema precisa com urgência ser reinventado para substituir a prostituição de muitos pela liberdade de criação. Nossa geração felizmente nunca se interessou pela domesticação de velhos e novos cineastas entorpecidos e desacelerados pelo sucesso fácil do cinema-televisivo boçalão. Inversamente à eterna repetição de idiotismos, optamos por uma ousada mise-em-scène de desprezo frontal por Hollywood e sua quinquilharias. Até fomos formados pelo melhor cinema americano (Cassavetes, Ray, Orson Welles, Kazan…), mas nos libertamos na experimentação linguística e na obstinação por um país para todos, e não para poucos.

Nos opusemos aos chanchadeiros do passado (reconhecendo a comédia e o humor como alternativa interessante e necessária), ao cinemão, à pornochanchada e à hegemonia reacionária do “novo” cinema-televisivo. Exorcizamos o bode do sucesso a qualquer preço por uma teatralidade política do país, indo muito além dos acordos entre os partidos, o poder e a TV.

Leandro de Souza Domith descobre o cineasta Sergio Santeiro por intermédio do sociólogo, escritor, teórico, professor e cineasta Gilberto Vasconcellos. Daí pra frente é a longa caminhada pelo universo do Outro como vontade, conquistas, sonhos e representação. Introduzindo no seu processo de análise, Benjamin, Adorno e mais uma infinidade de referências, indo de Gilberto Freire a Glauber Rocha e Jean-Claude Bernardet. E nunca a filosofia e o cinema estiveram tão próximos. Mas bem mais que um encontro produtivo, ocorre uma troca de saber enfeixada num grande amor pelo país que se recusa a não se assumir como um sonho possível para todos. E, então, escrever a formação e o posicionamento teórico-prático de uma vida a partir do saber.

Saber ser para além das suas próprias subjetividades e dos labirintos percorridos no cinema por um jovem poeta e sociólogo radical amante de Camões, de maturidade de uma coerência política-afetiva invejável. Eu nunca havia visto uma defesa de tese tão contundente tendo em pauta a cientificidade teórica da filosofia e as muitas incertezas do cinema se procurando na procura do Outro. O texto é um longo aprendizado do olhar em descoberta do mundo no transe da terra. Sem dúvida alguma é uma inserção poética na formação de todos nós que sobrevivemos aos anos de chumbo.

Rica foi a convivência entre o jovem filósofo e o cineasta. A tese que precisa ser editada com urgência é fértil como percurso amoroso e político de um saber, de um pelo Outro. Ganha o cinema na musicalidade poética das ideias de ambos. Ou seja, não é uma odisseia de museificação do Outro. Como afirma o próprio Santeiro, num velho texto colocado logo no início da tese: “O artista é – este seu mistério – um cara muito ligado nas coisas. E diante ao enorme caos da vida, aprende e seleciona, fixa-se nalguma é um obstinado, e como tal, acolhe tanto as energias ou bem explode ou cria”.

E é por onde vai o jovem filósofo: por um transbordamento de talento, tanto de um como do outro. E o que poderia parecer da minha parte um simples olhar é, na verdade, um encantamento de inserções do real sem trair o sonho de ambos. Leandro de Souza Domith tenta resgatar um saber requintadíssimo da universidade ao Cinema Novo, ressignificando a história, o país e o cinema, inserindo-se no transe enlouquecido de toda a nossa geração, que continua aí, lutando contra os eternos abortos do capital.

Mas não é uma tese para se concordar ou não, e sim um diálogo profundo com o país. E múltiplos são os conceitos políticos e culturais colocados em discussão. Como, por exemplo, a presença de Walter Benjamin e Brecht: “como capazes de transformar o aparelho produtivo no qual se inserem que possibilitam ao autor denominá-las “progressistas” ou “retrógradas”, pois, ao inovar, elas modificam as relações de produção, que podem ser aqui entendidas, tanto relativo à esfera pessoal do artista – seu estilo – quanto ao nível coletivo das relações sociais da cadeia produtiva em geral”.

Leandro de Souza Domith, por este processo, chega ao filme “Paixão, de Santeiro, como sendo um bom exemplo de o ‘mínimo múltiplo comum’, como termo empregado pelo então jovem cineasta na síntese ideológica, estética, cultural e política da qual parte o cineasta para produzir filmes.” O autor retrabalha o texto “A voz do dono, conceito de dramaturgia natural”, expondo o documentário como um rico processo sociológico de questões sociais das décadas de 50, 60 e 70. Dos depoimentos à montagem, uma reorganização de um Brasil (apesar da ditadura), alimentado por ideias políticas, que leva o personagem da tese da sociologia a um cinema de confrontos profundos, de Camões a Guimarães Rosa, passando por Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Sergio Buarque de Holanda… Após o golpe de 64, o autor trabalha a chegada no cinema novo, na militância cultural estudantil e sobre Paulo Martins, poeta do genial Terra Em Transe.

Santeiro, em 1969, nos apresenta O Guesa, sobre a vida e a obra do poeta maranhense Sousândrade. E o jovem filósofo, em 2010, a tese “Santeiro e suas veredas” aproximando tudo e todos num saber ousado, profundo e arbitrário, num esforço de pautar e enquadrar o surgimento de um capitalismo de consumo, mercado e pobreza sem paternalismo. Surge daí a dimensão trágica do nosso capitalismo-televisivo, não tendo mais espaço tanto para aEstética da Fome como do Sonho. Como magistralmente afirmava Glauber: “As imagens não têm necessidade de tradução e as palavras de esquerda não salvam as imagens de direita”. E não é isso que se vive intensamente hoje no cinema brasileiro?

Leandro de Souza Domith tenta inovar o enfoque de sua escolha analítica voltando a Humberto Mauro, à chanchada, a Paulo Emilio Sales Gomes e Alex Viany, ao dizer com a sabedoria de um jovem filósofo: “Se um filme propõe-se a uma expressão pessoal do autor, fruto de sua relação com a realidade, logo ele irá necessariamente construir sua obra a partir desta proposta. Todavia, se ele abre mão desta condição em prol de uma proposta ‘comercial’, de usar fórmulas de sucesso, ou seja, destinada a um fim que não seja a de uma expressão subjetiva individual, expressar-se, logo ele estaria fazendo um filme de má qualidade”, como se fosse cinema hoje, da TV ao celular. E usando Godard: “Com a imagem apenas complementando uma ideia reacionária que a motiva”. E, mais adiante, na tese: “Um autor progressista não visa nunca à fabricação exclusiva de produtos, mas sempre, ao mesmo tempo, a dos meios de produção.” Sábio Walter Benjamim.

Por último, o filme Paratodos, assumidamente o coração falante de um cinema da “ilegalidade”, aos olhos fechados da mesmice acadêmica. Uma rica teorização crítica do domínio dos meios de produção controlados. Ora, de quem é o espaço das universidades, do cinema e do saber? O escritor Mario de Andrade respondeu bem a essa questão, dizendo com sabedoria: “Veja bem: abrasileiramento do brasileiro não quer dizer regionalismo nem mesmo nacionalismo. O Brasil para os brasileiros não é isso, significa só que o Brasil, para ser civilizado artisticamente, entrou no concerto das nações que hoje em dia dirigem a civilização da terra, tem de concorrer para esse concerto com a sua parte pessoal, com o que singulariza e individualiza, parte essa única que poderá enriquecer e alargar a civilização”.

E é como Sergio Santeiro é visto e analisado na tese, necessária e exemplar, do jovem filósofo mineiro – construindo-se num conhecimento mais apurado do nosso cinema. Filosofia e cinema tendo a política e o Brasil como pano de fundo. E bem mais que um encontro feliz, uma descoberta de múltiplas articulações teóricas numa procura de singularidades no âmbito da criação. Leandro de Souza Domith dá transparência e profundidade tanto a uma análise criteriosa dos textos, como ao saber e aos pequenos-grandes filmes de Sergio Santeiro. E ao contrário de um culto afirmativo do cineasta, uma versão nova do sujeito e sua obra numa operação profunda e criativa entre o paradoxal e a complexidade poética de uma reconceituação de ultrapassagens, tanto de um como de outros. Na tese, o texto de ambos dialoga com uma rica instrumentalização do saber como expressão não da coisificação ou da castração, mas sim da liberdade e do sonho numa perspectiva de sobrevivência política do saber.

12/6/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

Mais sobre Luiz Rosemberg Filho
rosemba1@gmail.com

Veja, em ViaPolítica, Paixão, de Sergio Santeiro

No escurinho do cinema.

terça-feira, junho 8th, 2010

No escurinho do cinema (de Sergio Santeiro).

O cinema é uma experiencia projetiva para quem faz e para quem assiste. O autor emite uma projeção de si mesmo, do que acha, do que escolhe fazer,como enquadra, como faz com os atores, com os companheiros de equipe. O espectador, ao ver aquela projeção projetada, busca projetar-se nas imagens e sons, buscando uma sintonia, uma afinidade, uma emoção, uma identificação.

O autor que geralmente rumina seu projeto muitos anos, ao final não se sente recompensado se oferecer apenas uma papinha de bebê para o seu publico. E inova. Pode ser no que for: comédia, drama, tragédia, musical, alegoria, panformia. Quanto ao publico, em números, acerta mais quanto mais papinha, mas em nutrientes há que se pedir ao publico mais empenho em projetar-se no escuro.

É o que fazem os autores, os criadores. Claro que este é seu ofício, vários são os ofícios do publico que ali está não para exercê-los mas para ser alvo do ofício alheio. Os cineastas também quando vão aos médicos, aos advogados, aos pedreiros estão ali sem deter os códigos dos ofícios a que se submetem.

Como o publico do cinema todos só temos como aferir os resultados. Se no médico nos damos por atendidos, nos cinemas o que se pode aferir é a adesão do publico à proposta do filme. Adesão não é só o aplauso. Às vezes, nem é, mas é o acompanhamento das cenas mesmo que um tanto nos escapem.

Sempre achei curioso o fato das pessoas se referirem a já ter visto este filme, e viram só uma vez. Uma vez não vale. A primeira a gente nunca vê muito. Seja como for, cada imagem é novidade, não se sabe o que vem depois, nem em que momento e tempo, de repente tudo pode mudar.

Nunca vi ninguém descartar uma música por já tê-la ouvido. A imaterialidade da música parece que não ocupa espaço na cabeça do ouvinte. Também o livro que se pode ou não a qualquer momento pegar, abrir no começo, no fim ou em que página quiser, reler, treler, à vontade.

Sempre é preciso reler e rever. Dá um gostinho a mais, a cada vez vê-se melhor. De primeira acho que a nossa percepção de um filme deve ser algo como 30%. A menos que seja papinha, mais grosso o caldo, mais nutritivo, merece revisita.

Aos poucos, como com a música e o livro, vai se podendo apreciar os detalhes, as nuances, como se compôs a composição, como se faz o  movimento dos cenários reais ou imaginários, das palavras reais ou imaginárias. Cada imagem é uma palavra.

Sempre se sabe quem é o mocinho e quem é o bandido, o herói e o vilão. Modernamente até tem se misturado mas não há como o mal vencer. Ao nos projetarmos queremos nos projetar para o melhor mesmo que se precise dos infindáveis tiros de um fuzil a fuzilar os milhares de inimigos. Ê trem bão, sô, só perde para os jogos eletrônicos.

O  que vulgarmente se chama de estória, entrecho ou enrêdo é fácil, tem que estar na primeira. No entanto, sua articulação, seu desempenho só pode  ser apreciado a partir da terceira. Se dermos 30% pra primeira, mais 30% pra segunda, na terceira já estaremos com 90%.

Tá bom, a papinha não dói. E pra ficar melhor todo mundo já sabe o caminho.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Quase tudo

terça-feira, junho 8th, 2010

Quase tudo (de Sergio Santeiro).

Achei muito interessante teres saído de teus cuidados pra me mandares uma injeção de ânimo. Não que eu precise, mas agradeço. Estou metido numa corrida comigo mesmo pra ver se consigo expressar o máximo de meus tantos anos de praia.

É difícil. Não se pode expressar tudo o que se pensa. Vamos a meio. Se der certo a gente arrisca mais um meio. Na verdade é já um meio do meio. Assim a real verdade esgarça-se entre as beiradas. Mas assim é.

O que tentamos e, de repente, isto se torna uma melhor das obsessões, é ver o quanto conseguimos adiantar na nossa expressão, porque a recepção, a do leitor, é sempre uma incógnita. É porisso grato a todos nós que ganhemos notícias dos outros que nos leiam, o que nos diz afinal que este nosso mundo de idéias não é tão, não é nada abstrato assim. As frases correm, perseguindo umas às outras e tantas vezes acabamos dizendo o que não tínhamos previsto para mais ou para menos.

Sou um velho adepto de debates, gosto muito, e montei uma tática infalível. Logo que abertos, inscreva-se logo. É preciso alguém dar o primeiro chute, senão demora a começar e, às vezes, nem.

Mas para mexer com o publico o melhor é como resumo: é preciso aumentar paulatinamente a taxa de absurdo naquilo que afirmamos.

Se o que dizes é aceitável concordantemente pelo publico a coisa não anda. Mas se aumentares um ponto no exagerômetro e assim sucessivamente haverá sempre alguem que se insurja e o debate deslancha.

Ao escrever, no entanto, sabes que não podes passar em muito a disposição dos eventuais leitores, eles te largam. Imaginas uma taxa de razoabilidade e vais acrescentando um pouco além, sempre mexendo a panela para não empedrar. Ao mesmo tempo tens que passar além, muito além no que pode não ser novidade para ninguém, mas tem que ser o máximo a cada vez para ti mesmo.

Neste pendular reside a militância da escrita. Acreditamos que, ao expôr nossas palavras e algo de nosso pensamento, estamos induzindo a que o leitor faça o mesmo, e possamos caminhar juntos. Ao que eu acho, não adianta infantilizar o leitor.

Acho que qualquer um guenta o tranco de algo que não pensou ou de que discorda. Terá que fazer o mesmo caminho. Saber ouvir, saber falar. Perguntar-se o que, como e por que, e fará de tudo isso o que quiser, inclusive se vai ou não perguntar-se.

Por outro lado, não apresentar-lhe o que penso que  tenho de novo para mim com medo de desagradá-lo é privar-nos a ambos de caminhar um caminho. Trata-se, sem dúvida, de seduzí-lo mas não a ponto de submetê-lo ou submeter-se a uma privação de sentidos, tipo diga-me que andas comigo.

Ao contrário, a escrita e a leitura são um aguçamento, um refinamento de sentidos, uma coisa de espírito. Quem escreve ou quem lê pode achar que sim, pode achar que não, pode desdenhar, pode responder, pode questionar, pode argumentar, o melhor mesmo é quando enaltece. Escrever e ler é conversar.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Contra as drogas

segunda-feira, junho 7th, 2010

Contra as drogas (de Sergio Santeiro).

Sou definitivamente contra. As cidades são cheias a cada esquina de farmácias e botequins. Servem pra nos curar de males físicos, espirituais, amorosos e da sujeição ao próximo. Ninguém fabrica e vende mais droga que a industria farmacêutica e a alcóolatra, e não se vê campanha a criminalizar ou penalizar seus usuários.

Ao contrário, são ambas, e talvez por seus males, as maiores investidoras em propaganda que, como se sabe, é isentada de impostos, permitindo que além das esquinas também invadam a todo o instante nossos lares e nossos ares. Elogiando-se em caríssimas matérias pagas sonham, e conseguem, induzir o publico pagante a pagar-lhes seus medicamentos empacotados ou engarrafados. E é tudo importado, sobretaxado ao jugo colonial.

Tenho a impressão que no geral somos os modernos uma civilização hipocondríaca. Sentimos dores na cabeça por fora e por dentro e pelo corpo todo. Vivemos a afogar as mágoas, quem não as tem, nos copos de um bar. Ou talvez precisemos de um júbilo extra para extravasar nossas alegrias.

E o que é que os outros tem com isso. Se não os molestarmos, ninguém tem nada a ver se eu fumo, cheiro, bebo ou prevarico. Cada cabeça, sua sentença. É claro que há casos patológicos presentes nos excessos de nossa condição humana em todas as áreas mas não é por isso que se há de proibir tudo o que represente risco. Fôsse assim, ia ter que parar o mundo, só que o mundo não pára.

Tanta proibição só serve para encher cadeia ou para aumentar o preço além de despertar o que há em nós de mais humano que é vencer o desafio de encarar o interdito. Se bobear até o Édipo dança. Não sei se é por acaso mas a maior parte do interdito é de origem tropical, foi assim com o açúcar, o café, o fumo, tudo tóxico. Reclamam muito mas ninguém proíbe o consumo de uísque ou aspirina, e todo o mundo sabe o mal que fazem.

Ninguém proíbe a soja e o eucalipto que matam as matas em que se procriam criando desertos, dor que dá ver uma e outro sobe morro desce morro sem vivalma por perto e nem onde cante o sabiá. Toda a energia do estado se aplica em perseguir e extirpar o mal que se fôr mal só é mal pra quem o usa.

O resto, o alegado mal, é fruto só da interdição que transforma a pobre planta nativa exuberante em rica prenda no comércio de dinheiros. E como é que no mundo capetalista se pode pensar em erradicar dinheiros. A lei desta selva é que proliferem os dinheiros e as violências que os mantenham crescentes. Se ninguém fôr mais rico que o próximo, ninguém tampouco precisará do que não é seu e nem do que o outro tenha, estaremos todos na mesma paz.

Ao contrário dos sintéticos, estes sim, como a soja e o eucalipto, crias de laboratório, as drogas de nossa natureza tropical, homeopáticas, filhas do sol, o que careciam é de controle de qualidade e preço. Se não deixassem por conta de mercenários, traficantes e industriais a boa ou a má conha não seria o mal que se alardeia. Será que foi isto e não aquilo o que a mãe Eva deu pro pai Adão?

Seria até um bom produto de exportação como o açúcar, o café e o fumo e, claro, o primeiro, o que nos deu o nome, o pau-brasil. Só espero que não esperem os americanos saírem na frente e nos exportarem como os minérios, como os fármacos, e até como as águas, nossa biodiversidade, que daqui saem brutos e voltam refinados como ferramentas que nos mantem no atraso já que proibimos pra nós, como na colonia os têxteis, o que o nosso fecundo solo nos prodiga.

Sou sempre a favor que se quebre as patentes mas nunca os parentes.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Um despaís.

terça-feira, junho 1st, 2010

Será o meu, o nosso, o Brasil um despaís? Retomo a expressão citada por um compadre, o Renato Salles ao comentar o meu comentário sobre a cultura. Não há como não lembrar a rearrumação social, politica e cultural que Glauber sugere para resolver o enigma do hoje tudo junto e misturado que somos.

O Norte florestal seria gerido como um coletivismo chinês, o nordeste agro-pastoril como um coletivismo russo, o sul já que gosta seria capitalismo mesmo, a Bahia um reinado nagô, e o Rio algo como Hong-Kong: samba, suor e cerveja e seus derivados. Também não há como esquecer a observação de Tom Jobim: como é possível um país tão grande  e largo apoiado numa só e estreita base. De fato, olhando os mapas que nos acostumamos a ver, 8 milhões e meio apoiados no Rio Grande do Sul é demais, milagre da natureza.

Só que não é bem assim. Assisti uma vêz um debate sobre cartografia moderna e o que era claro, mais claro se tornou, a carta ficou mais precisa, o contorno dos continentes não é como estamos acostumados a ver. E a Terra, o planeta, não é redonda como uma laranja. É oblonga, com os pólos achatados, não é  igual a isto ou aquilo, é a imagem de si mesma, como uma pessoa, é um dna planetário.

A posição nos mapas, como tudo, é uma questão de perspectiva, de ponto de vista. Dêem-me um ponto de vista e alavancarei o mundo.  Nos mapas que vemos a América do Norte está em cima e a do Sul embaixo, isto porque são feitos na perspectiva do hemisfério norte. Nada impede invertermos, no universo não há em cima e em baixo, é uma forma informe em que a terra não vira esfera só de tanto girar.

E foi o que fêz Torres Garcia, o grande pintor uruguaio que infelizmente teve a grande retrospectiva de sua obra pòstumamente calcinada no incêndio do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro nos anos 70. Pôs a América do Sul em pé, a Argentina acima. No traço de seu belo desenho ficou mais bonito, tanto que a venezuelana notável, a Telesur , tomou-o como ícone e seu lema: nuestro norte es el sur.

De pé, não somos um país saci, pulando numa perna só, estamos com todo o enorme costado repousando no esplêndido berço de nossa natureza, quase beirando os Andes e o México. Seremos um país do quase? Temos tanta terra mas não é por desígnio divino.

Como de fato teriam os índios, anteriores ocupantes da terra, recebido a primeira invasão portuguesa que foi a que descobriu a prêsa. Depois veio a segunda que foi a vinda da Família Real. E finalmente a terceira quando o carroceiro usurpou o alferes martirizado por sua avó. Os naturais daqui não se sentiam os donos da terra, como os invasores portugueses que se adonaram do que viram, em nome do seu Rei e de sua Igreja.

Não foram os únicos, nem os primeiros, mas viajantes e piratas, seus antecessores em nossas praias, não se deram ao trabalho da conquista. Predadores eventuais, não plantavam bandeiras e nem dizimavam povos, o que se fêz não em nome de alguém, mas em nome do maior pecado do branco:o lucro.

Aqui se vivia, como ainda hoje os mais remotos sobreviventes, segundo uma geopolitica da natureza, com seus limites e conflitos territoriais, fazer o quê, as guerras tribais que ainda estão subjacentes aos muitos conflitos e guerras da vida contemporânea.  E a simples proximidade com os brancos, seus vícios e doenças incógnitos, era letal. E não se diga, como o esfarrapado pretexto de sempre, e até de hoje, de que estamos a trazer-lhes a civilização, ou como dizia Oswald de Andrade, a sifilização.

Aproveitando as guerras tribais em África, os comerciantes arrastam mar afora escravizando-os os nativos da terra africana, o bêrço da humanidade. Viramos uma grande nação rubranegra, apoiada na mais traiçoeira geopolítica da história: o colonialismo.
Persistimos ainda reféns das práticas coloniais, ouvimos mais o que nos dizem do que o que nos falamos.

Mas o que falamos também vale, como cantava o da Vila, o nosso mais próximo bossa-novista: “o samba, a prontidão e outras bossas, são nossas coisas, são coisas nossas”. Será o nosso, o Brasil, um despaís? Não creio. O Brasil, o nosso, é um dez países.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)