Um despaís.

Será o meu, o nosso, o Brasil um despaís? Retomo a expressão citada por um compadre, o Renato Salles ao comentar o meu comentário sobre a cultura. Não há como não lembrar a rearrumação social, politica e cultural que Glauber sugere para resolver o enigma do hoje tudo junto e misturado que somos.

O Norte florestal seria gerido como um coletivismo chinês, o nordeste agro-pastoril como um coletivismo russo, o sul já que gosta seria capitalismo mesmo, a Bahia um reinado nagô, e o Rio algo como Hong-Kong: samba, suor e cerveja e seus derivados. Também não há como esquecer a observação de Tom Jobim: como é possível um país tão grande  e largo apoiado numa só e estreita base. De fato, olhando os mapas que nos acostumamos a ver, 8 milhões e meio apoiados no Rio Grande do Sul é demais, milagre da natureza.

Só que não é bem assim. Assisti uma vêz um debate sobre cartografia moderna e o que era claro, mais claro se tornou, a carta ficou mais precisa, o contorno dos continentes não é como estamos acostumados a ver. E a Terra, o planeta, não é redonda como uma laranja. É oblonga, com os pólos achatados, não é  igual a isto ou aquilo, é a imagem de si mesma, como uma pessoa, é um dna planetário.

A posição nos mapas, como tudo, é uma questão de perspectiva, de ponto de vista. Dêem-me um ponto de vista e alavancarei o mundo.  Nos mapas que vemos a América do Norte está em cima e a do Sul embaixo, isto porque são feitos na perspectiva do hemisfério norte. Nada impede invertermos, no universo não há em cima e em baixo, é uma forma informe em que a terra não vira esfera só de tanto girar.

E foi o que fêz Torres Garcia, o grande pintor uruguaio que infelizmente teve a grande retrospectiva de sua obra pòstumamente calcinada no incêndio do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro nos anos 70. Pôs a América do Sul em pé, a Argentina acima. No traço de seu belo desenho ficou mais bonito, tanto que a venezuelana notável, a Telesur , tomou-o como ícone e seu lema: nuestro norte es el sur.

De pé, não somos um país saci, pulando numa perna só, estamos com todo o enorme costado repousando no esplêndido berço de nossa natureza, quase beirando os Andes e o México. Seremos um país do quase? Temos tanta terra mas não é por desígnio divino.

Como de fato teriam os índios, anteriores ocupantes da terra, recebido a primeira invasão portuguesa que foi a que descobriu a prêsa. Depois veio a segunda que foi a vinda da Família Real. E finalmente a terceira quando o carroceiro usurpou o alferes martirizado por sua avó. Os naturais daqui não se sentiam os donos da terra, como os invasores portugueses que se adonaram do que viram, em nome do seu Rei e de sua Igreja.

Não foram os únicos, nem os primeiros, mas viajantes e piratas, seus antecessores em nossas praias, não se deram ao trabalho da conquista. Predadores eventuais, não plantavam bandeiras e nem dizimavam povos, o que se fêz não em nome de alguém, mas em nome do maior pecado do branco:o lucro.

Aqui se vivia, como ainda hoje os mais remotos sobreviventes, segundo uma geopolitica da natureza, com seus limites e conflitos territoriais, fazer o quê, as guerras tribais que ainda estão subjacentes aos muitos conflitos e guerras da vida contemporânea.  E a simples proximidade com os brancos, seus vícios e doenças incógnitos, era letal. E não se diga, como o esfarrapado pretexto de sempre, e até de hoje, de que estamos a trazer-lhes a civilização, ou como dizia Oswald de Andrade, a sifilização.

Aproveitando as guerras tribais em África, os comerciantes arrastam mar afora escravizando-os os nativos da terra africana, o bêrço da humanidade. Viramos uma grande nação rubranegra, apoiada na mais traiçoeira geopolítica da história: o colonialismo.
Persistimos ainda reféns das práticas coloniais, ouvimos mais o que nos dizem do que o que nos falamos.

Mas o que falamos também vale, como cantava o da Vila, o nosso mais próximo bossa-novista: “o samba, a prontidão e outras bossas, são nossas coisas, são coisas nossas”. Será o nosso, o Brasil, um despaís? Não creio. O Brasil, o nosso, é um dez países.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

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