Contra as drogas

Contra as drogas (de Sergio Santeiro).

Sou definitivamente contra. As cidades são cheias a cada esquina de farmácias e botequins. Servem pra nos curar de males físicos, espirituais, amorosos e da sujeição ao próximo. Ninguém fabrica e vende mais droga que a industria farmacêutica e a alcóolatra, e não se vê campanha a criminalizar ou penalizar seus usuários.

Ao contrário, são ambas, e talvez por seus males, as maiores investidoras em propaganda que, como se sabe, é isentada de impostos, permitindo que além das esquinas também invadam a todo o instante nossos lares e nossos ares. Elogiando-se em caríssimas matérias pagas sonham, e conseguem, induzir o publico pagante a pagar-lhes seus medicamentos empacotados ou engarrafados. E é tudo importado, sobretaxado ao jugo colonial.

Tenho a impressão que no geral somos os modernos uma civilização hipocondríaca. Sentimos dores na cabeça por fora e por dentro e pelo corpo todo. Vivemos a afogar as mágoas, quem não as tem, nos copos de um bar. Ou talvez precisemos de um júbilo extra para extravasar nossas alegrias.

E o que é que os outros tem com isso. Se não os molestarmos, ninguém tem nada a ver se eu fumo, cheiro, bebo ou prevarico. Cada cabeça, sua sentença. É claro que há casos patológicos presentes nos excessos de nossa condição humana em todas as áreas mas não é por isso que se há de proibir tudo o que represente risco. Fôsse assim, ia ter que parar o mundo, só que o mundo não pára.

Tanta proibição só serve para encher cadeia ou para aumentar o preço além de despertar o que há em nós de mais humano que é vencer o desafio de encarar o interdito. Se bobear até o Édipo dança. Não sei se é por acaso mas a maior parte do interdito é de origem tropical, foi assim com o açúcar, o café, o fumo, tudo tóxico. Reclamam muito mas ninguém proíbe o consumo de uísque ou aspirina, e todo o mundo sabe o mal que fazem.

Ninguém proíbe a soja e o eucalipto que matam as matas em que se procriam criando desertos, dor que dá ver uma e outro sobe morro desce morro sem vivalma por perto e nem onde cante o sabiá. Toda a energia do estado se aplica em perseguir e extirpar o mal que se fôr mal só é mal pra quem o usa.

O resto, o alegado mal, é fruto só da interdição que transforma a pobre planta nativa exuberante em rica prenda no comércio de dinheiros. E como é que no mundo capetalista se pode pensar em erradicar dinheiros. A lei desta selva é que proliferem os dinheiros e as violências que os mantenham crescentes. Se ninguém fôr mais rico que o próximo, ninguém tampouco precisará do que não é seu e nem do que o outro tenha, estaremos todos na mesma paz.

Ao contrário dos sintéticos, estes sim, como a soja e o eucalipto, crias de laboratório, as drogas de nossa natureza tropical, homeopáticas, filhas do sol, o que careciam é de controle de qualidade e preço. Se não deixassem por conta de mercenários, traficantes e industriais a boa ou a má conha não seria o mal que se alardeia. Será que foi isto e não aquilo o que a mãe Eva deu pro pai Adão?

Seria até um bom produto de exportação como o açúcar, o café e o fumo e, claro, o primeiro, o que nos deu o nome, o pau-brasil. Só espero que não esperem os americanos saírem na frente e nos exportarem como os minérios, como os fármacos, e até como as águas, nossa biodiversidade, que daqui saem brutos e voltam refinados como ferramentas que nos mantem no atraso já que proibimos pra nós, como na colonia os têxteis, o que o nosso fecundo solo nos prodiga.

Sou sempre a favor que se quebre as patentes mas nunca os parentes.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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