No escurinho do cinema.

No escurinho do cinema (de Sergio Santeiro).

O cinema é uma experiencia projetiva para quem faz e para quem assiste. O autor emite uma projeção de si mesmo, do que acha, do que escolhe fazer,como enquadra, como faz com os atores, com os companheiros de equipe. O espectador, ao ver aquela projeção projetada, busca projetar-se nas imagens e sons, buscando uma sintonia, uma afinidade, uma emoção, uma identificação.

O autor que geralmente rumina seu projeto muitos anos, ao final não se sente recompensado se oferecer apenas uma papinha de bebê para o seu publico. E inova. Pode ser no que for: comédia, drama, tragédia, musical, alegoria, panformia. Quanto ao publico, em números, acerta mais quanto mais papinha, mas em nutrientes há que se pedir ao publico mais empenho em projetar-se no escuro.

É o que fazem os autores, os criadores. Claro que este é seu ofício, vários são os ofícios do publico que ali está não para exercê-los mas para ser alvo do ofício alheio. Os cineastas também quando vão aos médicos, aos advogados, aos pedreiros estão ali sem deter os códigos dos ofícios a que se submetem.

Como o publico do cinema todos só temos como aferir os resultados. Se no médico nos damos por atendidos, nos cinemas o que se pode aferir é a adesão do publico à proposta do filme. Adesão não é só o aplauso. Às vezes, nem é, mas é o acompanhamento das cenas mesmo que um tanto nos escapem.

Sempre achei curioso o fato das pessoas se referirem a já ter visto este filme, e viram só uma vez. Uma vez não vale. A primeira a gente nunca vê muito. Seja como for, cada imagem é novidade, não se sabe o que vem depois, nem em que momento e tempo, de repente tudo pode mudar.

Nunca vi ninguém descartar uma música por já tê-la ouvido. A imaterialidade da música parece que não ocupa espaço na cabeça do ouvinte. Também o livro que se pode ou não a qualquer momento pegar, abrir no começo, no fim ou em que página quiser, reler, treler, à vontade.

Sempre é preciso reler e rever. Dá um gostinho a mais, a cada vez vê-se melhor. De primeira acho que a nossa percepção de um filme deve ser algo como 30%. A menos que seja papinha, mais grosso o caldo, mais nutritivo, merece revisita.

Aos poucos, como com a música e o livro, vai se podendo apreciar os detalhes, as nuances, como se compôs a composição, como se faz o  movimento dos cenários reais ou imaginários, das palavras reais ou imaginárias. Cada imagem é uma palavra.

Sempre se sabe quem é o mocinho e quem é o bandido, o herói e o vilão. Modernamente até tem se misturado mas não há como o mal vencer. Ao nos projetarmos queremos nos projetar para o melhor mesmo que se precise dos infindáveis tiros de um fuzil a fuzilar os milhares de inimigos. Ê trem bão, sô, só perde para os jogos eletrônicos.

O  que vulgarmente se chama de estória, entrecho ou enrêdo é fácil, tem que estar na primeira. No entanto, sua articulação, seu desempenho só pode  ser apreciado a partir da terceira. Se dermos 30% pra primeira, mais 30% pra segunda, na terceira já estaremos com 90%.

Tá bom, a papinha não dói. E pra ficar melhor todo mundo já sabe o caminho.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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