Quase tudo

Quase tudo (de Sergio Santeiro).

Achei muito interessante teres saído de teus cuidados pra me mandares uma injeção de ânimo. Não que eu precise, mas agradeço. Estou metido numa corrida comigo mesmo pra ver se consigo expressar o máximo de meus tantos anos de praia.

É difícil. Não se pode expressar tudo o que se pensa. Vamos a meio. Se der certo a gente arrisca mais um meio. Na verdade é já um meio do meio. Assim a real verdade esgarça-se entre as beiradas. Mas assim é.

O que tentamos e, de repente, isto se torna uma melhor das obsessões, é ver o quanto conseguimos adiantar na nossa expressão, porque a recepção, a do leitor, é sempre uma incógnita. É porisso grato a todos nós que ganhemos notícias dos outros que nos leiam, o que nos diz afinal que este nosso mundo de idéias não é tão, não é nada abstrato assim. As frases correm, perseguindo umas às outras e tantas vezes acabamos dizendo o que não tínhamos previsto para mais ou para menos.

Sou um velho adepto de debates, gosto muito, e montei uma tática infalível. Logo que abertos, inscreva-se logo. É preciso alguém dar o primeiro chute, senão demora a começar e, às vezes, nem.

Mas para mexer com o publico o melhor é como resumo: é preciso aumentar paulatinamente a taxa de absurdo naquilo que afirmamos.

Se o que dizes é aceitável concordantemente pelo publico a coisa não anda. Mas se aumentares um ponto no exagerômetro e assim sucessivamente haverá sempre alguem que se insurja e o debate deslancha.

Ao escrever, no entanto, sabes que não podes passar em muito a disposição dos eventuais leitores, eles te largam. Imaginas uma taxa de razoabilidade e vais acrescentando um pouco além, sempre mexendo a panela para não empedrar. Ao mesmo tempo tens que passar além, muito além no que pode não ser novidade para ninguém, mas tem que ser o máximo a cada vez para ti mesmo.

Neste pendular reside a militância da escrita. Acreditamos que, ao expôr nossas palavras e algo de nosso pensamento, estamos induzindo a que o leitor faça o mesmo, e possamos caminhar juntos. Ao que eu acho, não adianta infantilizar o leitor.

Acho que qualquer um guenta o tranco de algo que não pensou ou de que discorda. Terá que fazer o mesmo caminho. Saber ouvir, saber falar. Perguntar-se o que, como e por que, e fará de tudo isso o que quiser, inclusive se vai ou não perguntar-se.

Por outro lado, não apresentar-lhe o que penso que  tenho de novo para mim com medo de desagradá-lo é privar-nos a ambos de caminhar um caminho. Trata-se, sem dúvida, de seduzí-lo mas não a ponto de submetê-lo ou submeter-se a uma privação de sentidos, tipo diga-me que andas comigo.

Ao contrário, a escrita e a leitura são um aguçamento, um refinamento de sentidos, uma coisa de espírito. Quem escreve ou quem lê pode achar que sim, pode achar que não, pode desdenhar, pode responder, pode questionar, pode argumentar, o melhor mesmo é quando enaltece. Escrever e ler é conversar.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Comments are closed.