Rô e as veredas.

Tese acadêmica de filósofo mineiro mostra o saber dos pequenos-grandes filmes de Sergio Santeiro. E uma versão nova do trabalho do realizador cinematográfico e sua obra paradoxal.

“Em cada época, tem-se de outra vez tentar o resgate da tradição contra o conformismo, que dela quer apossar. (…) Se o inimigo vencer, também os mortos estarão em perigo.”
Walter Benjamin

Veja Isto é Brasil, de Sergio Santeiro, em ViaPolítica

Não conheço um só período da história de nossa porca civilização onde não tenha havido fome, guerra, dor e sofrimento. Então, o que poderia ser etapa de um processo passa a ser estrutural e condicional. Condição da natureza humana, social, política e econômica, o que de modo algum podemos aceitar como normalidade histórica. Estamos vivendo um período de transformações radicais, e não sabemos ainda qual será o saldo de tudo isso. Muitas vezes é como se estivéssemos regressando à barbárie.

O cinema brasileiro com Xuxa, Angélica, Globo Filmes, Fernando Meirelles e Tropas das Elites tem optado por um caminho que felizmente não é o mundo a que pertence “Santeiro e suas veredas”, na delicada tese de Leandro de Souza Domith. Da parte de Sergio Santeiro, seus tantos curtas, textos, artigos e manifestos divididos entre a fome e a esperança de um Brasil melhor, retratam não somente o cinema, e sim, de certa forma, a classe “pensante” do país, incluindo aí os políticos, problema dos mais graves.

Ao mesmo tempo, todo esse deslumbre brasileiro com a contemporaneidade, com as tecnologias, com as transformações (mas a mente, a estrutura mental das pessoas, continua a mesma), não esconde o acirramento das misérias outras, da enorme parte do país-continente excluída da tal modernidade, esse acirramento que levará (e já está levando) o país a mergulhar no eterno sacrifício às custas do sangue, da dor da fome, da perda e do desespero, tanto no campo como na cidade.

Talvez da parte de Leandro de Souza Domith, o mais longotravelling teórico sobre o saber num mergulho desde Paixão, de 1966, até Paratodos, passando por KlaxonHumor Amargo, Isto é Brasil, Encontros com Prestes… e que recusamos a ver, entender, pensar e transformar em novas veredas tropicais. Só que, com a tese, o mito de que disso escaparíamos quebrou. E, agora, estamos em guerra da minoria rica e fascista contra a maioria de pobres, miseráveis, famintos… mas ainda alimentados por uma esperança no país e no afeto, tão bombardeados pela TV.

O país da TV é diferente do país mostrado por Santeiro e Leandro Domith. Sem exagero, posso afirmar que a volumosa tese “Santeiro e suas veredas” tem muito a ver com os conceitos de arte política expressos por Gramsci, Brecht e Rossellini. O trabalho de ambos é uma busca generosa de encontros, que o tempo infelizmente tenta tornar perdido.

Mesmo aos melhores partidos políticos (como se isso fosse possível), o povo só lhes interessa como gado. Que interesse têm, para eles, filmes como Encontros com Prestes, os índios, os quilombos ou o lixão das favelas? Que interesse despertam nossos curtas-metragens sem espaço nos cinemas, na TV, nas universidades, comunidades e escolas? Movimentos que se colocam de maneira crítica sem abrir mão do sonho, do afeto, do saber e da esperança. Não se está vendendo mais um espetáculo fajuto e “espetacular” da miséria humana.

Com o cinema de Sergio Santeiro na tese de Leandro de Souza Domith se está pensando um outro Brasil para os brasileiros. “Santeiro e suas veredas” é uma sólida manifestação afetiva, política e cultural para o nosso cinema de curta-metragem. Não é pouco e nem é muito. É simplesmente, indispensável. Um marco que o eleva até onde deveria sempre estar: criativamente ao lado do povo, da história, da formação e do saber.

Paixão, Ismael Nery e mesmo a tese sobre Sergio Santeiro não são produtos embalados ao gosto do cardápio fastfood do freguês. O cinema é um tema muito amplo, mas fácil de ser resolvido num país continental como o nosso. Basta querer enfrentar os tantos latifúndios e transformar a terra e o homem em produtividade, sonho e poesia.

Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Mas o inferno pode estar em nós mesmos. E a guerra contra as tantas fomes que se trava hoje é também a guerra do imaginário na comunicação. Ora, uma coisa é combater o fascismo exterior, outra é combater o fascismo em nós mesmos. E cuja abrangência na tese “Santeiro e suas veredas” extrapola o pragmatismo, a impositividade do mercado e da banalização da cultura. A tese, ao ser um poema-político-filosófico de resistência, aproxima a estrutura da superestrutura, sem o caráter arrogante da hegemonia e do senso comum.

Um rigoroso trabalho de tese que definitivamente fica acima de todos os modismos por sua verdade, rigor e seriedade do jovem autor e do personagem escolhido. Pela abrangência e espontaneidade do projeto humano. Mas que não se espere frutos imediatos. Só o tempo os trará. A época nossa é de superficialidades, tela rasa que interessa ao sistema, ao poder – mas não ao pensamento dialético de Leandro de Souza Domith, que investe o seu saber contra a mumificação do pensamento, do afeto e da ação. A luta do seu mestrado é uma luta pela felicidade contra a tirania – no caso, da desinformação, de uma formação e educação duvidosa. Dos latifúndios e das favelas dos grandes centros urbanos. Se quer com “Santeiro e suas veredas” um Brasil e um saber humano e melhor para todos.

Ora, o autor procura nos textos e imagens de Santeiro uma reciprocidade afetiva e política com o saber, a história e o país. Concebe influências, contradições e confrontos, e faz avançar, em sua análise, o âmago do movimento do Ser para o seu (nosso) tempo, com a filosofia agindo num comprometimento maior com a liberdade, a poesia, a política e o país e a sua história. Ou seja, a tese “Santeiro e suas veredas” traz de volta reciprocidades e ressignificações políticas oportunas, mais do que necessárias, tornando-se ao mesmo tempo preciosa para se compreender um projeto viável para o país, via os textos e o cinema do poeta, articulista, professor e cineasta Sergio Santeiro.

O cinema precisa com urgência ser reinventado para substituir a prostituição de muitos pela liberdade de criação. Nossa geração felizmente nunca se interessou pela domesticação de velhos e novos cineastas entorpecidos e desacelerados pelo sucesso fácil do cinema-televisivo boçalão. Inversamente à eterna repetição de idiotismos, optamos por uma ousada mise-em-scène de desprezo frontal por Hollywood e sua quinquilharias. Até fomos formados pelo melhor cinema americano (Cassavetes, Ray, Orson Welles, Kazan…), mas nos libertamos na experimentação linguística e na obstinação por um país para todos, e não para poucos.

Nos opusemos aos chanchadeiros do passado (reconhecendo a comédia e o humor como alternativa interessante e necessária), ao cinemão, à pornochanchada e à hegemonia reacionária do “novo” cinema-televisivo. Exorcizamos o bode do sucesso a qualquer preço por uma teatralidade política do país, indo muito além dos acordos entre os partidos, o poder e a TV.

Leandro de Souza Domith descobre o cineasta Sergio Santeiro por intermédio do sociólogo, escritor, teórico, professor e cineasta Gilberto Vasconcellos. Daí pra frente é a longa caminhada pelo universo do Outro como vontade, conquistas, sonhos e representação. Introduzindo no seu processo de análise, Benjamin, Adorno e mais uma infinidade de referências, indo de Gilberto Freire a Glauber Rocha e Jean-Claude Bernardet. E nunca a filosofia e o cinema estiveram tão próximos. Mas bem mais que um encontro produtivo, ocorre uma troca de saber enfeixada num grande amor pelo país que se recusa a não se assumir como um sonho possível para todos. E, então, escrever a formação e o posicionamento teórico-prático de uma vida a partir do saber.

Saber ser para além das suas próprias subjetividades e dos labirintos percorridos no cinema por um jovem poeta e sociólogo radical amante de Camões, de maturidade de uma coerência política-afetiva invejável. Eu nunca havia visto uma defesa de tese tão contundente tendo em pauta a cientificidade teórica da filosofia e as muitas incertezas do cinema se procurando na procura do Outro. O texto é um longo aprendizado do olhar em descoberta do mundo no transe da terra. Sem dúvida alguma é uma inserção poética na formação de todos nós que sobrevivemos aos anos de chumbo.

Rica foi a convivência entre o jovem filósofo e o cineasta. A tese que precisa ser editada com urgência é fértil como percurso amoroso e político de um saber, de um pelo Outro. Ganha o cinema na musicalidade poética das ideias de ambos. Ou seja, não é uma odisseia de museificação do Outro. Como afirma o próprio Santeiro, num velho texto colocado logo no início da tese: “O artista é – este seu mistério – um cara muito ligado nas coisas. E diante ao enorme caos da vida, aprende e seleciona, fixa-se nalguma é um obstinado, e como tal, acolhe tanto as energias ou bem explode ou cria”.

E é por onde vai o jovem filósofo: por um transbordamento de talento, tanto de um como do outro. E o que poderia parecer da minha parte um simples olhar é, na verdade, um encantamento de inserções do real sem trair o sonho de ambos. Leandro de Souza Domith tenta resgatar um saber requintadíssimo da universidade ao Cinema Novo, ressignificando a história, o país e o cinema, inserindo-se no transe enlouquecido de toda a nossa geração, que continua aí, lutando contra os eternos abortos do capital.

Mas não é uma tese para se concordar ou não, e sim um diálogo profundo com o país. E múltiplos são os conceitos políticos e culturais colocados em discussão. Como, por exemplo, a presença de Walter Benjamin e Brecht: “como capazes de transformar o aparelho produtivo no qual se inserem que possibilitam ao autor denominá-las “progressistas” ou “retrógradas”, pois, ao inovar, elas modificam as relações de produção, que podem ser aqui entendidas, tanto relativo à esfera pessoal do artista – seu estilo – quanto ao nível coletivo das relações sociais da cadeia produtiva em geral”.

Leandro de Souza Domith, por este processo, chega ao filme “Paixão, de Santeiro, como sendo um bom exemplo de o ‘mínimo múltiplo comum’, como termo empregado pelo então jovem cineasta na síntese ideológica, estética, cultural e política da qual parte o cineasta para produzir filmes.” O autor retrabalha o texto “A voz do dono, conceito de dramaturgia natural”, expondo o documentário como um rico processo sociológico de questões sociais das décadas de 50, 60 e 70. Dos depoimentos à montagem, uma reorganização de um Brasil (apesar da ditadura), alimentado por ideias políticas, que leva o personagem da tese da sociologia a um cinema de confrontos profundos, de Camões a Guimarães Rosa, passando por Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Sergio Buarque de Holanda… Após o golpe de 64, o autor trabalha a chegada no cinema novo, na militância cultural estudantil e sobre Paulo Martins, poeta do genial Terra Em Transe.

Santeiro, em 1969, nos apresenta O Guesa, sobre a vida e a obra do poeta maranhense Sousândrade. E o jovem filósofo, em 2010, a tese “Santeiro e suas veredas” aproximando tudo e todos num saber ousado, profundo e arbitrário, num esforço de pautar e enquadrar o surgimento de um capitalismo de consumo, mercado e pobreza sem paternalismo. Surge daí a dimensão trágica do nosso capitalismo-televisivo, não tendo mais espaço tanto para aEstética da Fome como do Sonho. Como magistralmente afirmava Glauber: “As imagens não têm necessidade de tradução e as palavras de esquerda não salvam as imagens de direita”. E não é isso que se vive intensamente hoje no cinema brasileiro?

Leandro de Souza Domith tenta inovar o enfoque de sua escolha analítica voltando a Humberto Mauro, à chanchada, a Paulo Emilio Sales Gomes e Alex Viany, ao dizer com a sabedoria de um jovem filósofo: “Se um filme propõe-se a uma expressão pessoal do autor, fruto de sua relação com a realidade, logo ele irá necessariamente construir sua obra a partir desta proposta. Todavia, se ele abre mão desta condição em prol de uma proposta ‘comercial’, de usar fórmulas de sucesso, ou seja, destinada a um fim que não seja a de uma expressão subjetiva individual, expressar-se, logo ele estaria fazendo um filme de má qualidade”, como se fosse cinema hoje, da TV ao celular. E usando Godard: “Com a imagem apenas complementando uma ideia reacionária que a motiva”. E, mais adiante, na tese: “Um autor progressista não visa nunca à fabricação exclusiva de produtos, mas sempre, ao mesmo tempo, a dos meios de produção.” Sábio Walter Benjamim.

Por último, o filme Paratodos, assumidamente o coração falante de um cinema da “ilegalidade”, aos olhos fechados da mesmice acadêmica. Uma rica teorização crítica do domínio dos meios de produção controlados. Ora, de quem é o espaço das universidades, do cinema e do saber? O escritor Mario de Andrade respondeu bem a essa questão, dizendo com sabedoria: “Veja bem: abrasileiramento do brasileiro não quer dizer regionalismo nem mesmo nacionalismo. O Brasil para os brasileiros não é isso, significa só que o Brasil, para ser civilizado artisticamente, entrou no concerto das nações que hoje em dia dirigem a civilização da terra, tem de concorrer para esse concerto com a sua parte pessoal, com o que singulariza e individualiza, parte essa única que poderá enriquecer e alargar a civilização”.

E é como Sergio Santeiro é visto e analisado na tese, necessária e exemplar, do jovem filósofo mineiro – construindo-se num conhecimento mais apurado do nosso cinema. Filosofia e cinema tendo a política e o Brasil como pano de fundo. E bem mais que um encontro feliz, uma descoberta de múltiplas articulações teóricas numa procura de singularidades no âmbito da criação. Leandro de Souza Domith dá transparência e profundidade tanto a uma análise criteriosa dos textos, como ao saber e aos pequenos-grandes filmes de Sergio Santeiro. E ao contrário de um culto afirmativo do cineasta, uma versão nova do sujeito e sua obra numa operação profunda e criativa entre o paradoxal e a complexidade poética de uma reconceituação de ultrapassagens, tanto de um como de outros. Na tese, o texto de ambos dialoga com uma rica instrumentalização do saber como expressão não da coisificação ou da castração, mas sim da liberdade e do sonho numa perspectiva de sobrevivência política do saber.

12/6/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

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