A fotografia em Vidas Secas.

 

Acho muito importante a existência dos trabalhos finais de conclusão de curso, uma pequena monografia.  Há os inspirados e há os apurados, nada impedindo que se mesclem aqui e ali como melhor lhes convenha. Na área em que atuo, o cinema, tenho visto, assim como na pós-graduação, muitos bons destes trabalhos. No momento refiro-me a este – Luzes, Cores e Sombras de Graciliano Ramos: a transposição fotográfica em Vidas Secas, de Flávia S. Neves.

O romance de Graciliano Ramos, filmado por Nelson Pereira dos Santos, o clássico de nossas letras torna-se um clássico de nossas telas, luzes e sombras criadas por Luiz Carlos Barreto, um clássico da luz brasileira. Inventores são os que inventam, vem neste trabalho, desde o início, e do romance e do filme, narrada mais uma invenção de Brasil, que é o que acontece sempre que os nossos filmes aparecem para as telas.

Narra de como a luz brasileira inconforme à fotogenia do negativo importado do hemisfério norte precisa ser inventada no nosso hemisfério sul e, como sabemos, esta é uma longa história desde que  Afonso Segreto à bordo da nau Brésil ao entrar na  baía da Guanabara no Rio de Janeiro, o Pão de Açucar ao fundo, inventou o cinema em nossa terra.  Muitos e tantos foram os talentos que vem construindo a nossa imagem à nossa semelhança.

E na pesquisa da Flávia também se somam os comentários e os labores dos muitos fotógrafos estrangeiros que visitando-nos também nos gravaram, somando-se a nós, de Chick Fowle, a Ricardo Aranovich, a Guido Cosulich, e tantos outros operadores, como os dos filmes naturais, os documentários.

Seu método de análise é primoroso. Compõe a escaleta das cenas e cores no romance e no filme, expondo a montagem por Graciliano no texto e a remontagem por Nelson no filme que segundo é sabido foi feito com o livro nas mãos. Comenta como o fragmentário no original é recriado nas imagens que o recriam na película. E aí o mistério da aridez de gentes e cenários é esculpido em luz para que todos a vejam lá na tela e em nossa condição humana universal. São as estações da vida.

O sucesso de seu trabalho permite-me, e já eu com tanto tempo nesta estrada, nem propriamente analisá-lo mas divagar. E no interior da casa, é só a luz do fogo? O que haveria ali de luz artificial, o que de rebatedores? É de se ver a possível flutuação da luz natural ao longo do plano. E o tempo? A duração de planos, cenas e sequências. Não é o cinema uma equação de espaço sobre tempo?

Referindo-se ao difícil diálogo entre os membros desta família primal brasileira no romance e no filme é que emerge o tema das relações sociais na palavra, a incomunicabilidade como um escuro entre as pessoas. Sem luz não vemos as pessoas em diálogo, como não as vemos no telefone e no computador. Mas sempre é possível na vida real ver no escuro, já no cinema…

E sabemos que a dificuldade da comunicação nas pessoas é um dos grandes temas universais do século xx. Ao não viver o progresso na história e sim seus retrocessos os pensamentos e as palavras se atrasam, se atropelam, se atrapalham, se incomunicam. E o cinema tem um mundo de filmes retratando isso.

No entanto, pra bem ou mal, o trato social sempre se comunica, nem sempre por palavras, ou não só, mas por gestos, por sentimentos e sobretudo por ações. O humano mal realizado socialmente torna-se um reprimido, e daí perigando tornar-se um repressor. A mais maldita das palavras, a repressão, invocada instala-se em todos os sentidos: “mas acorrentado ninguém pode amar”. Ao fazer do filho o objeto de sua impaciência como que se vinga da violência que irá sofrer, mas a vingança é fundamentalmente um ato de retórica porque visa anular o já ocorrido, o que não se tem como negar ou extirpar.

Falar de fotografia é ousadia minha que não tenho a necessária formação mas já me aventurei nessa seara a propósito de Humberto Mauro, Edgar Brasil e Hélio Silva. Pessoalmente não me apraz imaginar a cultura brasileira senão por seus próprios passados e desenvolvimentos históricos.

Refuto alegadas influências como as que tanto se diz do neo realismo e do expressionismo, afinal temos uma farta e antiga vivência de construção e desconstrução de nossos realismos caboclos. Não carece. E ao que eu saiba, cá não tivemos as guerras como lá, tivemos as nossas. O gravurismo de Goeldi e seu quê de expressionismo é na verdade uma forma de mais-realismo, e olha aí a presença da xilogravura na cultura popular nordestina. No filme, como em tantos dos nossos, o que mais vejo é um realismo poético que é como exercita Nelson a questão do realismo, do mais ou do menos, no cinema.

Uma inegável influência da tradição estrangeira ocidental é mais na formação que na criação estética. Temos que regurgitá-la como se faz com o negativo importado. A estética, que é um nível de representação autônoma da realidade, brota de suas próprias raízes, enterradas no chão, e evolui no sentido de escola de samba e não do que se imagina como um progresso universal, raízes do Brasil.

Vai crescendo e vai crescendo sua percepção à medida que evolui em meio à realidade em expansão e o que registra é sua relação participada nessa expansão e que afinal  só vemos e só reconhecemos a que nos está próxima.

No mais tudo é movimento: Galileu, recém homenageado pelo Vaticano que o condenara e do qual esquivou-se o gênio. No cinema, como se sabe, o movimento é uma ilusão que gira recriando um mundo de ilusão paralelo ao real mas que quer narrá-lo. A fotografia em movimento ganha toda essa riqueza aqui neste trabalho da Flávia, também autora de um Sangue Carioca, brilhantemente narrada, detalhada e demonstrada, exemplificada na reprodução dos fotogramas em que se pode ver tudo que aqui se fala, até sem nem estar vendo todo o filme.

Desde antes, com outros estudos sobre a fotografia do cinema brasileiro e seus exemplos, como o belo ensaio do Miguel Freire sobre Mário Carneiro, parecem-me base bastante para uma autosuficiência da cultura, do cinema e sua fotografia brasileiros. Ainda mais naquelas lonjuras sem socorro, faz-se a telha com o barro que tiver.

Como se sabe antes de Vidas Secas, Nelson inventa o Mandacaru Vermelho, um cotejo entre os dois, inclusive fotográfico, é uma delícia. Mandacaru foi o Vidas Secas que não pode ser naquele então, as chuvas abundantes enverdeceram o sertão. A experiência da fotografia de Hélio Silva ( sem esquecer o Major Reis e os tantos casos de fotógrafos  eles mesmos na inospidão revelando seus filmes)  igualmente laboriosa e fecunda, consagra como a vida do vaqueiro a lida por uma luz brasileira. (Sergio Santeiro. Charitas. 17/06/2010).

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