Gatos e Ratos

Vejo como um certo cinismo quando às vezes me dizem que a nossa relação com o poder é como a de gatos e ratos, nós, indivíduos, os menores, os ratos, eles os gatos. E então, como é da natureza, gatos caçam e matam os ratos.
Gatos gatunos e ratos indefesos. Mas não é assim. Se aceitarmos esse paralelismo virtual, estaríamos aceitando ser dominados por eles no clássico jogo de gato e rato.
O que de fato acontece é que somos, tanto o poder como os indivíduos, humanos. Somos iguais, idênticos, de mesma natureza. Não é natural que uns sobrepujem, dominem, persigam e matem os outros. Além do que fôssemos gatos ou ratos, quem seriam os cães?
O exercício do poder como uma pata de gato à espreita não tem nada de natural, é uma excrescência, um abuso. Sabemos que assim foi se fazendo na civilização. Quem empunha a arma pode mais que quem empunha um arado.
Supostamente a arma serviria para nos defender para que com o arado pudéssemos e a todos nos alimentar. Defender-nos de quem nos ataque, os outros animais e com o tempo os outros humanos que se reunissem em outro grupo que não o nosso.
Sim, porque os indivíduos não sobrevivem individualmente. Unem-se aos mais próximos. Generais não podiam entrar com seus exércitos e suas armas nas cidades. Não se permite atravessarem o rubro cão. A cidade, o burgo, a aldeia é a casa em que as pessoas moram, não é, não poderia ser um campo de batalha.
A batalha é pra se dar nas áreas externas entre as nossas aldeias e as aldeias de outros grupos mas, vencida a batalha no campo externo, desarmadas as defesas, os grupos de outras aldeias, vitoriosos, invadem a nossa casa. Se formos nós os vitoriosos, invadiremos a casa deles.
Se assim admitirmos, se reconhecermos que nós ou os outros podemos pelas armas subjugar os arados e submeter nossas casas às armas, aí começou esta guerra sem fim.
A guerra que era lá fora nos campos de batalha expande-se para dentro de nossas vidas, de nossas casas, em nossos campos de trabalho. Os grupos exercitam sua coesão interna, somos exogâmicos ou endogâmicos,  pastores ou guerreiros, nômades ou sedentários, citadinos ou campesinos.
À medida que o tempo passa as civilizações constroem-se, complexificam-se e tornam-se uma e outra coisa ao mesmo tempo. E internamente os que mais parecem gatos arrumam-se de tal sorte que nos querem a todos os demais indivíduos como se fôssemos ratos. Nem eles, os do poder, são gatos nem nós somos ratos. Fomos feitos e fazemo-nos todos à nossa semelhança.
Somos todos semelhantes, nem gatos, nem ratos, somos em tudo e por tudo iguais, é o que nos identifica. O que se chama de poder é um erro de origem, era pra nos proteger dos outros grupos, os que achávamos que eram outros, de outra natureza. Hoje vemos, sabemos, comprovamos, somos todos o mesmo barro.
Quando jovem compus um poema de que só lembro a primeira quadra: ” – Ó Deus, criado eu por vós do barro, não valho mais que um escarro do meu irmão pela origem?”. O deus que nós achamos que nos criou não nos responde. Deve ser porque nunca existiu. Visto aqui de baixo mais parece um chão no céu.
Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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