Archive for julho, 2010

As palavras

segunda-feira, julho 19th, 2010

As palavras (de Sergio Santeiro).

As primeiras letras formam as palavras que formam as frases que formam
os pensamentos. E como as aprendemos? São vários os métodos e mesmo  
que não aprendamos a lidar com elas, e seus caprichos gramaticais,  
delas nos servimos ao falar, livremente. Assim é que a lingua escrita
não é a mesma que a lingua falada e segundo estudiosos no assunto  
ambas merecem igualmente sobreviver.

Leio no jornal em papel que o JB, o Jornal do Brasil, o secular, vai  
deixar de ser papel, e estará impresso apenas na versão digital. Isto  
é bom, isto é mau, é sinal dos tempos. E nem quer dizer que tudo que é  
de papel desmancha-se no virtual. Não será parecido com a mudança do  
linotipo e seu chumbo letal para o que hoje se faz em impressão?

Começar ou passar o dia antenado no que é o começar ou o passar do dia  
das demais pessoas é um hábito arraigado principalmente me parece na
vida urbana. Sabe-se também que os leitores habituais tem o seu método  
de leitura: começa aqui, passa por ali, penso que a maioria lê tudo ou  
quase tudo.

Às vezes não me demoro no que não gosto, esse maldito gosto da mídia  
pelas tragédias ou o sobe e desce dos cadernos esportivos, mas passo
os ohos em tudo, até do que não gosto, esse maldito gosto da mídia
pelas tragédias ou o sobe e desce dos cadernos esportivos.

Sem dizer que gosto menos ainda do exaltado desfile de  
estrangeirismos, por que on-line e não na linha? Imprimem mais o que
se faz e se diz lá longe do que o que se passa no clube da esquina.  
Sim, tem a previsão do tempo e a cotação das bolsas mundo afora. Mais  
difícil é saber se chove ou faz sol na minha horta.

Palavras que do papel passaram às tevês, mantendo-se como em sua  
experiência anterior, no rádio, faladas, ou mais precisamente berradas  
numa cantilena monocórdica. A televisão continua radiofônica, não sabe  
inventar um visual, apenas reproduz cenários realistas e com uma  
minúcia estarrecedora.

Acho que eles acham que a palavra calçada numa moldura faz melhor à
vista e engana o ouvinte. Eu por mim, quando vejo, e vejo pouco, fico  
atônito na multidão de estímulos verbivocovisuais que como dizia
Shakespeare, nada significam. O papel não nos engana, podemos reler,
rever, guardar pra ler mais tarde com outra cabeça. E no dia seguinte
tem outro.

Talvez nada se perca na edição virtual e ganha-se os macetes que a
máquina na mão oferece. Perde-se o cheiro, como do pão fresco de
padaria, seu habitual parceiro na manhã de muitas gentes. Perde-se o
tato, o virar e dobrar a página, o que também tem o seu método, além  
da mestria em ler na condução lotada.

As palavras, não, as palavras não se perdem, elas andam por aí tudo,  
sem elas não se tem sequer como falar. Parece que a maioria dos  
animais se comunicam, falam entre si, conversam, avisam, será que usam
palavras? Não como as nossas, alguma forma de palavras.

Não escrevem, não leem jornal mas fazem-se entender pelos parentes,
talvez ainda melhor que nós. Suas palavras devem ser mais justas, mais
verdadeiras. Palavras amargas, palavras duras, palavras pesadas,  
palavrões. Os da minha época viraram vírgula ou ponto, todo mundo fala.

E como dizia Mário de Andrade a nossa é a única lingua que possui o  
admirabilíssimo ão. Nada aqui pode ser pequeno, tudo tem que ser  
grandão, também com esse mundão de terra, gente e coisas. Olha só a China!

E a palavra amiga, a que socorre, a que consola, a que anima.  A  
palavra que diz sim e a que diz não, melhor a que diz talvez, que nos
dá tempo de uma segunda chance. Posso dar uma palavrinha com vosmicê?

Se tirarmos a palavra, o que nos  resta? Vai nos vai restar,e talvez resolva, a telepatia, sinal dos  
tempos.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Passatempo

segunda-feira, julho 19th, 2010

Passatempo (de Sergio Santeiro).

Remador nesta nau sem rumo, debruçado sôbre o mar, questiona a
existência: – O que é a vida? A vida não é o que queremos é o que
deixamos que ela faça conosco.
Nem sempre é pedir, às vêzes é tomar.  Não dá pra esperar as melhores
curvas das marés, a menor distancia é a reta, mas tem as correntes por
baixo.

Rema, rema, remador, espada na cinta, foguete na mão. Minha mão é um
foguete, fende o mar, fende o céu e fende a terra. E assim ruma a nau,
a minha parte dando porrada na água com a minha mão que é um foguete.

Chega a tempestade no mar, tempestade no céu, tempestade na terra,
tempestade. O que é o tempo? Pode ser a duração, pode ser a
intempérie. Temporal é o que se refere a tempo. Temporais, duração ou
intempérie?

Enquanto dura um temporal vivemos um tempo sem tempo. Já te imaginaste
no ôlho de um furacão? Mas passa, o tempo passa. Ficamos nós enquanto
nós ficamos. Depois vem o que? Vem a bonança. Infindáveis libações de
vinhos divinos.

Vinhos bizarros, nem sempre líquidos, nem sempre sólidos, nem sempre
gasosos, sempre inebriantes e quem não quer inebriar-se, quem não
quer? Inebriar-se não muda nada em nada, só em nós mesmos, viramos
outros ou as outras partes de nós mesmos.

Profecias de adivinhos: o mundo vai se acabar! O mundo sempre se acaba
para os que se acabam, e se todos se acabarem juntos, não sei o que
mais pode acontecer, mas o mundo não terá acabado.
Aí estará como estava antes de nós e certamente depois. Depois é o tempo. O
tempo perguntou ao tempo, o tempo que o tempo tem. E que tempo o tempo terá?

Com tôda a nossa ciência ainda não sabemos como começou nem o mundo e
nem nós. Nem como começou e nem como acaba. Parece que há teorias a
respeito. Alguns dizem que foi grande, outros dizem foi um estouro. E
pra acabar será? será que será grande, será que será um estouro?

Teorias são respostas às indagações básicas: o que é a vida, o que é o
tempo. Respostas são o que se responde, variam. Dependem do onde e
quando. Somam-se, opõem-se, negam-se, mas são o conjunto que vai nos
respondendo o que perguntamos. Tem resposta pra tudo e ninguém cansa
de perguntar.

Que melhor rumo dar pra minha vida? Mais grana ou mais sossêgo?
Aportar à beira da baia ou mergulhar nos canais que nela acabam? Mais
acima ou mais abaixo? O remador não pode estar estático. Nada é
estático.

A cada vêz a cena muda. O remador procura estar na melhor condição de
sobrevivência e tem os seus vícios. Remos ou foguetes, vive às
braçadas, remando pra não parar.

Se parar acaba. Acaba o remo, acaba o mar, o mundo acaba. Acaba.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Ao ENESS, em Teresina.

domingo, julho 18th, 2010
Ao ENESS, em Teresina.
Agradavelmente surpreso, aceitei o convite para participar como palestrante do ENESS, o Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social, o XXXII, de 18 a 24 de julho de 2010, na Universidade Federal do Piauí, em Teresina.

Certamente fui indicado por estudantes que assistiram minhas aulas no curso de cinema da UFF em que sou professor há 35 anos, desde 1975. Tenho como tema “ideologia e comunicação”, nada mais justo, afinal desde estudante em 64 e depois formado em sociologia na PUC-RJ em 67, tenho acompanhado, estudado e participado como militante do cinema brasileiro no quadro cultural em geral e no audiovisual em particular.

Numa feliz coincidência, podia estar mais perto de vocês, estamos no mesmo campo, a mediação que buscamos entre a sociedade e a vida social: concorri a um doutorado na Escola de Serviço Social da UFRJ mas fui derrotado na entrevista final. Mas vamos ao que interessa. Muitas das questões que se colocam se devem a meu ver ao mal uso das palavras que tantas vezes se traem e nos traem.

Costumo sempre referir três delas de ampla circulação em nosso assunto: cadeia produtiva, publico alvo e grade de programação. Nenhuma cadeia, ao que eu saiba, é produtiva a não ser de mais bandidos. Publico alvo é maldade, é fazer de alvo o nosso destinatário, aquele para quem trabalhamos. E grade de programação também não dá, prefiro uma programação sem grades, de triste memória, e de preferência sem intervalos, ainda mais os gritantes, com som mais alto, na sanha comercial.

Antes de mais nada, atenção com as palavras, não se pode tomar o joio por trigo. É também importante não atropelar precipitadamente conclusões. É sempre recomendável esgotar os assuntos antes delas. A nossa sociedade contemporânea nos induz frequentemente ao atropelo. Até parece que inventou a pressa.

E nos últimos tempos, seja a década, fomos mergulhados em vertiginosa escalada tecnológica, a era digital, precipitando questões e decisões sem que as anteriores, a da analógica, tenham sido resolvidas. O grande e poderoso meio de comunicação de massa que é a televisão continua ser de comunicação às massas, unilateral, tal como o capitalismo em que se criou, concentrador, monopolista, massificante.

Tivemos a oportunidade, mais uma, no advento do sistema digital. Como de hábito desprezamos as avançadas pesquisas locais e importamos o modelo. E novamente, como de hábito, subjugamos a novidade ao império dos interesses mercantís das cinco famílias que dominam a produção e o consumo dos meios de comunicação televisiva no país.

E repetem todas com maior ou menor exagero as mesmas tragédias, as mesmas farsas e as mesmas comédias, as que fazem e, pior ainda, as que maçiçamente importam, impedindo o seu publico, que tratam como mero alvo, de conviver com a sua vida, a não ser nas formas e meios que propagam porque é o que lhes dá mais dinheiro e mais poder.

Mais um êrro de conceito. A televisão, esta invenção notável que  nos permite ver imediatamente o que está distante, é uma emissora, compete-lhe tão só mandar aos ares o que fôr de interesse do publico. Não pode ser ela a produtora, ainda mais exclusiva dos conteúdos que veicula, da mão à boca, por ser apenas a detentora de uma concessão a título precário de um bem publico.

No Brasil, gestores de bens publicos se adonam e tratam o que é de todos como se fôsse seu direito pessoal. Nem tudo está perdido, embora tudo, como estas apressadissimas leis de fim de cargo, passe no Congresso que, além  dos quatrocentos picaretas, tem a maioria de nossos representantes atribuindo-se as concessões, e afiliando-as em mau português, aos donos do mercado.

Fruto, no entanto, do atuante movimento de democratização da comunicação surge a implantação das tevês publicas por ocasião da lei de tv a cabo. A mais próxima ao publico é a tv comunitária, como as demais, de âmbito municipal, seria o mais notável instrumento para a vida social e sua cultura.

Cultura não é o que se quer impor ao consumo de todos. A audiência de 40 ou mais milhões de pessoas ao mesmo tempo não pode ser a meta, a mim mais parece o que já batizei de campo de concentração das mentes. Cultura é a troca da convivência entre todos nós os animais que fazemos ninho e criamos filhotes.

O papel do estado,infelizmente a critério de governos, é não o de se assenhorear mas o de fazer circular o mais amplamente possível os valores morais, culturais e políticos da vida social.

Na discussão atual do sistema digital surge a idéia de uma nova tevê publica: o canal da cidadania, veremos como acontece, porque a outra o canal oficial que montaram e que chamam de publica, a tv brasil, comporta-se como uma sexta família, tragédias, farsas e comédias,  os intervalos gritantes e os enlatados dos gringos.

Tenho o orgulho de ter implantado os dois canais publicos de Niterói, a Uniteve, o canal universitário, e a Tv-Comunitária, em 2000 na minha gestão à frente do Instituto de Arte e Comunicação Social. Depois tiraram, a universitária, abocanhada virou chapa branca da reitoria, e a comunitária, meus colegas professores a expulsaram do instituto, mas ressurge em outro.

Se o que nos une é a vida social, brindemos à vida e ao social que é o que nos vai abrir os caminhos. Muito obrigado.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

Sou guloso.

quinta-feira, julho 1st, 2010

Sou guloso (de Sergio Santeiro).

Sempre que ia a uma festa pedia a dona da casa que me fizesse o prato na mesa da iguaria farta. Elas servem bem e entre uma e outra que me explicava os quitutes eu perguntava e aquela morena na janela, é casada, é solteira, ou tico-tico no fubá? Eu sou guloso. As muitas opções, peixe, carne ou frango deixam-me sem saber o que preferir branca, tostada ou vermelha. Quero todas, um pouco de cada, e quando na repetição já não preciso de ajuda quero um muito da que provei e preferi.

Gosto de doces mas geralmente dispenso não porque engorde, uma curva a mais não me aborrece, mas porque de doce basta a vida, doce de batata doce, como se diz na roça. Melhor sobremesa é a fruta, ao natural ou em calda mas aí já é doce, né.

Ao fim da festa marquei um encontro com a anfitriã. Recebi-a em minha casa, ficou aterrada, era pobre demais para seu fino traquejo. Pobre, esquisita e mal decorada.  Acaso imaginou que eu era um dos seus? Tenho cara de quem curte cobertura na lagoa? Nada que um golpe de mandíbula não resolva. Choques de classe, etnia e pretensões não me distraem. Eu sou guloso.

No bar entre um gole e outro de algumas bebidas a passarela fervilha, a mesa também, bom quando é amena a conversa, nem tão bom quando há quem se exalte, talvez até eu, porque inadvertida ou propositalmente tocaram-nos no calcanhar. Ao que dizem, pelo calcanhar pendurou-se Aquiles no banho de imersão na imortalidade. Nem tudo é perfeito, ficou-lhe o calcanhar vulnerável. Todos nós temos um calcanhar vulnerável. Imagino que só um, afinal só temos dois. Raspou no calcanhar, a manada estoura.

Êêê, boi, sossega malhado. A caminho do matadouro o boi sonha com um infinito pasto verde, gramíneas e brotos, é o seu paraíso. Lá poderá pastar para sempre. É, mas não me apressem, tudo a seu tempo, e ainda tenho muito o que pastar no meu quintal. Ele é guloso. O bicho dá uma bocada no capim mascando a boca em sua baba. Vi outro dia na rede um boi me encarando e dizendo: eu cago no que tu come. E não é que é verdade!

Lembra o  sapo na festa do céu: Ôba! Quem tiver bocão não entra. Coitado do jacaré. O rabo do jacaré é uma delícia quando servido à mesa devidamente temperado a sal, do reino e limão. Imagino que não seja tão bom no seu local de origem, no rio ou à beira rio, quando dizem se lança à inescapável presa, a boca escancarada com centenas de afiados dentes. Ali, única vêz que o provei, estávamos numa barcaça amarrada ao cais num destes primeiros festivais de cinema a que sempre fui, só nos primeiros, depois já me aborrece, é muita caça e pouca presa.

Tudo é  mera questão de perspectiva. Adoro mas não conheço a língua russa. Sei que o que chamamos de avenida, essas ruas alargadas, traçando as cidades e escoando as gentes e seus instrumentos, carros, bondes, ônibus, os russos chamam de perspectiva.

Bem pensado. Do alto ou de baixo, acima ou a rés do chão, a vista se estende horizontalmente numa diretriz para fora até onde a vista não alcance. Meus olhos cansados alcançam pouco mas quando alcançam eles são gulosos. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo mas aprendendo a jogar.

Bem sentado, numa perspectiva em 45 graus, não se quebra o pescoço com o espaço, é deselegante, é gulodice demais pra pouca boca, as gentes e as coisas, pode ser um carro, um camelo ou uma moto, vem saindo do borrão e chegando tornam-se enxergáveis por não muito tempo. Há que ter olhos de águia que quando lá do céu despencam vão certeiramente acertar a presa inescapável. São gulosos.

Na natureza até pode ser mas na vida humana nem tudo ou muito pouco é assim certeiro. E se muito quiseres acertar vais ter que estar sempre armado, o que cansa. Na mesa às vezes rola essas conversas de homem, impublicáveis, as das mulheres também devem ser, não sei, não as sou. Ás vezes vem um festival de piadas, fico na minha, não sei contar piadas, mas tanto tempo em bares conheço a maioria, nada que uma risada ou se merecida a gargalhada não resolva.

Rir alto é chamar a atenção mas naquela zoeira nunca se vai saber de que tanto ri a multidão. Melhor assim, se ri ou até se geme é que tá bom. Se chorar, até pode o salgadinho temperar, mas a bezerro desmamado não se tem como aturar. Tambem já sabemos, quando mais tarde a noite mais vai sobrando a bezerrada. Às vêzes até dá, se quiser, pra conduzir o que desgarre, só depende da perspectiva. Vai que dá.

Imagina a cena. A gazela se aproxima e lambe o tigre. Ele a come. Ele também é guloso.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)