Ao ENESS, em Teresina.

Ao ENESS, em Teresina.
Agradavelmente surpreso, aceitei o convite para participar como palestrante do ENESS, o Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social, o XXXII, de 18 a 24 de julho de 2010, na Universidade Federal do Piauí, em Teresina.

Certamente fui indicado por estudantes que assistiram minhas aulas no curso de cinema da UFF em que sou professor há 35 anos, desde 1975. Tenho como tema “ideologia e comunicação”, nada mais justo, afinal desde estudante em 64 e depois formado em sociologia na PUC-RJ em 67, tenho acompanhado, estudado e participado como militante do cinema brasileiro no quadro cultural em geral e no audiovisual em particular.

Numa feliz coincidência, podia estar mais perto de vocês, estamos no mesmo campo, a mediação que buscamos entre a sociedade e a vida social: concorri a um doutorado na Escola de Serviço Social da UFRJ mas fui derrotado na entrevista final. Mas vamos ao que interessa. Muitas das questões que se colocam se devem a meu ver ao mal uso das palavras que tantas vezes se traem e nos traem.

Costumo sempre referir três delas de ampla circulação em nosso assunto: cadeia produtiva, publico alvo e grade de programação. Nenhuma cadeia, ao que eu saiba, é produtiva a não ser de mais bandidos. Publico alvo é maldade, é fazer de alvo o nosso destinatário, aquele para quem trabalhamos. E grade de programação também não dá, prefiro uma programação sem grades, de triste memória, e de preferência sem intervalos, ainda mais os gritantes, com som mais alto, na sanha comercial.

Antes de mais nada, atenção com as palavras, não se pode tomar o joio por trigo. É também importante não atropelar precipitadamente conclusões. É sempre recomendável esgotar os assuntos antes delas. A nossa sociedade contemporânea nos induz frequentemente ao atropelo. Até parece que inventou a pressa.

E nos últimos tempos, seja a década, fomos mergulhados em vertiginosa escalada tecnológica, a era digital, precipitando questões e decisões sem que as anteriores, a da analógica, tenham sido resolvidas. O grande e poderoso meio de comunicação de massa que é a televisão continua ser de comunicação às massas, unilateral, tal como o capitalismo em que se criou, concentrador, monopolista, massificante.

Tivemos a oportunidade, mais uma, no advento do sistema digital. Como de hábito desprezamos as avançadas pesquisas locais e importamos o modelo. E novamente, como de hábito, subjugamos a novidade ao império dos interesses mercantís das cinco famílias que dominam a produção e o consumo dos meios de comunicação televisiva no país.

E repetem todas com maior ou menor exagero as mesmas tragédias, as mesmas farsas e as mesmas comédias, as que fazem e, pior ainda, as que maçiçamente importam, impedindo o seu publico, que tratam como mero alvo, de conviver com a sua vida, a não ser nas formas e meios que propagam porque é o que lhes dá mais dinheiro e mais poder.

Mais um êrro de conceito. A televisão, esta invenção notável que  nos permite ver imediatamente o que está distante, é uma emissora, compete-lhe tão só mandar aos ares o que fôr de interesse do publico. Não pode ser ela a produtora, ainda mais exclusiva dos conteúdos que veicula, da mão à boca, por ser apenas a detentora de uma concessão a título precário de um bem publico.

No Brasil, gestores de bens publicos se adonam e tratam o que é de todos como se fôsse seu direito pessoal. Nem tudo está perdido, embora tudo, como estas apressadissimas leis de fim de cargo, passe no Congresso que, além  dos quatrocentos picaretas, tem a maioria de nossos representantes atribuindo-se as concessões, e afiliando-as em mau português, aos donos do mercado.

Fruto, no entanto, do atuante movimento de democratização da comunicação surge a implantação das tevês publicas por ocasião da lei de tv a cabo. A mais próxima ao publico é a tv comunitária, como as demais, de âmbito municipal, seria o mais notável instrumento para a vida social e sua cultura.

Cultura não é o que se quer impor ao consumo de todos. A audiência de 40 ou mais milhões de pessoas ao mesmo tempo não pode ser a meta, a mim mais parece o que já batizei de campo de concentração das mentes. Cultura é a troca da convivência entre todos nós os animais que fazemos ninho e criamos filhotes.

O papel do estado,infelizmente a critério de governos, é não o de se assenhorear mas o de fazer circular o mais amplamente possível os valores morais, culturais e políticos da vida social.

Na discussão atual do sistema digital surge a idéia de uma nova tevê publica: o canal da cidadania, veremos como acontece, porque a outra o canal oficial que montaram e que chamam de publica, a tv brasil, comporta-se como uma sexta família, tragédias, farsas e comédias,  os intervalos gritantes e os enlatados dos gringos.

Tenho o orgulho de ter implantado os dois canais publicos de Niterói, a Uniteve, o canal universitário, e a Tv-Comunitária, em 2000 na minha gestão à frente do Instituto de Arte e Comunicação Social. Depois tiraram, a universitária, abocanhada virou chapa branca da reitoria, e a comunitária, meus colegas professores a expulsaram do instituto, mas ressurge em outro.

Se o que nos une é a vida social, brindemos à vida e ao social que é o que nos vai abrir os caminhos. Muito obrigado.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

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