Archive for agosto, 2010

Malaquias

terça-feira, agosto 31st, 2010

Malaquias  (de Sergio Santeiro).

Malaquias não é mau mas é teimoso que nem mula. Quando encasqueta com uma coisa não há quem o convença do contrário. Aliás é difícil alguém convencer-se do contrário. E teimoso todo mundo é. Quem teima de um lado é porque há quem teime do outro.

E nestes dias que correm vemos um bando de gente querendo nos convencer que são o cara. Dizem que são isso mais aquilo, que vão fazer e acontecer. Até parece. E tudo pelos pobres. Se perguntar aos pobres, muitos até podem se convencer, melhor ainda se houver uma ajudinha na real.

E tome de propaganda. A propaganda é a alma do negócio, se é que negócio tem alma. O engraçado é que essa propaganda é só de tempos em tempos, de quatro em quatro anos. Os donos do pedaço, onde a propaganda é feita, ainda reclamam. Dizem, sublinham, repetem que é o “horário de propaganda política gratuita obrigatória”, tantos atributos num só horário.

E a propaganda de sabonete que fazem o tempo inteiro não é gratuita? Para o ouvinte, claro, que nada ganha com isso, para eles, os donos, sempre pinga o equivalente dindin pelo tempo ocupado. A dita propaganda política também para o ouvinte nem é obrigatória. Quem não quiser ouvi-la ou vê-la basta apertar o botão e só religar quando for do interesse do anunciante que tudo fará para mantê-lo ligado. Inventam mil e uma gracinhas, pisca-piscas, leroleros, moças e moços cheios de charme, bem ou mal despidos, vale tudo.

A política o que mais tem é promessa. Se for prometo que cumprirei o prometido e se não for, anos depois voltarei a prometer. Só não é gratuita para a emissora, a dita ganha renuncia fiscal ao tempo usado, é coisa de milhões. Ou seja, não é gratuita para nós outros, os contribuintes, que concordando ou não somos o que garante o dindin para o plinplin.

Malaquias tudo assiste, só não vai mudar seu voto porque parece que uns e outros são legais. Vocês sabem que todo mundo é meio dissimulado. Pouca gente revela o que de fato pensa e menos ainda o que de fato faz.

De longe tudo parece normal, sobretudo na televisão que quer dizer visão ao longe. No que aproxima, no intervalo, é que o bicho pega. Sorrisos viram esgares. Xingamentos em bocas cerradas e olhares que dizem tudo. Olhar de seca pimenteira. Não me olhe de banda que não sou quitanda. Não me olhe de lado que não sou melado.

Rios de dinheiro correm de lado a lado. Com a grana que se gasta talvez se resolvesse metade dos problemas do mundo. Não dá pra resolver todos senão não se vai ter o que prometer na próxima.

Malaquias não é novo, lembra que tantas das promessas de hoje já foram promessas de ontem. E é tanta promessa que a gente até esquece. Esquecer não pode. Não se deve esquecer. Vejam a reforma agrária, por exemplo, que já derrubou até presidente. Reforma agrária em todo o mundo é o que antecede o progresso. Não dá pra criar mercado se tudo tá na mão de meia dúzia. Aqui entre nós era coisa pra ter acontecido no mínimo na tal abolição da escravatura, tardia, e que, por sinal, a escravidão era pra nunca ter acontecido. Aconteceu e até hoje acontece. Acontece o trabalho escravo branco ou mulato ainda hoje. Acontece o trabalho di-menor. Acontece tanta coisa que nem nunca devia de ter acontecido. O mundo cresce, a população cresce, a propaganda cresce, o engodo cresce.

Malaquias não é contra a política nem é contra o negócio. Malaquias só não é bobo, não adianta rebolar na frente dele. Não é mentindo que se há de fazer a verdade. Malaquias tudo ouve e tudo vê e não abre mão de sua voz. Quando tudo serenar por mais quatro anos ele mantém-se atento ao que o cerca. E vota consciente do seu voto. Ele é teimoso. Ninguem vai convencê-lo do contrário.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Um causo.

segunda-feira, agosto 23rd, 2010

Um causo (de Sergio Santeiro).

–  Pois é, cumpadre, aí vem as inleição.

–  Pois é, cumpadre, aí vem as inleição. Tá certo, né, passa um tempo, se fôr bom fica, se fôr ruim sai.

– O que fica leva vantagem, já colhe o que plantou. O outro vai ter que plantar.

– E a gente escolhe, né, a gente é que escolhe o que vai entrar.

– Tambem não pode ficar entrando sempre. Duas vêz, vá lá. Depois abre espaço para os outros, vai ficar lá sózinho toda a vida?

– Ah! Mas tem os que fica. Parece que aquilo lá deve ser bom demais mesmo. Vai logo mandando: apara a grama ali, conserta o telhado lá. É muito bom.

– E voltar depois, pode? Poder pode mas aí volta pra nós escolher. Pode ser que apareça coisa melhor.

– É, mas pode aparecer pior tambem. Aí nós não vota. E depois tambem a gente nem guarda os nomes. Como é mesmo o daquele que devia ter ficado mas não ficou? Pois é, né, apagou-se na memória.

– Que isso, home! E o que é ruim pode apagar-se da memória? Tá doido, sô! O que é ruim não pode nem pensar em esquecer, senão vem de novo, e nós nem se lembra.

E o que é bom? O que é bom tá ruim de se ver. Tem uns bons aos pouquinhos. A gente vai fazendo um pouquinho, mais um pouquinho. E enquanto isto a confusão aumenta.

Por que é que não faz logo tudo de uma vez. Tudo que diz que vai fazer pra uns, faz logo pra todo mundo, senão fica esse tiroteio cego pra todo lado. Todo mundo querendo caber nos pedaços dos pouquinhos, não dá!

– É, mas inleição assim nunca se fêz. O povo tenta chegar lá, quase chega, aí pinta um contratempo e tudo volta à estaca zero. Pelo menos, agora inda tem inleição. Ê mundo, até parece que aos pouquinhos é melhor que nada.

– Que nada sô, melhor que nada é tudo. Mas tudo não pode, é o que dizem. Mas não provam, nunca tentaram. Aí, fica-se nesse jogo de incelença pra cá, incelença pra lá.

Uma incelença entrou no paraíso. Uma incelença entrou no purgatório. Uma incelença entrou no inominável.

– Diz que mesmo antes dá pra saber o resultado. Saber não. Adivinhar. Como é que dá pra saber antes. E se adivinha porque não enriquece na loteca? Tem gente que diz que sabe e vai com um e vai com outro. Se não acertar, não se incomoda, já ganhou no trajeto.

E chega o dia do juízo. É o dia da inleição. Neste dia jogam-se em campo as fôrças dos mais e dos menos. Os mais sairão de lá nos braços do povo. Os menos esperarão a próxima. Tem que insistir, né, cumpadre.

– É! E nós tambem.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Remeter lucros?

sábado, agosto 14th, 2010

Remeter lucros? (de Sergio Santeiro).

Êste é um papo que rola no cinema mas aplica-se a muitas outras coisas. Já que puxaram assunto e falando no
sotaque capitalista deles: remeter lucros, como? Valores,
legitimamente ou não, auferidos em nosso território, gerados por nosso
povo, e que graças às redes de
exploração, as salas de cinema, montadas desde os anos 20, devem ser tirados,
transportados, transplantados do país, para financiar a guerra do
Iraque? Milhares de notas embaladas em navios ou um clique no pc?

Os lucros que como se sabe são a parcela do trabalho retirada pelo
capital para coelhamente se multiplicar, se multiplicar em papéis,
valores de mero papel. Mas, já que os há, o que se tem a fazer é
re-metê-los, reinvestí-los, onde foram gerados e assim se cumpre o
circuito liberal capitalista, essa praga que parece que nunca vai se
extinguir.

Reinvestidos os lucros expandem os filmenegócios, geram riqueza,
porque a deles e não a nossa? Cineastas brasileiros de maior ou menor
experiência estão abafados, filmar e exibir que nunca foi fácil
tornou-se uma operação de custo e estratégia ainda maior.

Filmar em que escala de orçamento se não se pode exibir devidamente porque
“Their Mother Children” arrasa os nossos quarteirões. Filmes
estrangeiros cada um em 400 salas simultaneamente monopolizam o
mercado e desviam o publico para os seus coquetéis de mortes,
explosões, violencias e perversidades.

Promover a exibição gratuita e paga com dinheiro publico como nos
festivais de filmes estrangeiros como pesquisa de mercado para induzir
o consumo, incentivando o tambem monopólio
na mídia paga ou gratuita, definitivamente não pode.

Como tambem não pode financiar o comércio subsidiando, vicia. Montar
com dinheiro publico mais cinemas e redes de exibição audiovisual que
não seja para
o filme feito aqui é um assalto.

Quem quiser mercado para filme estrangeiro que banque o jogo. Invista,
não é assim que se diz no sistema capitalista? E auferindo lucros
reinvista, expanda o teu negócio, que é exibir para produzir. Gringo, faça
como se estivesse em sua casa. Ganhe a tua grana mas gaste-a aqui.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

Os jogos.

terça-feira, agosto 10th, 2010

O amor de uma mulher´
é formoso como a flor.
Murcha.

Um pedaço vale mais
que o resto.

Hoje não
amanhã talvez
depois nunca mais.

Acertar o tiro
aniquila a prêsa.

Comer
Parar
sábia decisão.

Tá comendo? Legal.
agora só falta o resto.

Não ouviu o que eu disse?
– Não entendi.
Se voce não quer, nem eu.

O jabuti.

segunda-feira, agosto 9th, 2010

O jabuti.

De noite na cama invento pro meu neto a estória do jabuti. Ficam tirando onda com ele. A girafa desafia: vamos ver quem ganha a corrida? E sai trotando. Lá vai o jabuti.

A girafa no alto encontra touceiras de folhas as mais macias e frescas. E tome de engolir. Dá um sono. A girafa cochila e lá vai o jabuti, e ganha a corrida.

A matreira raposa: vamos apostar uma corrida? Encontra um galinheiro, faz o maior estrago, e puxa um ronco. Lá vai o jabuti.

O jacaré joga-se no rio, lá corre melhor, dá de cara com a corredeira, vai subindo na pedra, a água o derruba, de novo, e de novo. Na areia, tranquilo, lá vai o jabuti.

O coelho tropeça num campo de cenoura e lá vai o jabuti. No supremo desafio a célere onça vê a churrascaria e nela se acaba. O jabuti que vai comendo no caminho sem parar de andar sempre ganha a corrida. Lá vai o jabuti.

O jabuti é invencível.

Giap vive.

segunda-feira, agosto 2nd, 2010

Giap vive. (de Sergio Santeiro).

A um ano de completar seu centenário Vo Nguyen Giap, o general  que comandou a vitória do Vietnã sobre os invasores franceses em 1954 e depois os americanos em 1975 vê-se agora às voltas com nada menos que os chineses.

Quem nos traz a notícia publicada no jornal La Repubblica por Raimondo Bultrini em 19-07-2010 é Silvio Tendler que em seu magistral filme “Utopia e Barbárie”  tinha já recolhido  o depoimento do velho general sobre a atualidade vietnamita como em todo o mundo exposta à escalada da sociedade de consumo de massa.  Sua notável resposta , o rosto iluminado, é de que agora vivemos em paz.

Certamente nós que apenas vivemos a pequena guerra de todos os dias não tenhamos como aquilatar quão significativo viver em paz representa para um povo milenar sujeito a um século de guerra contra a dominação estrangeira e mesmo para nós como para eles a paz é tudo.

E no entanto lá como aqui as novas formas da dominação insinuam-se travestidas na velha fantasia do progresso não importa a que preço. Pois não é que ergue-se de novo necessária sua voz contra a política do governo vietnamita submetendo a proteção das montanhas e rios de sua terra aos interesses econômicos em aliança com a China, a segunda maior potencia do mundo, em vias de tornar-se a primeira, assim que os Estados Unidos sucumbirem  ao desastre de si mesmos.

O governo autorizou a exploração da bauxita de que se extrai o alumínio em conjunto com empresas chinesas  que não o fazem em território chinês fechadas 100 minas por medo das graves seqüelas ambientais .

Disse o general: “É meu parecer que nós não devemos explorar a bauxita, sua extração irá causar consequências  graves  ao ambiente, à sociedade e à defesa nacional”.  A despeito do que, o governo firmou um contrato com a gigante chinesa do alumínio Chinalco, para sua plena implantação até 2012, considerada a bauxita de que o Vietnam é o terceiro produtor mundial como uma de suas principais políticas econômicas.

Lá administrarão em “joint-ventures” os canteiros das minas na província nórdica de Cao Bang, uma encantadora cascata de montanhas e colinas cultivadas, justamente na fronteira com a China. Cao Bang faz parte também da memória histórica do país, teatro de algumas das mais extraordinárias vitórias do jovem Giap contra os franceses e ainda antes refugio e quartel general de Ho Chi Minh, às vésperas da revolução antijaponesa de 1945.

Acrescenta o jornalista: é uma pena que as águas de rios importantes como o Ba e o Serepok  sejam contaminadas pelos agentes químicos e tóxicos derivados da exploração em uma região habitada pelo maior numero de etnias indígenas não vietnamitas, tradicionalmente deixadas para trás pelo desenvolvimento que já coloca o Vietnã entre as economias mais fortes da Ásia, com 5,3% de crescimento anual.

Quer a China tratar o Vietnã como fazem conosco os Estados Unidos.  É, sem dúvida, um feito extraordinário alimentar e manter a coesão de um bilhão e meio de seus habitantes. Mas precisava fazê-lo à custa de seu mais frágil vizinho? Não por acaso a vanguarda da esquerda no mundo e também entre nós incorporou como importante frente de luta a questão ambiental. Não há como sobreviver em paz em terra devastada não mais pela guerra mas pelo tal progresso a qualquer preço. Afinal o preço somos nós ou os eventuais  em os havendo sobreviventes.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).