Um causo.

Um causo (de Sergio Santeiro).

–  Pois é, cumpadre, aí vem as inleição.

–  Pois é, cumpadre, aí vem as inleição. Tá certo, né, passa um tempo, se fôr bom fica, se fôr ruim sai.

– O que fica leva vantagem, já colhe o que plantou. O outro vai ter que plantar.

– E a gente escolhe, né, a gente é que escolhe o que vai entrar.

– Tambem não pode ficar entrando sempre. Duas vêz, vá lá. Depois abre espaço para os outros, vai ficar lá sózinho toda a vida?

– Ah! Mas tem os que fica. Parece que aquilo lá deve ser bom demais mesmo. Vai logo mandando: apara a grama ali, conserta o telhado lá. É muito bom.

– E voltar depois, pode? Poder pode mas aí volta pra nós escolher. Pode ser que apareça coisa melhor.

– É, mas pode aparecer pior tambem. Aí nós não vota. E depois tambem a gente nem guarda os nomes. Como é mesmo o daquele que devia ter ficado mas não ficou? Pois é, né, apagou-se na memória.

– Que isso, home! E o que é ruim pode apagar-se da memória? Tá doido, sô! O que é ruim não pode nem pensar em esquecer, senão vem de novo, e nós nem se lembra.

E o que é bom? O que é bom tá ruim de se ver. Tem uns bons aos pouquinhos. A gente vai fazendo um pouquinho, mais um pouquinho. E enquanto isto a confusão aumenta.

Por que é que não faz logo tudo de uma vez. Tudo que diz que vai fazer pra uns, faz logo pra todo mundo, senão fica esse tiroteio cego pra todo lado. Todo mundo querendo caber nos pedaços dos pouquinhos, não dá!

– É, mas inleição assim nunca se fêz. O povo tenta chegar lá, quase chega, aí pinta um contratempo e tudo volta à estaca zero. Pelo menos, agora inda tem inleição. Ê mundo, até parece que aos pouquinhos é melhor que nada.

– Que nada sô, melhor que nada é tudo. Mas tudo não pode, é o que dizem. Mas não provam, nunca tentaram. Aí, fica-se nesse jogo de incelença pra cá, incelença pra lá.

Uma incelença entrou no paraíso. Uma incelença entrou no purgatório. Uma incelença entrou no inominável.

– Diz que mesmo antes dá pra saber o resultado. Saber não. Adivinhar. Como é que dá pra saber antes. E se adivinha porque não enriquece na loteca? Tem gente que diz que sabe e vai com um e vai com outro. Se não acertar, não se incomoda, já ganhou no trajeto.

E chega o dia do juízo. É o dia da inleição. Neste dia jogam-se em campo as fôrças dos mais e dos menos. Os mais sairão de lá nos braços do povo. Os menos esperarão a próxima. Tem que insistir, né, cumpadre.

– É! E nós tambem.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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