Malaquias

Malaquias  (de Sergio Santeiro).

Malaquias não é mau mas é teimoso que nem mula. Quando encasqueta com uma coisa não há quem o convença do contrário. Aliás é difícil alguém convencer-se do contrário. E teimoso todo mundo é. Quem teima de um lado é porque há quem teime do outro.

E nestes dias que correm vemos um bando de gente querendo nos convencer que são o cara. Dizem que são isso mais aquilo, que vão fazer e acontecer. Até parece. E tudo pelos pobres. Se perguntar aos pobres, muitos até podem se convencer, melhor ainda se houver uma ajudinha na real.

E tome de propaganda. A propaganda é a alma do negócio, se é que negócio tem alma. O engraçado é que essa propaganda é só de tempos em tempos, de quatro em quatro anos. Os donos do pedaço, onde a propaganda é feita, ainda reclamam. Dizem, sublinham, repetem que é o “horário de propaganda política gratuita obrigatória”, tantos atributos num só horário.

E a propaganda de sabonete que fazem o tempo inteiro não é gratuita? Para o ouvinte, claro, que nada ganha com isso, para eles, os donos, sempre pinga o equivalente dindin pelo tempo ocupado. A dita propaganda política também para o ouvinte nem é obrigatória. Quem não quiser ouvi-la ou vê-la basta apertar o botão e só religar quando for do interesse do anunciante que tudo fará para mantê-lo ligado. Inventam mil e uma gracinhas, pisca-piscas, leroleros, moças e moços cheios de charme, bem ou mal despidos, vale tudo.

A política o que mais tem é promessa. Se for prometo que cumprirei o prometido e se não for, anos depois voltarei a prometer. Só não é gratuita para a emissora, a dita ganha renuncia fiscal ao tempo usado, é coisa de milhões. Ou seja, não é gratuita para nós outros, os contribuintes, que concordando ou não somos o que garante o dindin para o plinplin.

Malaquias tudo assiste, só não vai mudar seu voto porque parece que uns e outros são legais. Vocês sabem que todo mundo é meio dissimulado. Pouca gente revela o que de fato pensa e menos ainda o que de fato faz.

De longe tudo parece normal, sobretudo na televisão que quer dizer visão ao longe. No que aproxima, no intervalo, é que o bicho pega. Sorrisos viram esgares. Xingamentos em bocas cerradas e olhares que dizem tudo. Olhar de seca pimenteira. Não me olhe de banda que não sou quitanda. Não me olhe de lado que não sou melado.

Rios de dinheiro correm de lado a lado. Com a grana que se gasta talvez se resolvesse metade dos problemas do mundo. Não dá pra resolver todos senão não se vai ter o que prometer na próxima.

Malaquias não é novo, lembra que tantas das promessas de hoje já foram promessas de ontem. E é tanta promessa que a gente até esquece. Esquecer não pode. Não se deve esquecer. Vejam a reforma agrária, por exemplo, que já derrubou até presidente. Reforma agrária em todo o mundo é o que antecede o progresso. Não dá pra criar mercado se tudo tá na mão de meia dúzia. Aqui entre nós era coisa pra ter acontecido no mínimo na tal abolição da escravatura, tardia, e que, por sinal, a escravidão era pra nunca ter acontecido. Aconteceu e até hoje acontece. Acontece o trabalho escravo branco ou mulato ainda hoje. Acontece o trabalho di-menor. Acontece tanta coisa que nem nunca devia de ter acontecido. O mundo cresce, a população cresce, a propaganda cresce, o engodo cresce.

Malaquias não é contra a política nem é contra o negócio. Malaquias só não é bobo, não adianta rebolar na frente dele. Não é mentindo que se há de fazer a verdade. Malaquias tudo ouve e tudo vê e não abre mão de sua voz. Quando tudo serenar por mais quatro anos ele mantém-se atento ao que o cerca. E vota consciente do seu voto. Ele é teimoso. Ninguem vai convencê-lo do contrário.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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