Archive for setembro, 2010

Vésperas

terça-feira, setembro 28th, 2010

Vésperas.

Comecei a comentar um relato restrito ao que se chama de politica publica de cinema. Acabei achando que valia como um retalho do geral. Inventaram um tal comitê técnico,  sem técnicos, para a gestão de um tal “fundo de inovação audiovisual”, coisa fina.

Aí está a fraude exposta. Nenhum realizador atuante no tal comitê, resultado: um monte de novidades inúteis, mais uma vez dispersando os recursos, aliás uma mixaria, 35 milhos, é o que a Petrobrás gasta de envelope nos seus comitês de cultura e propaganda. E no apagar das luzes o mais evidente dirigismo, até tema tem, parece concurso de redação no primário.

E qual o tema? Tantas cabeças pensantes só podiam pensar uniformizadamente, pasmem, o futebol. Nunca vi nada mais original na vida que escolherem o ludopédio.Por que será? O resto que se fêz ou faz no país não interessa. E viva a seleçao. É a corrida pra frente. Será que sai o hexa? Estamos cansados de só ser penta.

Primeira  correção ao douto comitê. Futebol é anglicismo, quer dizer bolapé, ou seja o artefato a se jogar com os pés, contrariando os americanos que a jogam com as mãos e derrubando-se, o que no nosso é dupla falta, e eles ainda chamam o nosso de soccer, em que tampouco é permitido socos. E toda vez que o ouço, parece que estão nos chamando de suckers= babacas. Ou é uma destas projeções livres da mente.

Os condutores ou motorneiros da política de cinema dispensam comitês, conforme o relato citado em que lhes coube (e por sinal o relator inventou um festival de …filmes de foot-ball) apenas assinar em baixo das decisões savantes, as da sav, a secretaria do audiovisual do ministério da cultura da república federativa do brasil. Federativa, e por isso louvam-se da descentralização, a CBD.

Bela democracia: ajuntam um punhado de aderentes que confirmam a aderência ao lastimável programa do governo que acabou. Hello, acabou. E tome novidade (?) videoclipe que pode ser até experimental, quanto progresso.

Enquanto isso as nossas prateleiras abarrotadas e ficam esses mondrongos inventando quais novas rodas vão rodar nas nossas telas abarrotadas dos invasores gringos a fazer todo jogo sujo de mercado e a merecer isenção fiscal para rebocarem os filmes locais que querem que se faça.

E tome de bancar passagens e estadias nos festivais internacionais aqui e fora com as figurinhas carimbadas do submercado de exportação americano. Acham que assim vai dar. Vai dar para o bando de pendurados na exploração colonizada de nossas riquezas ou para o turismo sexual.

No cinema, como em tudo, o que se devia era implantar a substituição  de importações, como se fêz na expansão da industria brasileira, o resto é piada. Vão insistir em insuflar a produção audiovisual tutelada, temas, formatos, planos de negócios, e tudo pro buraco de alguns bolsos.

Tudo querendo esconder o cinema que corre em nossas veias e que aponta aqui e ali no meio do caos de governo incompetente e mal intencionado. E, por favor, estou falando de cinema, não envolvam o governo nisso. Até nas telas dele brasileiro é visita ou é exótico, talvez para desenvolver o turismo interno.

Até nas telas dele gasta-se o nosso precioso e escasso dinheiro publico para comprar séries e matérias ridículas nos tios sam da vida, não é possível que não role algum, além do tapinha nas costas, o que pras crianças no poder pode ser suficiente.

E voces, meus rapazes, nos comitês, comissões, congressos, secretarias, ministérios, olhando para si mesmos, sinceramente, voces se julgam capazes, conhecedores da situação para responsabilizarem-se em simplesmente assinar embaixo das barbaridades provindas dos gabinetes refrigerados de Brasília 18%, como a tunga dos direitos autorais em curso.

O direito autoral como diz o nome é do autor. Não é do publico e nem do consumidor, muito menos do gestor publico. O direito do publico, do consumidor, como do povo em geral é a propriedade dos meios de produção para todos. Socialize-se a produção e todos teremos direitos iguais.

Enquanto isso, que prevaleça na cultura o que vale para a sociedade em geral. Nêste caso, o da cultura, o que sempre valerá será o direito intangível do autor sobre sua criação. E se prevalece o direito da propriedade privada, e o de herança, entre outros, porque é que pode o ministério in extremis atribuir-se o direito de tungá-lo?

Às vésperas da troca de guardas os palácios alvoroçam-se, é um corre corre geral, quem virá, quem ficará, quem passará, cadê o meu, as sublimes mutações de idéias e ideais.

Até comitês, por que não, comitês populares. 21.Nem mais, nem menos.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Abrir os portos

quinta-feira, setembro 23rd, 2010

Abrir os portos (de Sergio Santeiro).

É só o que dizem os governistas: o negócio, após oito longos anos em que nem pensaram nisso, é mudar o paradigma. Só se fôr mudá-lo para a dilgma.  Abrir os portos. Nunca. Jamais. Já estão escancarados portos, braços e pernas há mais de 500 anos. Desde o tal “descobrimento de 1500”, quando as nossas extensíssimas costas inteiramente abertas e visitadas por visitantes, digamos, nem melhores nem piores que os portugueses que abateram-se a dominar brutalmente a terra e seus habitantes nativos. Crime contra a humanidade.

Começam aí as aberturas de portos: no massacre dos que aqui estavam e no dos que arrastaram pra cá nos navios negreiros. Tirei boa nota no vestibular na prova de história por ser a questão a famosa abertura dos portos em 1808 … para os ingleses que gentilmente comboiaram a segunda invasão portuguesa aqui espertamente transplantados os monarcas para escapar das tropas napoleônicas às portas de Lisboa. Deram aos ingleses a opção preferencial no comércio com as nações amigas, mui amigas, descontando-lhes os impostos.

A Colonia, como nos chamavam eles, nada podia produzir, nem as roupas, os têxteis, de nosso esplendoroso algodão, só a chita que passou a adornar as vestes das baianas. Tudo tinha que ir e vir de fora para o gaúdio dos bucaneiros bretões. E assim é. É a devastação da mera pilhagem, do saque ao ambiente e da chacina dos trabalhadores apesar de muito mais numerosos, no entanto, como reza a triste história, atirados  aos jogos e arreglos do poder ficam impossibilitados de assumir seu destino igual ao de todos nós humanos, a vida.

E aqui, hoje, continuamos com a supressão das necessidades de sobrevivência interna para ter que ouvir de novo, mais uma vez, que o poder que virá, se e quando vier, vai determinar a abertura dos portos audiovisuais, mercado em que pessoalmente atuo e acompanho. Não sei se também será assim no resto. Não só os americanos, o paradigma é que sejamos pilhados por todos os de todas as nacionalidades.

Mui democrático … para os estrangeiros. Internamente até hoje todos os governos esforçam-se em garantir o monopólio audiovisual norte-americano. E o que é que vai mudar no para a dilgma? Continuaremos os nativos contidos, amarrados, vendo o nosso espaço de trabalho, nosso mercado, sucessivamente assaltado por tudo que nos é estrangeiro.

Nada contra, não fôssem eles os que nos tiram o leite das crianças. Até seria a favor se fôsse isonômico, tantos nossos lá quantos deles cá. A estética não é uma questão de beleza, ainda se fôsse para nós somos mais belos, é uma questão de fome. A estética é a da fome.

Muitos aplaudirão mais uma maldita abertura dos portos, devem estar levando algum, como a platéia brasileira índia aplaude nos filmes quando a cavalaria americana massacra os índios de lá na terra deles, na terra de nossos irmãos índios, a eles como a nós roubada.

Nada de abertura dos portos, ao contrário, pela apertura, devia-se fechar todos eles, nossos braços, nossas pernas, como na gafieira, o que está fora não entra e o que está dentro não sai. Fechar para balanço, digamos, para repartir o pão. Uma vêz resolvida a vida de nossos 200 milhões de conterrâneos, os velhos de guerra, então veremos o que fazer com os alienígenas.

Abrir portos é apertar ainda mais nosso cinto. Sinto. Se querem mudar o paradigma melhor seria mudá-lo para o digno.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

Meu voto é vermelho

sexta-feira, setembro 3rd, 2010

A 3 de outubro vou votar na minha cor porque eu sou índio e operário da cultura. Foi minha sina atravessar à outra margem do Rio em que nasci, caminho inverso do ancestral que desta de cá atravessava a nado a baía para juntar-se aos que na Glória combatiam os invasores que ao contrário dos piratas que passavam eram os portugueses,  os piratas que ficaram e nos queriam escravizar aos índios não, nós não deixávamos, era a Confederação dos Tamoios, e nos mataram, exterminaram, usando o jogo da guerra tribal como depois fizeram em África de lá trazendo as presas que nas guerras entre as tribos eram prisioneiros e aqui desraizados, desterrados, desencontrados, foram brutalmente escravizados porque estavam divididos, tantas as tribos.

Também sou negro, também sou branco, somos mestiços, o povo brasileiro. Não adianta o demagogo jactar-se: “o povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém”. Pura mentira. Não percam tempo em validar dominações, em pretender discriminar entre quem somos. O tempo passa e ainda somos dominados porque deixamos que nos digam o que fazer. Democracia, o governo do demo, é o império do demônio que a nós não é estranho, também é um ser da natureza, não nos assusta, é o Anhangá, não nos serve de espantalho e não podemos deixar que nos sirva de mortalha.

Dividem-nos em grupos, em tribos, em classes, e assim nos estranhamos, e botam-nos a jogar uns contra os outros, como os temiminós de Araribóia da Ilha, depois de usados, abandonados na Praia Grande, em que depois se ergue Niterói. Entre nós era uma guerra tribal, escaramuças pesadas, mortais, mas homem a homem ainda quando éramos selvagens. Nela não há como se ter partido. Não era como se fêz o que depois vivemos, não era a luta de classes, não era a guerra de dominação escrava, que esconde as raças, no afã de escravizar o trabalho e dele tirar o que ele cria, a que os ladrões, os matadores, sem pejo, chamaram capital.

Pois foi aqui em Niterói, na capital da província fluminense, que em 22 contra a democracia dos exploradores se construiu o partido dos obreiros que veio para fazer a democracia proletária, a de todos, o partido operário, o partido comunista brasileiro. Em tantos anos de luta, 88, desarmados e tantas vezes desarmando-se, infelizmente seja por que for, com ou sem motivos, com ou sem razões, partidos não vingamos, não logramos, não vencemos.

Os milhões de operários divididos são presa fácil das centenas de burgueses que sobre nós fazem de nós como se fôssemos tribos, botam-nos a nos disputar como se fôssemos selvagens, caçam-nos uns contra os outros, como se a democracia fosse a deles, fosse como é o império do demônio, o outro demônio, o deles, não o nosso, não o do trabalho, não o que cria, mas o que expropria, o demônio do inferno que é o capital, o que pra vencer divide a nossa fôrça, exaure o nosso sangue, nos deixa enfraquecidos, nos rouba do trabalho, nos joga ao desemprego, nos separa, nos aparta, nos deixa ao desalento.

Nós, aos milhões, cindidos,  jamais iremos ao paraíso que com nossas mãos construímos e deixamos ao esmo endemoniado dos burgueses. Unido o povo jamais será vencido. E ainda que esta não seja a nossa hora, ainda que os vermelhos não sejam uma só tribo, o meu voto em 3 de outubro,  o meu voto é vermelho. Em Niterói, como a primeira vêz, em busca da união, vote com a gente. Meu voto é 21 no partido comunista brasileiro.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Águas a rolar.

sexta-feira, setembro 3rd, 2010

Águas a rolar (de Sergio Santeiro).

Depois do ouro negro, tungado à natureza, que não sei que benefícios trouxe à humanidade, agora é a vêz do branco. Descobre-se que , assim como o negro que estão a cavucar até no fundo do oceano, embaixo à  nossa terra estendem-se províncias colossais de água doce. Esta que é 70% de nós, de nosso corpo, e a outra a que se espalha a salgada nos ¾ do planeta e para nós, no Brasil, é como tudo de uma fartura imensurável.

Temos o Amazonas, o maior em extensão desde o Peru e em volume d’água pororocando espetacularmente mar adentro. E o São Francisco que corre às avessas e a bacia do Paraguai banhando o nosso oeste, é muita, é muita água, é tanta e ao que se sabe é um bem a cada dia mais escasso mundo afora.

Lá nos desertos onde brota o negro despertando as fúrias dos dinheiros que em nada melhoraram a vida de seus povos e, pior, atraíram exércitos sedentos e cruéis atrás de mais dinheiros e sempre mais dinheiros tirados para engordar fortunas de nababos distantes no além mares.

De que adianta tais riquezas se não as podemos beber, se não as podemos comer e que servem só pra empestiar mares, céus e terras de sua fumaça viscosa que se alimenta do sangue que derrama.

Será que aqui também nosso ouro líquido, transparente, insípido e inodoro vai nos botar no alvo da cupidez universal? Ninguém merece. Não há bem que sempre dure nem há mal que nunca acabe mas porque não nos garantimos antes disso, antes que o apocalipse de lá no Médio Oriente venha a transplantar-se na cobiça de nossas magníficas reservas aqüíferas.

A água é de beber, camará, não é de guerrear. Sabemos que navios entopem seus porões Amazonas acima de nossas ricas águas. A água que tantas vezes invade e inunda nossas casas e plantios porque somos imprudentes de ficar-lhe às margens. Séculos de predação descontrolada cobram seu preço e ainda toleramos que de nós, nosso chão e nossa água assenhorem-se os trêfegos capetalistas invasores.

Por que é que permitimos que os estrangeiros que nos invadem apoderem-se de terras do tamanho de países para destruí-las, sugá-las, em cima e agora também em baixo? Por que? Lá de longe, lá onde quase nada mais resta, ficam as rédeas das corporações que aqui vêm a fantasmar, a assolar e a desalmar nossa hinterlândia.

As águas vão rolar mas que rolem para nós, para mitigar a sede nossa e de nossos cultivos do bem: a mandioca, o milho e o feijão. É pra dar de beber aos rebanhos. É pra viajar nas pirogas. É pra nadar aos sóis.

Antes dos pré-sais tem as águas e segundo a lenda é daí que veio o homem, bactéria de um milagre até hoje inexplicado. Não deixem que esses vândalos metam as patas em nossa água, a que corre a olhos nus, como as vemos, e as que não vemos nas veias e no seio de nosso subsolo.

Fazemos mal em deixá-los aprisionarem-nas porque estaremos aprisionando-nos ainda mais ao mal que há tanto nos fizeram e ainda agora fazem. Águas a rolar, não águas a roubar.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).