Águas a rolar.

Águas a rolar (de Sergio Santeiro).

Depois do ouro negro, tungado à natureza, que não sei que benefícios trouxe à humanidade, agora é a vêz do branco. Descobre-se que , assim como o negro que estão a cavucar até no fundo do oceano, embaixo à  nossa terra estendem-se províncias colossais de água doce. Esta que é 70% de nós, de nosso corpo, e a outra a que se espalha a salgada nos ¾ do planeta e para nós, no Brasil, é como tudo de uma fartura imensurável.

Temos o Amazonas, o maior em extensão desde o Peru e em volume d’água pororocando espetacularmente mar adentro. E o São Francisco que corre às avessas e a bacia do Paraguai banhando o nosso oeste, é muita, é muita água, é tanta e ao que se sabe é um bem a cada dia mais escasso mundo afora.

Lá nos desertos onde brota o negro despertando as fúrias dos dinheiros que em nada melhoraram a vida de seus povos e, pior, atraíram exércitos sedentos e cruéis atrás de mais dinheiros e sempre mais dinheiros tirados para engordar fortunas de nababos distantes no além mares.

De que adianta tais riquezas se não as podemos beber, se não as podemos comer e que servem só pra empestiar mares, céus e terras de sua fumaça viscosa que se alimenta do sangue que derrama.

Será que aqui também nosso ouro líquido, transparente, insípido e inodoro vai nos botar no alvo da cupidez universal? Ninguém merece. Não há bem que sempre dure nem há mal que nunca acabe mas porque não nos garantimos antes disso, antes que o apocalipse de lá no Médio Oriente venha a transplantar-se na cobiça de nossas magníficas reservas aqüíferas.

A água é de beber, camará, não é de guerrear. Sabemos que navios entopem seus porões Amazonas acima de nossas ricas águas. A água que tantas vezes invade e inunda nossas casas e plantios porque somos imprudentes de ficar-lhe às margens. Séculos de predação descontrolada cobram seu preço e ainda toleramos que de nós, nosso chão e nossa água assenhorem-se os trêfegos capetalistas invasores.

Por que é que permitimos que os estrangeiros que nos invadem apoderem-se de terras do tamanho de países para destruí-las, sugá-las, em cima e agora também em baixo? Por que? Lá de longe, lá onde quase nada mais resta, ficam as rédeas das corporações que aqui vêm a fantasmar, a assolar e a desalmar nossa hinterlândia.

As águas vão rolar mas que rolem para nós, para mitigar a sede nossa e de nossos cultivos do bem: a mandioca, o milho e o feijão. É pra dar de beber aos rebanhos. É pra viajar nas pirogas. É pra nadar aos sóis.

Antes dos pré-sais tem as águas e segundo a lenda é daí que veio o homem, bactéria de um milagre até hoje inexplicado. Não deixem que esses vândalos metam as patas em nossa água, a que corre a olhos nus, como as vemos, e as que não vemos nas veias e no seio de nosso subsolo.

Fazemos mal em deixá-los aprisionarem-nas porque estaremos aprisionando-nos ainda mais ao mal que há tanto nos fizeram e ainda agora fazem. Águas a rolar, não águas a roubar.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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