Meu voto é vermelho

A 3 de outubro vou votar na minha cor porque eu sou índio e operário da cultura. Foi minha sina atravessar à outra margem do Rio em que nasci, caminho inverso do ancestral que desta de cá atravessava a nado a baía para juntar-se aos que na Glória combatiam os invasores que ao contrário dos piratas que passavam eram os portugueses,  os piratas que ficaram e nos queriam escravizar aos índios não, nós não deixávamos, era a Confederação dos Tamoios, e nos mataram, exterminaram, usando o jogo da guerra tribal como depois fizeram em África de lá trazendo as presas que nas guerras entre as tribos eram prisioneiros e aqui desraizados, desterrados, desencontrados, foram brutalmente escravizados porque estavam divididos, tantas as tribos.

Também sou negro, também sou branco, somos mestiços, o povo brasileiro. Não adianta o demagogo jactar-se: “o povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém”. Pura mentira. Não percam tempo em validar dominações, em pretender discriminar entre quem somos. O tempo passa e ainda somos dominados porque deixamos que nos digam o que fazer. Democracia, o governo do demo, é o império do demônio que a nós não é estranho, também é um ser da natureza, não nos assusta, é o Anhangá, não nos serve de espantalho e não podemos deixar que nos sirva de mortalha.

Dividem-nos em grupos, em tribos, em classes, e assim nos estranhamos, e botam-nos a jogar uns contra os outros, como os temiminós de Araribóia da Ilha, depois de usados, abandonados na Praia Grande, em que depois se ergue Niterói. Entre nós era uma guerra tribal, escaramuças pesadas, mortais, mas homem a homem ainda quando éramos selvagens. Nela não há como se ter partido. Não era como se fêz o que depois vivemos, não era a luta de classes, não era a guerra de dominação escrava, que esconde as raças, no afã de escravizar o trabalho e dele tirar o que ele cria, a que os ladrões, os matadores, sem pejo, chamaram capital.

Pois foi aqui em Niterói, na capital da província fluminense, que em 22 contra a democracia dos exploradores se construiu o partido dos obreiros que veio para fazer a democracia proletária, a de todos, o partido operário, o partido comunista brasileiro. Em tantos anos de luta, 88, desarmados e tantas vezes desarmando-se, infelizmente seja por que for, com ou sem motivos, com ou sem razões, partidos não vingamos, não logramos, não vencemos.

Os milhões de operários divididos são presa fácil das centenas de burgueses que sobre nós fazem de nós como se fôssemos tribos, botam-nos a nos disputar como se fôssemos selvagens, caçam-nos uns contra os outros, como se a democracia fosse a deles, fosse como é o império do demônio, o outro demônio, o deles, não o nosso, não o do trabalho, não o que cria, mas o que expropria, o demônio do inferno que é o capital, o que pra vencer divide a nossa fôrça, exaure o nosso sangue, nos deixa enfraquecidos, nos rouba do trabalho, nos joga ao desemprego, nos separa, nos aparta, nos deixa ao desalento.

Nós, aos milhões, cindidos,  jamais iremos ao paraíso que com nossas mãos construímos e deixamos ao esmo endemoniado dos burgueses. Unido o povo jamais será vencido. E ainda que esta não seja a nossa hora, ainda que os vermelhos não sejam uma só tribo, o meu voto em 3 de outubro,  o meu voto é vermelho. Em Niterói, como a primeira vêz, em busca da união, vote com a gente. Meu voto é 21 no partido comunista brasileiro.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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