Archive for outubro, 2010

Obrigado

sexta-feira, outubro 22nd, 2010

Obrigado (de Sergio Santeiro).

Queria agradecer por ainda estar vivo. Mas a quem se em nada creio. Do pó viemos e para o pó iremos. Vamos nos desfazer em nada. Certamente a  meus pais que nunca me faltaram até mesmo velhos eles e eu.  Mesmo sem entender sempre sustentaram meus delírios e tolices enquanto viveram.

Uma vez dediquei um dos meus filmes: “A meus pais que me deram a vida mais de uma vez”. Meu pai ficou comovido e me disse: Mas filho como é que pode dar a vida mais de uma vez? Já minha mãe que se foi mais cedo que ele foi autora de uma de suas tiradas para mim favorita. Ao me ver desesperado por algum ou nenhum motivo disse-me ela: Meu filho, eu sei que você é muito inteligente mas pra que serve tanta inteligência se você não consegue ficar tranquilo?

Obrigado a mim por ter sobrevivido em episódios difíceis de que a vida se faz. Como por exemplo entrar por engano dirigindo às duas da manhã inebriado numa contramão movimentada e escapar ileso. A rapidez na locomoção põe em risco todos  os locomoventes. Terá sido mero acaso?

Agora estou obrigado a votar de novo. E se nessa segunda votação a maioria mudar de mãos? Isso faz sentido? Ah, mas não é a maioria simples, ela tem que ser total, absoluta, como nada na vida é. Mistérios desta invenção republicana corrigida.

A tal republica, a coisa de todos, proclamada  aqui às escuras, uma quartelada sem vergonha, o velho marechal doente empurrado ao lombo da animária traindo a confiança do imperador que o havia posto à frente do exército nacional: deodoro da fonseca, perna fina e bunda seca como aprendi nos bancos escolares.

A primeira republica foi uma coisa louca: como de costume generais ou marechais estapeando-se pra não largar o almejado osso, o topo da cadeia militar pois assim é o presidente, o comandante em chefe das fôrças da nação ainda que nem seja militar. Dá pra confiar? Não dá.

Desde então, mais ou menos de trinta em trinta anos qualquer mequetrefe bota uns soldadinhos na rua para fazer do palácio e do país quartel. Manda fuzilar e perseguir outros e uns pra mostrar que manda e é o dono do pedaço. Constituições rasgadas e remendadas e malparidas dispensam o sagrado exercício do direito ao voto. Pra que votar?

Mais ou menos trinta anos depois do republicano golpe vem no trem o comandante de um novo golpe. A galope dos pampas um civil mas coroné como se chama os chefetes locais amarra os burros no obelisco às portas do senado federal.

Ainda chamam a quartelada de revolução como se não bastasse profanando até o vernáculo trocando letras. E senta praça longos quinze anos prendendo e arrebentando quem não se lhe sujeita. Autonomeiam-se, são os  pais do povo.

Mais ou menos trinta anos mais tarde depois de uns quinze do que se alcunha de normalidade democrática lá vem de novo a malta de uniforme no rastro do demente que bota a força publica na estrada e açodado não se sabe bem por que o presidente civil sem que se ouça um tiro ele próprio depõe-se antes que a definitiva noite se instale em latino américa.

Sim porque não é só em brasis, tiranias contagiam-se, reforçam-se, alimentam-se, as perseguições em alguma pátria atravessam fronteiras. Podemos ser mortos por balas ou trancafiados por meganhas de terras vizinhas ou remotas. E desta, por enquanto, última vez foram mais de trinta anos de barbárie. Na cabeça generais mas as ditaduras não são só militares. O negócio é a grana.

A burguesia que naquele século não fêz a sua até hoje insufla e financia com o dinheiro roubado ao trabalhador “revoluções” sempre aviltando até a nossa lingua que afinal tampouco é a nossa, é a dos que nos invadiram e nos exploraram, os de fora, que lhe garantam a mantença da roubalheira como ainda hoje se vê.

E na hora da votança como nos obrigam as constituições rasgadas, remendadas e malparidas, rios de dinheiro vão pra lá  e vão pra cá e então é isso. O que se vota e o que se aprova é continuarem os burgueses a nos roubar e a nos mandar. Obrigado. Muito obrigado.

Vísporas

segunda-feira, outubro 18th, 2010

Vísporas (de Sergio Santeiro).

Ao vencedor, as baratas.

No cara a cara com o cara quem vê cara não vê que olhos são.

A traça disse pro livro: – Eu preciso te comer senão eu morro de fome. – Fique à vontade, isto é só uma cópia.

Quanto menos eu rezo menos assombração me aparece.

Era financista, fazia bons negócios e oferecia a carne fresca todos os dias.

Espero que nada seja irreparável porque nada é irreparável.

Fresca ou sovada a carne é fraca.

É melhor partilhar do que não ter.

A arte é como um toque de fantasia na realidade.

A vida é uma barafunda, quanto mais flutua mais afunda.

Feliz era Adão enquanto Eva não avia.

Mal do meu  avô, era tão crédulo. E da minha avó, era tão  cínica.

O tempo a vida não pára.

Melhor sofrer de meus amores do que curtir meus dissabores.

A prosa é livre, a vida nem tanto.

Quando dei por mim tava no chão, tropeço, porrada ou desilusão?

Sabão escorrega mas lava.

Pensei que pensar era bom, não sabia que era tão doído.

Guardar na memória faz bem, será que cabe?

Quem leva e traz, muitas vezes se perde no caminho.

O que abunda não sobeja.

Tô com o tino fraco nem que tivesse dez tinos.

Sereia na moranga é melhor com creme.

Complexo é complicado, afeto é mais sereno.

Olhei em frente, tudo preto, olhei pros lados, tudo cinza, antes é que era claro.

Destemido atravessei a poça.

Sufocos são passageiros, só os afoitos sufocam.

Perdi o bonde e escorreguei no trilho.

Achei que estava salvo até que a ficha caiu e era tarde.

A jogada era boa, tava com a mão cheia, nem assim levei.

Aposto tudo. Se perder,  não foi por falta de vontade.

Manda quem pode, quem não pode se sacode.

Não sou cachorro mas sei lamber minhas feridas.

Só crentes crêem em milagres.

Tudo é esquivo, verdades a perder de vista.

Descuidei da reta, derrapei na curva, só sobrei.

Não era pra ser assim mas foi.

Inconvincente mantenho o que disse.

Lembrar nem sempre faz bem.

O que mais se vê é o que não satisfêz.

Carinho é bom e eu gosto.

A culpa não é do urubu, é da carniça.

Acordar não é concordar, vale o esforço.

A  hora é da  virada, braços e pernas nas cabeças.

O peso não vale mais que o metro que não vale mais que o  peso.

O que era bom não vige.

De dia cada gato tem sua cor.

O chefe da fuzarca não é flor que se cheire.

Arquivei o vivo para esquecer o morto.

Lambe, lambe, lambes fora nada.

De balde não se esvazia a cheia.

Se você não quer, nem eu.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

É feriado.

sexta-feira, outubro 15th, 2010

Feriado é dia de fé ou de farra. Se, ao invés de promovê-los, o Estado parasse com esta besteira de obstruir as 40 horas de trabalho universalmente na sociedade como é o seu papel, abrindo assim não só um espaço de revitalização para os trabalhadores e suas famílias bem como ampliando vagas no mercado de trabalho para abri-lo à massa de nossos jovens para que botem a mão na massa.
E depois reclamam da garotada que não segue os princípios gloriosos da democracia capitalista republicana: roubem e sejam roubados. Eventual e infelizmente às vezes descobrem meios próprios de roubar e acabam nas roubadas. Gente sem ter o que fazer, sem trabalho, vai virando atormentada, quando muito pouco seria o necessário. Não inventaram um tal de salário mínimo? Que por sinal é descumprido como boa parte das possíveis melhores coisas desse tal de sistema econômico, que nem é sistema, é um amontoado de garranchos, muito menos econômico, só o desperdício que promove daria para alimentar toda a humanidade.

Um salário mínimo para todos os desempregados, afinal, é o mínimo. Quem sabe deveríamos cogitar de um salário máximo também. Assim entre os dois atenderia-se à suprema ambição do poder: uma enorme classe média. Pela lógica do sistema, que nem é tão lógica pois seus pressupostos são falsos, o assalariado promove o consumo que gera a produção apropriada pelo capetalista que gera a indução do consumo a seus propósitos pessoais.

Assim são as rodas da fortuna girando falsas falsamente e assim não dá para se esperar bons resultados. E a massa cresce. Graças aos seus, a população felizmente aumenta mas não consegue aumentar sua felicidade. Vivemos espremidos entre a ganância dos poderosos oficialmente dentro ou fora dos poderes. Tem as injunções, os assédios, as propinas em espécie ou em mercadoria, ou apenas simplesmente o brasileiro tapinha nas costas, o aval da facilidade. Em cumbuca fria vagabundo nenhum mete a mão, já na quente…

Aí está o Nobel que não nos deixa mentir: o problema é o desemprego. E, como já se devia ter aprendido, a única solução para os problemas são o próprio problema. Se o problema é o desemprego, a solução é o pleno emprego. Estaríamos todos os desempregados trabalhando para o Estado e assim multiplicando sua capacidade de solucionar outros problemas como a moradia com tantos e tantos espaços desocupados nas cidades e nos campos. Desocupado ou mal ocupado devia ser bem ocupado pelos milhares e espero que não milhões de transeuntes sem ou mal abrigados pela preguiça do pensar social tramitando entre os vetos e os votos.

Vejam como é a incompetência dos governos. Todo mundo vê o bagaço urbano que essa coisa virou. Aí vem um competente técnico argumentar que o saneamento nas favelas é prejudicado porque as choupanas não tem os canos. Ou será que não tem os canos porque não tem saneamento. E deixam, continuam deixando, gente pendurar-se em área de risco enquanto a especulação imobiliária cresce suas paredes de concreto, vedando luz e ar a torto e a direito, em valores abstratos, especulativos, afinal casa é casa, parede é parede, não pode ser tão mais caro, o custo é padrão e uniforme.

Quanto se ganha ou quanto se perde a cada vez que o martelo bate na bigorna, quem ganha e quem perde? Acabemos com os feriados antes que eles acabem conosco. No Japão é que é bão. Para manifestarem-se contra ou a favor basta uma interrupção de uns quinze minutos e por turnos. A máquina não pára e lembrem-se ela foi feita para poupar os humanos não para agravá-los.

É verdade que lá tem mais gente. É. Mas aqui temos muitíssimo mais chão.

*santeiro@vm.uff.br

Vísceras

quarta-feira, outubro 6th, 2010

Vísceras (de Sergio Santeiro).

O mundo é do trabalho, não é do capital que afinal não existe. É uma ficção, uma operação contábil de dinheiros. Dinheiros foram criados para permutar produtos diversos. Nada aí queria dizer que o acumular dinheiros precederia à produção.

Mas aqui no Brasil jogos de azar por causa da madame são proibidos, menos os do governo: os inúmeros das lotecas e os das bolsas de valores e os dos câmbios. Tudo virtual, tudo a favor e a serviço dos conglomerados internacionais que há pouco faliram cíclicamente o sistema e conseguem revigorá-lo a custa de guerras, invasões e ameaças militares e comerciais.

A jogatina é livre desde que a serviço do capital. E o que é isto? Isto é uma ficção, gerada por lucros, taxas e impostos repassados pelos governos à tal da livre iniciativa capitalista concentradora, de poucos para poucos: monopólios, oligopólios, pólios.

Tudo para os governos que são a forma das elites apoderarem-se do estado. Salvamos o dólar porque senão o mundo quebra. Será que quebra mesmo? Ou é só mais uma marola, da permitida. Podia aproveitar e acabar com os estados, ficava só os municípios que arrecadariam e negociariam entre si. Se indispensável, manteria-se a união que, ao que dizem, faz a fôrça. Pois que se repasse  à união o sobejo para cuidar o de todos.

Capital não existe. Existem dinheiros, valores de troca, remunerações de trabalhos. Se é por isto, por que não um salário único? Todos os nossos conterrâneos ganhariam 1/200 milhões de avos do PIB (produto interno bruto), o valor de tudo o que se produz no país sôbre a população.

Quem quiser melhorar de salário que aumente o PIB, porque do jeito que está há quem ganhe de graça o que me custa tão caro ganhar. O que é claro reverteria o padrão de consumo vigente, perdulário, esbanjador e individualista para novas formas de viver social e igualitàriamente.

Automóveis, nem pensar! Cada um só pode ter o que todos tenham. 200 milhões em que chão? Petróleo, pra que? Predação, pra que? Violencia pra que? Se nóis tudo é igual. Como já deveríamos estar fartos de saber a desigualdade é a mãe de todos os vícios sociais que desaguam nas politicas que são, ou deveriam ser, a forma de organizar-se para o bem comum, sabiam?

E se não é para o bem comum, o bem de todos, não pode, simplesmente não pode ser para o exclusivo bem de alguns que apoderando-se dos poderes proibem aos outros o que resguardam para si e seus beneficiários: bancos, empreiteiras, conglomerados. Impedem a todos o acesso ao mínimo: água, terra e comida e impõem ao mundo a devastação de seu industrialismo nocivo e boçal.

Tudo é proibido. Quanto mais proibições, mais transgressões e,  o que é pior, mais repressão. E a repressão afinal é incontrolável. A resistencia, meu caro,é a alma da história, se é que história tem alma.E o que é triste de ver nos milênios da nossa é que o progresso nunca é compartilhado,

evoluem minorias que excluem a maioria, apoderando-se do progresso e prendendo-o no compasso de seus bolsos.

Mas a resistencia, sózinha, heróica, inesperta nunca pode dar certo porque à custa dos dinheiros pode ser fácilmente localizada e extinta. A medida que a resistencia se expande a questão fica cada vez mais grave. Não se pode dar nenhuma chance à repressão, e ela não precisa de chances.

Uma vez montado o aparelho de repressão do estado jamais será desmontado, servirá a variados propósitos, conforme as conjunturas, mas é sempre uma máquina de guerra, agindo até por conta própria na missão de extinguir o opositor.

A história anda como ela anda, não se sabe direito pra qual lado. O que se precisa sempre é poupar a resistencia e impedir o confronto frontal. Ninguem ganha e desperta-se e aviva-se o impulso bestial da repressão. Sob algumas de suas variadas formas.

Mas a história anda.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).