Vísceras

Vísceras (de Sergio Santeiro).

O mundo é do trabalho, não é do capital que afinal não existe. É uma ficção, uma operação contábil de dinheiros. Dinheiros foram criados para permutar produtos diversos. Nada aí queria dizer que o acumular dinheiros precederia à produção.

Mas aqui no Brasil jogos de azar por causa da madame são proibidos, menos os do governo: os inúmeros das lotecas e os das bolsas de valores e os dos câmbios. Tudo virtual, tudo a favor e a serviço dos conglomerados internacionais que há pouco faliram cíclicamente o sistema e conseguem revigorá-lo a custa de guerras, invasões e ameaças militares e comerciais.

A jogatina é livre desde que a serviço do capital. E o que é isto? Isto é uma ficção, gerada por lucros, taxas e impostos repassados pelos governos à tal da livre iniciativa capitalista concentradora, de poucos para poucos: monopólios, oligopólios, pólios.

Tudo para os governos que são a forma das elites apoderarem-se do estado. Salvamos o dólar porque senão o mundo quebra. Será que quebra mesmo? Ou é só mais uma marola, da permitida. Podia aproveitar e acabar com os estados, ficava só os municípios que arrecadariam e negociariam entre si. Se indispensável, manteria-se a união que, ao que dizem, faz a fôrça. Pois que se repasse  à união o sobejo para cuidar o de todos.

Capital não existe. Existem dinheiros, valores de troca, remunerações de trabalhos. Se é por isto, por que não um salário único? Todos os nossos conterrâneos ganhariam 1/200 milhões de avos do PIB (produto interno bruto), o valor de tudo o que se produz no país sôbre a população.

Quem quiser melhorar de salário que aumente o PIB, porque do jeito que está há quem ganhe de graça o que me custa tão caro ganhar. O que é claro reverteria o padrão de consumo vigente, perdulário, esbanjador e individualista para novas formas de viver social e igualitàriamente.

Automóveis, nem pensar! Cada um só pode ter o que todos tenham. 200 milhões em que chão? Petróleo, pra que? Predação, pra que? Violencia pra que? Se nóis tudo é igual. Como já deveríamos estar fartos de saber a desigualdade é a mãe de todos os vícios sociais que desaguam nas politicas que são, ou deveriam ser, a forma de organizar-se para o bem comum, sabiam?

E se não é para o bem comum, o bem de todos, não pode, simplesmente não pode ser para o exclusivo bem de alguns que apoderando-se dos poderes proibem aos outros o que resguardam para si e seus beneficiários: bancos, empreiteiras, conglomerados. Impedem a todos o acesso ao mínimo: água, terra e comida e impõem ao mundo a devastação de seu industrialismo nocivo e boçal.

Tudo é proibido. Quanto mais proibições, mais transgressões e,  o que é pior, mais repressão. E a repressão afinal é incontrolável. A resistencia, meu caro,é a alma da história, se é que história tem alma.E o que é triste de ver nos milênios da nossa é que o progresso nunca é compartilhado,

evoluem minorias que excluem a maioria, apoderando-se do progresso e prendendo-o no compasso de seus bolsos.

Mas a resistencia, sózinha, heróica, inesperta nunca pode dar certo porque à custa dos dinheiros pode ser fácilmente localizada e extinta. A medida que a resistencia se expande a questão fica cada vez mais grave. Não se pode dar nenhuma chance à repressão, e ela não precisa de chances.

Uma vez montado o aparelho de repressão do estado jamais será desmontado, servirá a variados propósitos, conforme as conjunturas, mas é sempre uma máquina de guerra, agindo até por conta própria na missão de extinguir o opositor.

A história anda como ela anda, não se sabe direito pra qual lado. O que se precisa sempre é poupar a resistencia e impedir o confronto frontal. Ninguem ganha e desperta-se e aviva-se o impulso bestial da repressão. Sob algumas de suas variadas formas.

Mas a história anda.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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