Vísporas

Vísporas (de Sergio Santeiro).

Ao vencedor, as baratas.

No cara a cara com o cara quem vê cara não vê que olhos são.

A traça disse pro livro: – Eu preciso te comer senão eu morro de fome. – Fique à vontade, isto é só uma cópia.

Quanto menos eu rezo menos assombração me aparece.

Era financista, fazia bons negócios e oferecia a carne fresca todos os dias.

Espero que nada seja irreparável porque nada é irreparável.

Fresca ou sovada a carne é fraca.

É melhor partilhar do que não ter.

A arte é como um toque de fantasia na realidade.

A vida é uma barafunda, quanto mais flutua mais afunda.

Feliz era Adão enquanto Eva não avia.

Mal do meu  avô, era tão crédulo. E da minha avó, era tão  cínica.

O tempo a vida não pára.

Melhor sofrer de meus amores do que curtir meus dissabores.

A prosa é livre, a vida nem tanto.

Quando dei por mim tava no chão, tropeço, porrada ou desilusão?

Sabão escorrega mas lava.

Pensei que pensar era bom, não sabia que era tão doído.

Guardar na memória faz bem, será que cabe?

Quem leva e traz, muitas vezes se perde no caminho.

O que abunda não sobeja.

Tô com o tino fraco nem que tivesse dez tinos.

Sereia na moranga é melhor com creme.

Complexo é complicado, afeto é mais sereno.

Olhei em frente, tudo preto, olhei pros lados, tudo cinza, antes é que era claro.

Destemido atravessei a poça.

Sufocos são passageiros, só os afoitos sufocam.

Perdi o bonde e escorreguei no trilho.

Achei que estava salvo até que a ficha caiu e era tarde.

A jogada era boa, tava com a mão cheia, nem assim levei.

Aposto tudo. Se perder,  não foi por falta de vontade.

Manda quem pode, quem não pode se sacode.

Não sou cachorro mas sei lamber minhas feridas.

Só crentes crêem em milagres.

Tudo é esquivo, verdades a perder de vista.

Descuidei da reta, derrapei na curva, só sobrei.

Não era pra ser assim mas foi.

Inconvincente mantenho o que disse.

Lembrar nem sempre faz bem.

O que mais se vê é o que não satisfêz.

Carinho é bom e eu gosto.

A culpa não é do urubu, é da carniça.

Acordar não é concordar, vale o esforço.

A  hora é da  virada, braços e pernas nas cabeças.

O peso não vale mais que o metro que não vale mais que o  peso.

O que era bom não vige.

De dia cada gato tem sua cor.

O chefe da fuzarca não é flor que se cheire.

Arquivei o vivo para esquecer o morto.

Lambe, lambe, lambes fora nada.

De balde não se esvazia a cheia.

Se você não quer, nem eu.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

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