Obrigado

Obrigado (de Sergio Santeiro).

Queria agradecer por ainda estar vivo. Mas a quem se em nada creio. Do pó viemos e para o pó iremos. Vamos nos desfazer em nada. Certamente a  meus pais que nunca me faltaram até mesmo velhos eles e eu.  Mesmo sem entender sempre sustentaram meus delírios e tolices enquanto viveram.

Uma vez dediquei um dos meus filmes: “A meus pais que me deram a vida mais de uma vez”. Meu pai ficou comovido e me disse: Mas filho como é que pode dar a vida mais de uma vez? Já minha mãe que se foi mais cedo que ele foi autora de uma de suas tiradas para mim favorita. Ao me ver desesperado por algum ou nenhum motivo disse-me ela: Meu filho, eu sei que você é muito inteligente mas pra que serve tanta inteligência se você não consegue ficar tranquilo?

Obrigado a mim por ter sobrevivido em episódios difíceis de que a vida se faz. Como por exemplo entrar por engano dirigindo às duas da manhã inebriado numa contramão movimentada e escapar ileso. A rapidez na locomoção põe em risco todos  os locomoventes. Terá sido mero acaso?

Agora estou obrigado a votar de novo. E se nessa segunda votação a maioria mudar de mãos? Isso faz sentido? Ah, mas não é a maioria simples, ela tem que ser total, absoluta, como nada na vida é. Mistérios desta invenção republicana corrigida.

A tal republica, a coisa de todos, proclamada  aqui às escuras, uma quartelada sem vergonha, o velho marechal doente empurrado ao lombo da animária traindo a confiança do imperador que o havia posto à frente do exército nacional: deodoro da fonseca, perna fina e bunda seca como aprendi nos bancos escolares.

A primeira republica foi uma coisa louca: como de costume generais ou marechais estapeando-se pra não largar o almejado osso, o topo da cadeia militar pois assim é o presidente, o comandante em chefe das fôrças da nação ainda que nem seja militar. Dá pra confiar? Não dá.

Desde então, mais ou menos de trinta em trinta anos qualquer mequetrefe bota uns soldadinhos na rua para fazer do palácio e do país quartel. Manda fuzilar e perseguir outros e uns pra mostrar que manda e é o dono do pedaço. Constituições rasgadas e remendadas e malparidas dispensam o sagrado exercício do direito ao voto. Pra que votar?

Mais ou menos trinta anos depois do republicano golpe vem no trem o comandante de um novo golpe. A galope dos pampas um civil mas coroné como se chama os chefetes locais amarra os burros no obelisco às portas do senado federal.

Ainda chamam a quartelada de revolução como se não bastasse profanando até o vernáculo trocando letras. E senta praça longos quinze anos prendendo e arrebentando quem não se lhe sujeita. Autonomeiam-se, são os  pais do povo.

Mais ou menos trinta anos mais tarde depois de uns quinze do que se alcunha de normalidade democrática lá vem de novo a malta de uniforme no rastro do demente que bota a força publica na estrada e açodado não se sabe bem por que o presidente civil sem que se ouça um tiro ele próprio depõe-se antes que a definitiva noite se instale em latino américa.

Sim porque não é só em brasis, tiranias contagiam-se, reforçam-se, alimentam-se, as perseguições em alguma pátria atravessam fronteiras. Podemos ser mortos por balas ou trancafiados por meganhas de terras vizinhas ou remotas. E desta, por enquanto, última vez foram mais de trinta anos de barbárie. Na cabeça generais mas as ditaduras não são só militares. O negócio é a grana.

A burguesia que naquele século não fêz a sua até hoje insufla e financia com o dinheiro roubado ao trabalhador “revoluções” sempre aviltando até a nossa lingua que afinal tampouco é a nossa, é a dos que nos invadiram e nos exploraram, os de fora, que lhe garantam a mantença da roubalheira como ainda hoje se vê.

E na hora da votança como nos obrigam as constituições rasgadas, remendadas e malparidas, rios de dinheiro vão pra lá  e vão pra cá e então é isso. O que se vota e o que se aprova é continuarem os burgueses a nos roubar e a nos mandar. Obrigado. Muito obrigado.

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