Archive for novembro, 2010

O bem do mundo

sábado, novembro 20th, 2010

O bem do mundo (de Sergio Santeiro).

Eu sim, eu não! Minha cabeça não é cabeça de pilão! Acredito sim na verdade mesmo que só a encontremos por pouco precisamos comungar com ela. Não é o que fazem os cientistas? Não é o que fazem os poetas? Nós também quem sabe sem nem um dom nem outro podemos roçar-lhe as vestes ou talvez a pele nua.

Faz bem. Dá-nos um enlevo. Descobrir que a galinha precede o ovo! Já pensaram como isso confirma a liberação sexual dos anos sessenta? Ou foi o rescaldo da bomba atômica ou que dizer dos testes subterrâneos? Subterrâneos deve ser pior deve trucidar os nossos irmãos intraterrestres. No ar a coisa vai pelos ares. Os ares são os invólucros da terra assim como nós somos os invólucros de nós mesmos.

Imagine o estrago! Qual nada, o que mais tem no universo são explosões atômicas. Como é que você acha que as galáxias andam? Pois é, mas isto é lá naquele mundão que dizem que é infinito. Infinito, como? Pois é, enquanto isto, neste nosso mundo finito são intermináveis as sequelas das violências publicas e privadas.

Precisa-se abolir a violência. Custe o que custar, menos por óbvio, o emprego de mais violência. O mal com o mal não se cura se abastece. O humano tem que ser intocável não como na Índia para que se lhe faça o mal mas para que se lhe faça só o que consentir. Pode-se?

Tocar demanda o consentimento. Direis! Mas isto é muito subjetivo. De fato mas precisamos educar o subjetivo para que ele não contrarie o objetivo. O bem da fusão carnal se deve à junção do subjetivo com o objetivo de cada um dos dois ou, sei lá, de mais. As explosões carnais não são como as  atômicas, ou são?

Se pudéssemos ver como em um filme as miniminiúsculas pulsões de células, elétricas, ar bom, ar ruim, sangue bom, sangue ruim que vão e vêm em alucinada carreira. Alucinada mas rigorosamente certeira senão o paciente morre.

Como um filme podemos ver e vemos, já se fazem tantos por aí, felizmente. Na realidade o que estamos é contidos na nossa própria escala humana de 1,40 m a 2 ou pouco mais para os adultos. O nosso ponto de vista à altura de nossos olhos é que nos permite ver o mundo. E não precisa e nem se consegue vê-lo todo, o vemos até o entorno de uns 100 metros ou quantos forem.

A dimensão de nossa visão do mundo não é lá essas coisas mas é nesta proximidade que consiste a vida, começando ou acabando de perto, muito de perto. Mesmo quando se morre de longe como com a bomba atômica morremos porque a radiação nos encosta.

Tivéssemos um escudo como tem a alma com o nosso corpo estaríamos refratários à radiação, à contaminação, à morte que vem de fora e ficaríamos apenas com a que vem de dentro, o colapso múltiplo dos órgãos. Sem dúvida, esta é a bela morte.

Não quero viver mais do que ninguém. Queria ser centenário. Menos ainda quero morrer tocado pela bomba. Quando fôr a hora, sambas e lombos é o que quero no meu funeral.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Até amanhã

sábado, novembro 20th, 2010

Até amanhã (de Sergio Santeiro).

É uma sensação entrar, flanar, flertar nos salões da vida ao lado de quem a seu lado estiver quanto mais tempo melhor. Pode até ser quanto mais tempo de conhecidos apenas. Acredito que o que mais vivemos plenamente é um ciclo de gerações e realmente cada um no seu e na sua. Sempre defendi o conceito de geração desde que o aprendi na sociologia americana.

Acho que é a única forma de recortarmos sem perdê-lo o conceito de classe, a grande criação do gênio humano nos estudos sociais. Ler Marx é uma revelação. Opositores pressurosos só sabem dizer besteira a respeito. Os usuários políticos para o bem ou para o mal tampouco não o conhecem ao todo, pescam ali e aqui o que lhes interessa no momento e mandam ver a seu modo e vício.

O projeto, a perspectiva de uma vida igualitária elimina qualquer possibilidade em nenhuma instância de submissão de qualquer um a qualquer outro. A liberdade humana individual é intangível e irrefreável como a água que sempre corre para onde quer, debalde botar-lhe paredes.

Não li tudo, na verdade muito pouco. Não posso ser massivamente inundado por revelações. De preferência uma a cada década. Não combina com os acelerados dias de hoje mas também não sou de agora. Nascido em 44 e socialmente em 64 mantenho a cabeça de lá neste corpo de  cá. Vamos os dois muito bem, envelhecendo sem envilecer. Nem por um segundo fui vil.

Errar é humano, perseverar no erro é ser burro, reza a tradição, as tradições me são muito caras. Não posso, ninguém deve arrepender-se de nada que vivemos, não seria justo, não se tem outra vida, é só uma, só essa. Estamos bem empatados com os desafios da vida.

Perdi ganhei meu dia, diz o poeta. Tá de bom tamanho. Chega o tempo das reminiscências não para reclamar, nem para louvar, apenas para seguir na busca ao imaginário fio da existência, o fio da memória. Ajuda-me demais o fio marxista ele mesmo que, como se sabe,  Marx precisou dizer a todos que não era marxista pois, claro, era ele o próprio, era o criador, não a criatura.

Nunca li e provavelmente nunca lerei seus escritos de economia, conheço minhas limitações. Tive enorme prazer nos estudos históricos e sociais. É uma bem aventurança as palavras irem abrindo os escaninhos de nossas mentes e então podemos ver o mundo com todas as múltiplas cores sendo iguais que o compõem.

Nada é apenas aquilo. Cada aquilo desdobra-se em miríades de aquilos que giram como planetas ou como átomos no sistema local, mundial ou planetário. Assim como as pessoas, as espécies, a vida e a natureza se transformam, uma coisa virando outra, por que seria diferente com as sociedades ou os grupos sociais?

A história se move. Não  como a queremos cada um mas no conluio bélico ou pacífico de todos os habitantes do planeta. Nem tudo é possível, há que contentar-se com o tempo e a hora. Nada acontece de fora pra dentro, a não ser a indesejada das gentes. A que não se deve nomear, sob pena de atraí-la, a morte.

Destaco a simplicidade do 18 Brumário e sua descrição da consciência como surge na realidade. O real é a única instância do universo. Parente da outra peça notável que é a sua correspondência jornalística que narra a guerra de independência americana, aquele aqui e agora em que  a colonia bate a metrópole. Dia a dia como o jornal podemos acompanhar a batalha da guerra econômica, é lindo.

Superada para mim a questão do determinismo graças  a Althusser, antecipado entre nós no Brasil pelo Giannotti. Não encontro o livro, aliás não encontro nada quando quero, papéis e livros espalhados e empilhados aleatòriamente pela casa. Depois achei, nem tudo está perdido: José Arthur Giannotti, “Origens da dialética do trabalho”, DIFEL, São Paulo, 1966. Também de 66 é meu primeiro filme “Paixão”.

A determinação que é real se dá somente em última instância na composição das forças econômicas, históricas e sociais. Lance de gênio: é a sobredeterminação que não é previamente determinada, ela é a resultante. Quando duas pessoas distantes descobrem a mesma coisa é porque é real. E vê-la e ver-nos em movimento é preciso, senão ficamos como paquidermes no pântano, e nós humanos em certas horas ao invés deles nem devemos fazer marola senão nos entram as coisas pela bôca.

O único luxo a que não pode permitir-se a civilização é estagnar-se e no entanto vivemos socialmente como há muito tempo, como há tanto tempo. Aqui e ali nada mudou. Corremos muito, somos muito mais velozes, mas para onde corremos? Para a indesejada das gentes, a que não se deve nomear, sob pena de atraí-la, a morte?

Todo ser humano é em tudo e por tudo igual a qualquer outro ser humano em qualquer parte do mundo. Se isto não é uma premissa teórica indispensável, minha avó é bicicleta. Não deixa de ser; a bicicleta foi e volta a ser um veículo extensivo do corpo humano e dificilmente mata embora se bobear mate.

Não me digam que também o é o carro ou o avião. Fossemos  feitos para voar nasceríamos com asas. Inventá-lo foi a proeza extraordinária de um nativo visionário que morreu de desgosto ao ver sua invenção a serviço da indesejada das gentes, a que não se deve nomear, sob pena de atraí-la, a morte.

Saio da vida para entrar na história: mané! Saímos todos da vida, otário, nós e você que em vida foi um matador cruel e minucioso de vidas. Entraste sim para  a história, para a história do genocídio humano geral e individual a exclusivo critério destas mentes satânicas desviadas do mínimo respeito à convivência e à sociabilidade que são as mais básicas componentes da nossa condição humana.

Ao promovermos a inominável deixamos de ser humanos, de ser  animais. Viramos plantas ou pedras? Não! Nelas enxergo mais vida que nos carrascos, os que se atrevem ao maior pecado que é infligir violência ao semelhante e na vida sobre  a terra somos em tudo assemelhados. Talvez até no sistema planetário, nas galáxias, enquanto houver luz ou até nos buracos negros além dos nossos.

Escrevo a história de uma vida, a que mais e melhor conheço, a minha. Se não traí-me revelo para todos um pé da vida. Se trair-me, bem, também terá sido minha a vida. Descuidei-me, o cabelo cobriu-me a cara, pensei que estava sonhando.

Um estalo com os dedos despertou-me como se tivesse sonhado. Não sonho. Dizem que sim, todo mundo sonha, apenas não lembro que sonhei. E se não lembrar, não sei.  Despeço-me de quem sou? Não, de quem fui, sem deixar de ser o ter sido. Para mim está bom, está muito bom, está ótimo. Até amanhã.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Pérolas

sábado, novembro 20th, 2010

Pérolas ( de Sergio Santeiro)

Meio barro meio tijolo meio ostra meio catarro

Um dia não emenda em outro tem a noite de permeio

Quem dá ganha quem não dá perde

Destratou perde o trato

Se acabar acabou

Se não tem não faz falta

Pássaros  voando nenhum na mão

A minha não é a tua

Pérola tem a boca nacarada é um suspiro

Não basta falar tem que se mostrar

Ei, a mulher é minha! Não mais, disse ela

Um dia, maravilha, no outro, tormenta

Aguentar, quem aguenta?

Ao chutar o balde escancara-se

As palavras não dizem o que querem, dizem o que queremos

De tanto cismar fiquei cismado

Esperar que melhore piora

Apanhou? Apanhei. Bateu? Não bati só apanhei

Eu nunca peguei em você

O melhor é introspectar-se

A maré não tá pra peixe tem salmão na contra-mão

Queria uma gatinha que me faça carinho sem me perguntar nada

Tudo custa e gasta dinheiro

E lá vem ela montada no tortuoso cavalo da vingança

Uma aveludada espada cruza

Do jeito que está eu tenho que partir desesperadamente em busca do equilíbrio

Já comi bastante deixo o resto pro resto da matilha

Não se abafe não se afobe

O que eu pensava não é o que hoje eu penso

Fiel ao amante não ao marido

Se os humanos fôssemos pra ser ricos nasceríamos cada um com seu saco de ouro

A gente faz o castelo pra megera ela nos tranca nele e acha pouco

Tépida intrépida perdi

Vi passar não me viu passou

É melhor ter uma em casa que pegar  na rua

Só sinto falta é do teu corpo à noite, de manhã e à tarde

Ninguém fez mais no mundo por você que eu

Vivo muito bem sozinho principalmente porque sempre sobra um par de pernas entre as minhas

Ser idoso

sábado, novembro 20th, 2010

A última mas não a primeira, nem a segunda, crise teve inicio, a meu ver, quando manifestei há uns 2  ou 3 meses a Ela o meu temor de não conseguir mais manter a casa com as mais 6 pessoas que constituem a familia dela.

Nestes 30 anos sempre me esforcei por acompanhar e suprir material e afetivamente a criação de seus dois filhos então menores, hoje com 32 e 35 anos respectivamente. Atravessamos momentos difíceis na relação com o pai e os dois filhos. Até o segundo filho de seu primeiro casamento foi igualmente acolhido e nutrido por mim quando necessitou ainda jovem.

Ùltimamente tenho com o mesmo empenho acompanhado e garantido a criação dos dois netos mais próximos que acabaram por morar conosco.  Infelizmente a retribuição tem sido terrível além do rastro de sujeira e bagunça que  os adultos promovem pela casa inteira a qualquer hora e de qualquer maneira.

Ao reclamar da cozinha suja que sempre deixam dias a fio sem lavar nem um copo acabo ameaçado pelo caçula hoje enorme com uns 2 metros por 3, marombeiro e vitaminado, e secundado pela irmã tampouco franzina. Fazem côro na bagunça e ameaçam-me fisicamente.

Sou um senhor de quase 66 anos que jamais fui sequer acusado de agressão a quem quer que seja. Fico triste ao ver que se queira agir assim comigo ainda mais na minha própria casa que partilho com a mãe deles.

Não creio que tenham direito a ocupar a casa a minha revelia e do jeito que fazem com a sobrecarga dos serviços e das contas de luz, gás, água, alimentação etc. Nestes últimos três meses inesperadamente não tenho trocado mais que três frases com Ela e finalmente há mais de um mês arrumou malas e não tem aparecido em casa.

Em sua ausência a insistência intempestiva dos enteados em prejudicar o funcionamento da casa motivou forte discussão e novas ameaças. Para minha surpresa Ela retorna e toma o partido dos filhos contra mim recusando-se a discutir o que mais me preocupa que é a impossibilidade de continuar mantendo a casa práticamente sózinho.

Novas discussões e exaltações de parte a parte e parece que chegamos ao fim. Os filhos dela e seus pares continuam aqui atrapalhando tudo, luzes acesas, televisões ligadas, portas e janelas abertas, etc, agravando ainda mais o custo de manutenção da casa que apesar de solicitados mãe e filhos jamais se dispuseram a considerar. Finalmente este mes repassei uma ou outra despesa para o novo companheiro da enteada e parece que assim se sentem ainda mais agressivos e desordeiros.

Imagino que apenas Ela e eu temos direito ao abrigo e suporte da casa, afinal os demais tem pais e parentes vivos a quem solicitar além de nós neste momento de impasse. E como persiste o ambiente de permanente ameaça requeiro alguma providencia acauteladora enquanto  Ela e eu nos separamos sem litígio afinal temos em comum somente a casa.

Apesar de muito apegado à casa  que construí com as minhas próprias mãos concordo em vender a minha parte por um valor compatível com o imóvel e minhas necessidades eliminando-se o vínculo que nos resta.

Enquanto isso é necessário que os agregados se mudem daqui no máximo ao final do ano letivo das crianças que não podem ser prejudicadas. Não há como nem porque protelar a convivência impossível e agora danosa entre nós.

Bom de Papo

sábado, novembro 6th, 2010

Bom de papo.

Nem pensar. Não quer não quer. Ponto final. Te vendo a minha parte e estamos conversados. Não sei não é coisa de amante, é coisa de amador. Esse lero lero já foi letra de bolero. Se a coisa não é a coisa é que estamos perdidos. Caímos na qualquer coisa. E  qualquer coisa não é mole não. E aí vem aquele bode. Essa vontade de chorar. Faz bem. Limpa o espírito. Lava a alma. Refaz-se a calma.

Como dizia meu velho pai: “o problema é  que você pensa muito rápido. Tem que pensar duas vezes”. Mas quem é que segue conselho? A gente segue a trilha aos pinotes. Será que pré-traçada, pré-determinada ou é pós-determinada, entrando-se na trilha que entre inúmeras se escolhe. De vez em quando a trilha vai dar noutra trilha ou numa clareira.

Certa vez sobrevoei de helicóptero a beirada da Floresta Amazônica, no Pará, naquela mineração de ferro, a maior do mundo, Carajás. É extasiante, é impressionante, as árvores ondulam como um oceano. E de repente uma clareira, e aí a gente enxerga vendo o chão o que é o porte da floresta.

Cumes altíssimos como montanhas. E uma quantidade de espantar. E eu só estive ali naquela beirada. Não era a propriamente dita que mereceu uma das grandes maravilhas da música brasileira que é a Floresta Amazônica de Villa-Lobos. Ouvindo-a adivinho-a admiro-a.

“Acorda, vem olhar a lua, que brilha na noite escura”. Quem dera. Ah! Quem dera. Eu já a tive e com a Bidu Sayão.  Talvez por não crer em deus, ele também não me ajuda: meu disco original vinil sumiu. Claro, Villla Lobos foi um gigante e juntando-se Glauber a ele deu no que deu: Deus e o Diabo na Terra do Sol. É bom ou quer em dôbro?

E como não lembrar-me do meu longe e próximo compadre, agora longe, Sergio Wladimir Bernardes, contemporâneos no Colégio São José, na Tijuca, o internato lá em cima na Conde de Bonfim, e seu espantoso e vertiginoso Tamboro, um passeio na floresta até o Roncador, aquele inacreditável monolito de terra e o seu tôpo verde como uma pirâmide. Só acredito porque vi com meus próprios olhos no filme. Talvez não seja o Roncador mas o nome Roncador ronca no meu coração. Diz o povo: – Ronca mesmo em todos nós.

Nostálgico, deve ser o banzo de minhas três raças tristes, mas não melancólico. Bom de corrida ao copo nas mesas de bar ou, para ser mais preciso, na minha mesa de onde contemplo e ouço o infinito à minha frente. O eco vira palavra que vira eco.

Depois de mutuamente atirarem-se o chá e as chicaras de porcelana chinesa resta nada, não se há de  emendar os cacos.  Na minha idade nada é melhor que paz e sossego, valem ouro. Tudo não pode ser senão definitivo. Odeio mudanças. Casar pra mim é não dormir na mesma cama só quase nunca.

Doa mais ou doa menos nada a fazer se não mais se doam. Morremos de indiferença. Fica uma estranheza, a irritação que transforma-se em frieza. Não gosto de frio, não gosto de chuva, não gosto de lágrimas. Gosto do gozo. Num gesto, num  sorriso, numa palavra e nem precisa ser pra mim, basta que exista, a nossa sensibilidade saberá avaliá-lo, é uma sensação.

A tarde já vai tarde, o sol se põe atrás de alguma cortina porque lá ele continua: um lance de dados não abole o sol, êsse trem da vida. A galinha caipira que inventa sua ração e bota ovo vermelhinho, tem a  carne mais gostosa, cozinha melhor, é mais gostosa de comer.

–  Deixa quieto, disse o povo.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Criança.

segunda-feira, novembro 1st, 2010

Criança (de Sergio Santeiro).

“Não verás um país como este” cantou Olavo Bilac nos novecentos, o príncipe dos poetas
brasileiros, com quem sempre impliquei muito, mas é apaixonante como verseja, mestre
da língua que maneja como quem beija.

Certamente a criança quando crescer o país que verá será diferente de quando criança.
Apenas diferente, não necessariamente melhor ou pior. Como a criança o país cresce e
vira o que vira. Pode ser mocinho, pode ser bandido, quem saberá? Crescidos felizmente
vamos sendo substituídos por outras crianças. Já o país …

Tenho para mim que as crianças nascem cada vez mais inteligentes, são curiosas, mas a
educação, a de casa, a da rua e até a da escola acaba fazendo delas esses adultos chatos
e desinteressantes que somos.

Ver a dúvida aparecer nas carinhas, o tênue cenho franze-se e lá vem pergunta: como é que…?
E tem que ter resposta. É um crime deixar uma criança sem resposta, só pior quando a nossa
burrice se esconde no famoso: – Ih! Menino, não chateia, vai brincar lá fora. A criança vai e
no mesmo segundo em que se põe a brincar, deixa de cismar e esquece a grosseria de pai,
mãe, avó ou mais quem seja.

Sem resposta o bichinho toca a pensar e acaba descobrindo depois do muito matutar. E nós
lá sem saber direito o que somos, de repente volta o moleque e: ele mesmo dá a resposta
que lhe negamos. Pode estar certa, pode estar errada, mas tem resposta. Como se sabe
temos que ter resposta para tudo. A ignorância não paira no ar. Esborracha-se ou nem sai
do chão e acaba nos pegando em alguma esquina.

Como inventou Machado de Assis, antes de descobrí-las as idéias viram um X acima de nossas
cabeças: decifra-me ou devoro-te. À esfinge, tradicional perguntadora deste enigma, sugiro
que não lhe devemos resposta. Plantada no chão não há de nos devorar. É só passar batido.

Já a criança que é tradicionalmente perguntadora também não há de nos devorar totalmente.
Metafóricamente há de nos superar ou o mundo teria parado onde começou. E tudo indica que
não parou ou será que parou?

Seja como fôr, pra falar de criança melhor que seja a própria. Pego a que me está mais próxima,
meu neto, de 9 anos, João Cândido, que fez a primeira redação de sua vida assim:

Como é bom ser criança.
Como é bom ser criança! Não precisar procurar emprego, só brincar, estudar e descansar.
Jogar jogos em computador, em videogame ou até desenhar. Ser criança é crescer e brincar.
Fazer jogos e sair brincando para lá e para cá.
Gosto muito de ser criança. Comer sem pagar e não precisar lavar louça. Só brincar. Ser
criança é muito legal. Mas pra ser criança você precisa de uma vida saudável pra se jogar
em piscina e brincar, pra jogar futebol e ir a praia. Isso é que é bom. João Cândido. 20/10/2010.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).