Criança.

Criança (de Sergio Santeiro).

“Não verás um país como este” cantou Olavo Bilac nos novecentos, o príncipe dos poetas
brasileiros, com quem sempre impliquei muito, mas é apaixonante como verseja, mestre
da língua que maneja como quem beija.

Certamente a criança quando crescer o país que verá será diferente de quando criança.
Apenas diferente, não necessariamente melhor ou pior. Como a criança o país cresce e
vira o que vira. Pode ser mocinho, pode ser bandido, quem saberá? Crescidos felizmente
vamos sendo substituídos por outras crianças. Já o país …

Tenho para mim que as crianças nascem cada vez mais inteligentes, são curiosas, mas a
educação, a de casa, a da rua e até a da escola acaba fazendo delas esses adultos chatos
e desinteressantes que somos.

Ver a dúvida aparecer nas carinhas, o tênue cenho franze-se e lá vem pergunta: como é que…?
E tem que ter resposta. É um crime deixar uma criança sem resposta, só pior quando a nossa
burrice se esconde no famoso: – Ih! Menino, não chateia, vai brincar lá fora. A criança vai e
no mesmo segundo em que se põe a brincar, deixa de cismar e esquece a grosseria de pai,
mãe, avó ou mais quem seja.

Sem resposta o bichinho toca a pensar e acaba descobrindo depois do muito matutar. E nós
lá sem saber direito o que somos, de repente volta o moleque e: ele mesmo dá a resposta
que lhe negamos. Pode estar certa, pode estar errada, mas tem resposta. Como se sabe
temos que ter resposta para tudo. A ignorância não paira no ar. Esborracha-se ou nem sai
do chão e acaba nos pegando em alguma esquina.

Como inventou Machado de Assis, antes de descobrí-las as idéias viram um X acima de nossas
cabeças: decifra-me ou devoro-te. À esfinge, tradicional perguntadora deste enigma, sugiro
que não lhe devemos resposta. Plantada no chão não há de nos devorar. É só passar batido.

Já a criança que é tradicionalmente perguntadora também não há de nos devorar totalmente.
Metafóricamente há de nos superar ou o mundo teria parado onde começou. E tudo indica que
não parou ou será que parou?

Seja como fôr, pra falar de criança melhor que seja a própria. Pego a que me está mais próxima,
meu neto, de 9 anos, João Cândido, que fez a primeira redação de sua vida assim:

Como é bom ser criança.
Como é bom ser criança! Não precisar procurar emprego, só brincar, estudar e descansar.
Jogar jogos em computador, em videogame ou até desenhar. Ser criança é crescer e brincar.
Fazer jogos e sair brincando para lá e para cá.
Gosto muito de ser criança. Comer sem pagar e não precisar lavar louça. Só brincar. Ser
criança é muito legal. Mas pra ser criança você precisa de uma vida saudável pra se jogar
em piscina e brincar, pra jogar futebol e ir a praia. Isso é que é bom. João Cândido. 20/10/2010.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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