Até amanhã

Até amanhã (de Sergio Santeiro).

É uma sensação entrar, flanar, flertar nos salões da vida ao lado de quem a seu lado estiver quanto mais tempo melhor. Pode até ser quanto mais tempo de conhecidos apenas. Acredito que o que mais vivemos plenamente é um ciclo de gerações e realmente cada um no seu e na sua. Sempre defendi o conceito de geração desde que o aprendi na sociologia americana.

Acho que é a única forma de recortarmos sem perdê-lo o conceito de classe, a grande criação do gênio humano nos estudos sociais. Ler Marx é uma revelação. Opositores pressurosos só sabem dizer besteira a respeito. Os usuários políticos para o bem ou para o mal tampouco não o conhecem ao todo, pescam ali e aqui o que lhes interessa no momento e mandam ver a seu modo e vício.

O projeto, a perspectiva de uma vida igualitária elimina qualquer possibilidade em nenhuma instância de submissão de qualquer um a qualquer outro. A liberdade humana individual é intangível e irrefreável como a água que sempre corre para onde quer, debalde botar-lhe paredes.

Não li tudo, na verdade muito pouco. Não posso ser massivamente inundado por revelações. De preferência uma a cada década. Não combina com os acelerados dias de hoje mas também não sou de agora. Nascido em 44 e socialmente em 64 mantenho a cabeça de lá neste corpo de  cá. Vamos os dois muito bem, envelhecendo sem envilecer. Nem por um segundo fui vil.

Errar é humano, perseverar no erro é ser burro, reza a tradição, as tradições me são muito caras. Não posso, ninguém deve arrepender-se de nada que vivemos, não seria justo, não se tem outra vida, é só uma, só essa. Estamos bem empatados com os desafios da vida.

Perdi ganhei meu dia, diz o poeta. Tá de bom tamanho. Chega o tempo das reminiscências não para reclamar, nem para louvar, apenas para seguir na busca ao imaginário fio da existência, o fio da memória. Ajuda-me demais o fio marxista ele mesmo que, como se sabe,  Marx precisou dizer a todos que não era marxista pois, claro, era ele o próprio, era o criador, não a criatura.

Nunca li e provavelmente nunca lerei seus escritos de economia, conheço minhas limitações. Tive enorme prazer nos estudos históricos e sociais. É uma bem aventurança as palavras irem abrindo os escaninhos de nossas mentes e então podemos ver o mundo com todas as múltiplas cores sendo iguais que o compõem.

Nada é apenas aquilo. Cada aquilo desdobra-se em miríades de aquilos que giram como planetas ou como átomos no sistema local, mundial ou planetário. Assim como as pessoas, as espécies, a vida e a natureza se transformam, uma coisa virando outra, por que seria diferente com as sociedades ou os grupos sociais?

A história se move. Não  como a queremos cada um mas no conluio bélico ou pacífico de todos os habitantes do planeta. Nem tudo é possível, há que contentar-se com o tempo e a hora. Nada acontece de fora pra dentro, a não ser a indesejada das gentes. A que não se deve nomear, sob pena de atraí-la, a morte.

Destaco a simplicidade do 18 Brumário e sua descrição da consciência como surge na realidade. O real é a única instância do universo. Parente da outra peça notável que é a sua correspondência jornalística que narra a guerra de independência americana, aquele aqui e agora em que  a colonia bate a metrópole. Dia a dia como o jornal podemos acompanhar a batalha da guerra econômica, é lindo.

Superada para mim a questão do determinismo graças  a Althusser, antecipado entre nós no Brasil pelo Giannotti. Não encontro o livro, aliás não encontro nada quando quero, papéis e livros espalhados e empilhados aleatòriamente pela casa. Depois achei, nem tudo está perdido: José Arthur Giannotti, “Origens da dialética do trabalho”, DIFEL, São Paulo, 1966. Também de 66 é meu primeiro filme “Paixão”.

A determinação que é real se dá somente em última instância na composição das forças econômicas, históricas e sociais. Lance de gênio: é a sobredeterminação que não é previamente determinada, ela é a resultante. Quando duas pessoas distantes descobrem a mesma coisa é porque é real. E vê-la e ver-nos em movimento é preciso, senão ficamos como paquidermes no pântano, e nós humanos em certas horas ao invés deles nem devemos fazer marola senão nos entram as coisas pela bôca.

O único luxo a que não pode permitir-se a civilização é estagnar-se e no entanto vivemos socialmente como há muito tempo, como há tanto tempo. Aqui e ali nada mudou. Corremos muito, somos muito mais velozes, mas para onde corremos? Para a indesejada das gentes, a que não se deve nomear, sob pena de atraí-la, a morte?

Todo ser humano é em tudo e por tudo igual a qualquer outro ser humano em qualquer parte do mundo. Se isto não é uma premissa teórica indispensável, minha avó é bicicleta. Não deixa de ser; a bicicleta foi e volta a ser um veículo extensivo do corpo humano e dificilmente mata embora se bobear mate.

Não me digam que também o é o carro ou o avião. Fossemos  feitos para voar nasceríamos com asas. Inventá-lo foi a proeza extraordinária de um nativo visionário que morreu de desgosto ao ver sua invenção a serviço da indesejada das gentes, a que não se deve nomear, sob pena de atraí-la, a morte.

Saio da vida para entrar na história: mané! Saímos todos da vida, otário, nós e você que em vida foi um matador cruel e minucioso de vidas. Entraste sim para  a história, para a história do genocídio humano geral e individual a exclusivo critério destas mentes satânicas desviadas do mínimo respeito à convivência e à sociabilidade que são as mais básicas componentes da nossa condição humana.

Ao promovermos a inominável deixamos de ser humanos, de ser  animais. Viramos plantas ou pedras? Não! Nelas enxergo mais vida que nos carrascos, os que se atrevem ao maior pecado que é infligir violência ao semelhante e na vida sobre  a terra somos em tudo assemelhados. Talvez até no sistema planetário, nas galáxias, enquanto houver luz ou até nos buracos negros além dos nossos.

Escrevo a história de uma vida, a que mais e melhor conheço, a minha. Se não traí-me revelo para todos um pé da vida. Se trair-me, bem, também terá sido minha a vida. Descuidei-me, o cabelo cobriu-me a cara, pensei que estava sonhando.

Um estalo com os dedos despertou-me como se tivesse sonhado. Não sonho. Dizem que sim, todo mundo sonha, apenas não lembro que sonhei. E se não lembrar, não sei.  Despeço-me de quem sou? Não, de quem fui, sem deixar de ser o ter sido. Para mim está bom, está muito bom, está ótimo. Até amanhã.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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