Archive for dezembro, 2010

É do baú

sexta-feira, dezembro 24th, 2010

É do baú (de Sergio Santeiro).

Olha o que eu achei no meu, acho que é de 1976.Ao entrar na faculdade de sociologia em 64 conheci através do Luis Costa Lima, entre outros, o pouco conhecido e grande poeta maranhense Joaquim de Sousa Andrade que poetizou o próprio nome assinando-se Sousândrade. Falecido em 1904 pertenceu à última fase do romantismo e foi um precursor do modernismo que teve em Oswald de Andrade um de seus principais expoentes. Oswald chamava-se por inteiro José Oswald de Sousa Andrade.

Desta curiosa coincidência cunhei o “J. Sousândrade a J. Oswaldândrade” e além dos filmes que a eles dediquei: “O Guesa” e “Klaxon” respectivamente, e que podem ser vistos em www.youtube.com/sergiosanteiro, montei êsse quebra-cabeça para o deleite de vocês, amigos leitores. Boa viagem.

BOLETIM MARCO ZERO
o bis-coitinho de Ma-dame
de J. Souzândrade a J. Oswaldândrade
cum -venia

Como na escola. As crianças trazem para casa o que os mestres-sala julgam de seu aproveitamento nas aulas. Português 4. Inglês 8. Matemática 6. Ciências 6. Conhecimentos 4. Moral e Cívica 3. Comportamento 3. O boletim dá o marco, é o conceito-sociedade de seu desempenho-evolução. A régua é a palmatória.

Metamo-nos na escola-sacola. Todo o feito gutural passa pelo imprima-se diapasão de um concenso dito social que outra coisa não é que a lucro-lógica de um  sistema funil reverso maximizando apropriação faz o consumo dirigido-em-bloco padrão gerente de avaliação: consagra o jus-júri. A estética-estática instrumento melhor manutenção  controle em crescimento assume semi-novas máscaras corpos velhos. Invertido: a criação é conferida pelo consumo.

Remetamo-nos à escola. O boletim afere as atitudes do aprendizado por um critério que oposto é a negação do seu – armado pelos que não aprendem. O marco é zero. Como o nosso. Regulam a produção gutural pelo eco onde querem ouvir. Depois de alguns anos de harmonia duvidosa em que mesmo opondo-se não estava em causa o marco de avaliação nós reincidimos e os mestres-sala mudam o tom. De 5 (aval de tolerância) para 0.

Meta-metamo-nos na escola. Virar a escala. Tomar a si o que é seu. Nós faz nós traz nós leva. O zero é nosso.
Distintivo de classe. Avaliar nós mesmos. Na beirada da consciência. Extremo limite define o ser. Serve como passe. Permite distinguir.

A mil passos repleto o estoque material de ensino-realidade. O saque é livre. Sem posse. Nada é novo. Traduzir-trair em todos dialetos. No caminho do conhecimento.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

Minha altivez

sexta-feira, dezembro 24th, 2010

Minha altivez (de Sergio Santeiro).

Vi a cena. A mulher envôlta em meninas, moças e mulheres, filhas e netas, todas suas, era a de porte mais altivo, parecia uma rainha africana. Conheço bem as ilustrações dos africanos criminosamente trazidos e mantidos no Brasil: Debret, Rugendas e tantos outros.A sua feição me parece bem identificada com um ou outro destes grupos étnicos ou tribos lá onde é, não esqueçamos, o berço da humanidade: Mama Africa.

Nela revejo o que tanto estudei na minha invejável formação acadêmica especialmente como nativista. Certa vez expliquei-me numa enquete da revista Módulo em 78, acho. O que vem a ser o nativismo? Repúdio aos nacionalismos, essa herança maldita da burguesia mercantil ao formar os países agregando povos e reinados distintos para se lançarem como os romanos ao domínio sobre o mundo.

Nacional e  nação são palavras sem noção. Desnocionalizadas. Serviram apenas e ainda servem para as invasões de povos, povos contra povos, nações contra nações. Nada disso: o nativismo é que garante o direito à vida de quem ali nasce. No cultivo de seus valores e sua cultura os que compartilham o chão têm o direito soberano de assegurar-se e  aos seus a vida.

O resto são invasores. Não têm direito à nada, nem a pão e nem a água. No seu entorno devia  abrirem-se crateras que os lançassem ao fundo do mar ou da terra. Salvo o turismo, claro. O turismo inocente, claro, se é que existe. É para apreciar as nossas belezas naturais e culturais, está bem.

Mas não encosta, não bota a mão, não esconde na algibeira. Olhou, viu, gostou mas não leva. Não é para levar, nem para ficar. Muito menos ficar. Ficar só os naturais da terra. Voltem para de onde vieram. Lá vocês também são nativos. Têm os mesmos direitos lá que nós cá. Cada um no seu cada um.

Afinal o que acontece na cabeça das pessoas deste meu país frente à invasão dessa enxurrada de palavras que ninguém entende e ainda assim repetem. Certa vêz em plena avenida Rio Branco, a central, no Rio de Janeiro, vi passar uma morena jeitosa apertada numa camiseta em grandes letras: FUCK ME.

Não me parecia uma profissional. Deve ter pegado a camiseta e pronto. Nem ela e felizmente nem o distinto publico apressado se davam conta do fabuloso convite. Sente o drama. Não vou enumerar exemplos, são inumeráveis.

Todo mundo identifica um monte como a loja de conveniência que na verdade traduzida é loja de utilidades. Neguinho aportuguesa o vírus e olha que conveniência em português é outra coisa. Bola pra frente. É assim que se joga.

Vejo-me nos poucos traços africanos que me sobraram. Digo que sou metade branco, metade índio e metade negro. E a minha altivez é que ninguém nasce e não pode ser escravizado por ninguém. Quem sabe um dia nós os dominados da terra também faremos turismo nas galáxias.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Anseios

quinta-feira, dezembro 16th, 2010

Anseios (de Sergio Santeiro).

Prefiro os dois e os de trás

Adoro a vulgaridade é sincera

Não fôsse um queria duas

Te vira e não chateia

Melhor eu que qualquer um

Voce parece prometer as maiores loucuras

Eu acredito

As mais novas deviam ser desencaminhadas pelos mais velhos

As meninas passam e não param

Liguei ela não estava

O país é uma loucura, todo mundo vestido como no mundo velho

Não faz, é danoso

No frigir dos ovos os ovos não frigiram

Há coisas sublimes  e outras nem tanto

Por amor morreria mas prefiro viver

Difícil não é escrever é ser lido

A mulher é móvel daí que a família é mobília

Nada é mais divertido

Cada um a seu modo

A sabedoria é a popular

Você não é mais o amor da minha vida

Barato é melhor que caro

O pensamento pensou que pensava

Amor só é bom quando quer

Que feio! Sair batendo a porta

A mão bôba não tem no que pegar

O inimigo é uma cocacola com polvilho

Agora não é hora disso é hora da novela

Mulheres são como escudos

Não me peça para pedir

Ofereça-se

Não sei não te conheço

Eu quero só um pouco

Fumando dois cigarros ao mesmo tempo

Os parvos que me perdoem mas parvoíce não leva a lugar algum

Eu não! Sou só uma sombra passageira

“É um mal não frequentar o bem” (Chacal).

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

Alto lá!

quarta-feira, dezembro 15th, 2010

É preciso parar com essa baixa política do denuncismo e assédio aos governantes. São governantes, bolas! Tem que decidir os destinos das comunidades que os elegeram. Elegeram, bolas! Foram eleitos, não se promoveram com tapinhas nas costas. Foram à luta.

Não sou partidário,  sou comunista mas é um absurdo a carga que andam despejando nas costas de um politico reto, honesto, seis anos à frente da Prefeitura da Cidade. Como é que se pode querer que o dirigente faça? Acompanhar cada processo, listas tríplices de custos, orçamentos escassos, etc.etc? Vêr a competencia contábil dos cálculos e as folhas de serviços dos servidores?

E faz mais o que então? Dá pra tomar um cafezinho ou tá dificil? Godofredo fez uma gestão no mínimo digna evidentemente na medida dos escassos recursos publicos municipais – tudo à União! Ah! Mas com a água suja do pré-sal vai mudar!

Mudar pra quem? Uma, uma só, bosta de plataforma de futucar o mar vale a moradia e comida de tôda a população desabrigada no estado. O problema é que o município onde vivem e trabalham as pessoas e pagam os tributos e taxas federais, estaduais, municipais e na hora de repartir o esbulho vai pro fim da fila. Primeiro os tubarões federais, depois os estaduais e no final a merreca dos municípios, os poucos bafejados pelo lixo negro ganham merenda reforçada.

Notável liderança de sua categoria, tambem a minha, um educador, Godofredo Pinto não merece, ninguem merece, esse tratamento desrespeitoso. Falhas pode ter havido, ninguem é perfeito, nem o prefeito mas realmente empurrar aos tribunais meros desajustes banais de contas entre milhões e milhões de iniciativas executivas que é o que compete as dirigentes.

Mais respeito com os nossos eleitos. Tirem estas espadas em cima das nossas cabeças. Só quem passou a maior parte de sua vida sem eleições sabe o aprêço que temos que dedicar às gestões democráticas sejam elas as melhores ou as possíveis.

O que vale tambem na federal. É uma vergonha as tentativas de tirar da cena um dos três grandes líderes estudantis de 68. Só quem não os viu conclamar à resistencia democrática legítima, pacífica e ordeira em nossas passeatas na Maria Antonia, na Cinelândia e pelo país afora pode pensar em envolvê-lo em uma negociatinha de esquina mais vagabunda que a marolinha.

A vitoriosa defesa da economia brasileira frente a invasão do desastre americano é uma das grandes vitórias do governo Lula, a melhor gestão publica na história do país, que agora honrosa e honradamente se despede.

Se estamos legitimamente a comemorar a tomada do Alemão como se fôsse Montecastelo e se fica sabendo que a pacificação do Rio custaria apenas 1% de seus recursos é de perguntar-se por que não tudo?

E se é pra que se respeite nossos eleitos legítimos não custa lembrar que as  verdadeiras UPPs e, que saudades, foram os Cieps, essa extraordinária reinvenção do ensino e do verdadeiro resgate social. Mais Cieps e não se precisaria de mais ou menos UPPs.

O maior pecado político de quem hoje ganha 83% de inédita aprovação, nunca antes na história deste pais e cuíca do mundo, foi desbancar a vitória de Brizola na presidencia do país, adiada desde 64. Seria o Brasil do B, notável experiência para o mundo, o Brasil do Brizola, ensaiado na sua magistral administração municipal de Porto Alegre re-reeditada no governo do Rio.

Perdeu o Brasil, perdemos nós, e enquanto não se parar com esse perseguismo publico ainda muito mais teremos a perder. É hora de trabalhar junto pra frente, há muita coisa a fazer antes que se garanta o mínimo de 4 refeições diárias e um teto para si e todos os seus para todo e qualquer brasileiro nos seus municípios de moradia e trabalho.

A partir  daí, o mundo é o limite. Antes disso, nem vem que não tem, estarão apenas arranhando a nossa história.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Sumiu

terça-feira, dezembro 7th, 2010

Sumiu (de Sergio Santeiro)

A mulher sumiu. Resolvi limpar a escada. Tinha que fazer alguma coisa. Estava um horror. Cheia de mato, cobras e lagartos. Não é a de dentro. É a de fora. A que leva da rua ao lar, quer dizer, à casa. O lar sumiu.

Uma lindíssima escada de pedra, minha paixão, razão de compra do terreno. Feita pelos escravos da fazenda para subir o morro. Meus antanhos, eis o que sou. Ainda bem que compramos. Era o dinheiro da herança da minha mãe, foi em 90. Um mês depois, vocês sabem, confisco geral. Teríamos dançado. Vinte anos depois quem dançou fui eu.

Fugiu com o leiteiro, o açougueiro ou o padeiro? Preciso saber pra cortar um dos três itens na minha alimentação. Peguei o facão, meio cego, uma vassoura velha, daquelas sintéticas, será que é das que são feitas de negativo de filme? Espero que não dos meus. E a enxada? Parecia um lavrador. Lavra a dor, pode não ser uma rima mas é uma boa solução. Sol na cuca, será que fritará?

E aí começa. O começo é fácil. Tanta coisa pra limpar. Sou bom de trampo. Fui ajudante do pedreiro na tarefa de fazer a casa. Não basta a grana, pouca, tem que participar. Foram três anos. Sou bom de tarefa. Dize-me o que fazer e meto mãos a obra. Claro, tem o que não sei fazer. Imagine juntar tijolo com tijolo no prumo. Acho que é das coisas mais difíceis no planeta. Botar em prumo.

Limpar é mais fácil. Jogar fora tudo que há a espera do que não há. É fácil mas dói. Lavra mas dói. Junto com a sujeira sempre vai um monte de lembranças, teu nome é saudade. Mas querias o que? Ia deixar a minha escada empestiada de mato, cobras e lagartos?

Nonada, diria o Rosa: muito sofre quem matuta. Melhor é enxadar, varrer e cortar. E o que fazer com o entulho? Deixa ele lá, amontoa pro lado que é tudo natural. A natureza é mais muderna que nós tudo, naturalmente recicla. O sobejo vira adubo, o adubo faz crescer.

Em mim o que fêz crescer foi a dor nas costas, os talhos na mão e nas pernas. O mato tem espinhos. Se o facão pegar de mau jeito o galho bate na tua cara. Cara que mamãe beijou galho vagabundo nenhum mete a mão. De uma coisa tenho certeza: galho que não o meu só pode ser vagabundo.

Tava ali o tempo todo à espreita. Só porque lhe dei com a enxada resolveu se amostrar. Lanho por lanho não me aborreço, lavando passa. Dou uma corrida no mar, logo ali, e o sal me cura. Nada que um bom banho não resolva. Lanhado, enlameado porque ademais choveu. A escada é de pedra mas suja de terra. A terra se molhar vira barro. Tem que manter o prumo pra não escorregar. E mais ainda, tem que tomar cuidado ao recuar na escada. Periga rolar escada abaixo. Já imaginou rolar escada de pedra abaixo o estrago que não faz? E estrago por estrago já tou bem servido. Não carece mais.

Faz tempo que não limpava a escada. Faz tempo que a mulher não sumia. Não esquenta, ela volta. Quem esquenta é esse sol pai d´égua na moleira, será que fritará? Sumia mas voltava. Será que voltará? Se não voltar, também não limpo mais a escada. Deixa ficar empestiada de mato, cobras e lagartos. Que mal faz? É tudo natural, tudo recicla.

Ficará encoberta. E aí, nem a verei mais, minha escada, minha paixão. Vocês acham que não sei o que fazer?

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Pessoa

sábado, dezembro 4th, 2010

Pessoa (de Sergio Santeiro).

A pessoa não é o que você pensa que ela é assim como você não é o que ela pensa que você é. Escorrega feito quiabo. Buscar-se no outro e ser buscado por ele é o que a vida sugere. Certezas são difíceis, melhor é a viagem, seu sabor, sua aragem. Nem certo nem errado apenas incerto.

Buscar-se. Buscarmo-nos. Embora haja tanto desencontro pela vida ninguém há de desistir de encontrar-se no outro e em si, é o próximo que nos está próximo. Desencantos não matam os encantos.

Essa me parece é a equação que se vive a menos que não se queira viver. A menos que nos escondamos dos outros e de nós mesmos. Qual a vantagem? Difícil. Dias de sim, dias de não, dias de talvez. Saber qual e que vantagem não adianta muita coisa. Fa-tal: “Não se assuste pessoa se eu lhe disser que a vida é boa” (voz e guitarra – ela e ele – emoções viajando na platéia – estrelas que brilham).

Desguarnecer-se. Deixar rolar. Deixar fluir. E veremos no que se dá. Se acaso lhe aborreço, apague. Acho que assim é melhor para encarar o dia chuvoso, o dia adverso, o dia sem vantagem. Ainda ontem vi da geral a cena montada do espetáculo dos meninos, o “musical mente plural “na Praia Vermelha, aqui em Niterói. Linda. Choveu. Atrapalhou? Mas não se apaga na memória da minha retina tão fatigada.

Alguém conhece melhor resultado para a vida do que usufruí-la sem pena ou pensamento? Não se indulja, pense após. Que fazer trancado em si mesmo sem saber onde e por que se vive? Chega-se a algum lugar? A lugar nenhum? Espelhos não nos dizem nada além do que vemos.

Como saber o que a cada dia somos? O mesmo ser no mesmo dia? E isso não acaba? Isso não vira outro isso? Seremos sempre o mesmo isso? É pouco. Podíamos ser sempre mais um outro isso. Não um isso totalmente outro, não sei se isso é possível. Mas pelo menos um isso em busca de outro isso para si e para os outros. Devir devíamos.

Já se disse que o inferno é o outro. Acho que o inferno é o mesmo isso. O que não sabe mover-se pelo mundo. O que não sabe sair de si para passear alhures. A vida é um passeio. Parado não se vai a lugar nenhum. E lugar nenhum não existe.

Docemente, humildemente, estamos condenados ao lugar em que estivermos, o lugar que buscarmos no encontro com alguém ou alguéns que não sejam nós mesmos. E que não serão o que quisermos, o que pensamos que sejam. Nem nós nem eles são o que pensamos que somos. Deixa a descoberta do outro e de nós mesmos nos ganhar.

Como já se disse nada temos a perder senão o que já perdemos. E se já perdemos melhor é cuidar que não nos percamos mais. A vida deve ser uma aventura errante sem medo de errar.
A cada dia quero viver mais que o dia anterior senão o mundo pára. O mundo não pára. Quem pára é quem se deixar ficar parado.

Tanto dizer para dizer o que se precisar dizer. No que depender de mim, tô  vivo. Aliás, eu sou vida, eu não sou morte.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).