Pessoa

Pessoa (de Sergio Santeiro).

A pessoa não é o que você pensa que ela é assim como você não é o que ela pensa que você é. Escorrega feito quiabo. Buscar-se no outro e ser buscado por ele é o que a vida sugere. Certezas são difíceis, melhor é a viagem, seu sabor, sua aragem. Nem certo nem errado apenas incerto.

Buscar-se. Buscarmo-nos. Embora haja tanto desencontro pela vida ninguém há de desistir de encontrar-se no outro e em si, é o próximo que nos está próximo. Desencantos não matam os encantos.

Essa me parece é a equação que se vive a menos que não se queira viver. A menos que nos escondamos dos outros e de nós mesmos. Qual a vantagem? Difícil. Dias de sim, dias de não, dias de talvez. Saber qual e que vantagem não adianta muita coisa. Fa-tal: “Não se assuste pessoa se eu lhe disser que a vida é boa” (voz e guitarra – ela e ele – emoções viajando na platéia – estrelas que brilham).

Desguarnecer-se. Deixar rolar. Deixar fluir. E veremos no que se dá. Se acaso lhe aborreço, apague. Acho que assim é melhor para encarar o dia chuvoso, o dia adverso, o dia sem vantagem. Ainda ontem vi da geral a cena montada do espetáculo dos meninos, o “musical mente plural “na Praia Vermelha, aqui em Niterói. Linda. Choveu. Atrapalhou? Mas não se apaga na memória da minha retina tão fatigada.

Alguém conhece melhor resultado para a vida do que usufruí-la sem pena ou pensamento? Não se indulja, pense após. Que fazer trancado em si mesmo sem saber onde e por que se vive? Chega-se a algum lugar? A lugar nenhum? Espelhos não nos dizem nada além do que vemos.

Como saber o que a cada dia somos? O mesmo ser no mesmo dia? E isso não acaba? Isso não vira outro isso? Seremos sempre o mesmo isso? É pouco. Podíamos ser sempre mais um outro isso. Não um isso totalmente outro, não sei se isso é possível. Mas pelo menos um isso em busca de outro isso para si e para os outros. Devir devíamos.

Já se disse que o inferno é o outro. Acho que o inferno é o mesmo isso. O que não sabe mover-se pelo mundo. O que não sabe sair de si para passear alhures. A vida é um passeio. Parado não se vai a lugar nenhum. E lugar nenhum não existe.

Docemente, humildemente, estamos condenados ao lugar em que estivermos, o lugar que buscarmos no encontro com alguém ou alguéns que não sejam nós mesmos. E que não serão o que quisermos, o que pensamos que sejam. Nem nós nem eles são o que pensamos que somos. Deixa a descoberta do outro e de nós mesmos nos ganhar.

Como já se disse nada temos a perder senão o que já perdemos. E se já perdemos melhor é cuidar que não nos percamos mais. A vida deve ser uma aventura errante sem medo de errar.
A cada dia quero viver mais que o dia anterior senão o mundo pára. O mundo não pára. Quem pára é quem se deixar ficar parado.

Tanto dizer para dizer o que se precisar dizer. No que depender de mim, tô  vivo. Aliás, eu sou vida, eu não sou morte.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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