Sumiu

Sumiu (de Sergio Santeiro)

A mulher sumiu. Resolvi limpar a escada. Tinha que fazer alguma coisa. Estava um horror. Cheia de mato, cobras e lagartos. Não é a de dentro. É a de fora. A que leva da rua ao lar, quer dizer, à casa. O lar sumiu.

Uma lindíssima escada de pedra, minha paixão, razão de compra do terreno. Feita pelos escravos da fazenda para subir o morro. Meus antanhos, eis o que sou. Ainda bem que compramos. Era o dinheiro da herança da minha mãe, foi em 90. Um mês depois, vocês sabem, confisco geral. Teríamos dançado. Vinte anos depois quem dançou fui eu.

Fugiu com o leiteiro, o açougueiro ou o padeiro? Preciso saber pra cortar um dos três itens na minha alimentação. Peguei o facão, meio cego, uma vassoura velha, daquelas sintéticas, será que é das que são feitas de negativo de filme? Espero que não dos meus. E a enxada? Parecia um lavrador. Lavra a dor, pode não ser uma rima mas é uma boa solução. Sol na cuca, será que fritará?

E aí começa. O começo é fácil. Tanta coisa pra limpar. Sou bom de trampo. Fui ajudante do pedreiro na tarefa de fazer a casa. Não basta a grana, pouca, tem que participar. Foram três anos. Sou bom de tarefa. Dize-me o que fazer e meto mãos a obra. Claro, tem o que não sei fazer. Imagine juntar tijolo com tijolo no prumo. Acho que é das coisas mais difíceis no planeta. Botar em prumo.

Limpar é mais fácil. Jogar fora tudo que há a espera do que não há. É fácil mas dói. Lavra mas dói. Junto com a sujeira sempre vai um monte de lembranças, teu nome é saudade. Mas querias o que? Ia deixar a minha escada empestiada de mato, cobras e lagartos?

Nonada, diria o Rosa: muito sofre quem matuta. Melhor é enxadar, varrer e cortar. E o que fazer com o entulho? Deixa ele lá, amontoa pro lado que é tudo natural. A natureza é mais muderna que nós tudo, naturalmente recicla. O sobejo vira adubo, o adubo faz crescer.

Em mim o que fêz crescer foi a dor nas costas, os talhos na mão e nas pernas. O mato tem espinhos. Se o facão pegar de mau jeito o galho bate na tua cara. Cara que mamãe beijou galho vagabundo nenhum mete a mão. De uma coisa tenho certeza: galho que não o meu só pode ser vagabundo.

Tava ali o tempo todo à espreita. Só porque lhe dei com a enxada resolveu se amostrar. Lanho por lanho não me aborreço, lavando passa. Dou uma corrida no mar, logo ali, e o sal me cura. Nada que um bom banho não resolva. Lanhado, enlameado porque ademais choveu. A escada é de pedra mas suja de terra. A terra se molhar vira barro. Tem que manter o prumo pra não escorregar. E mais ainda, tem que tomar cuidado ao recuar na escada. Periga rolar escada abaixo. Já imaginou rolar escada de pedra abaixo o estrago que não faz? E estrago por estrago já tou bem servido. Não carece mais.

Faz tempo que não limpava a escada. Faz tempo que a mulher não sumia. Não esquenta, ela volta. Quem esquenta é esse sol pai d´égua na moleira, será que fritará? Sumia mas voltava. Será que voltará? Se não voltar, também não limpo mais a escada. Deixa ficar empestiada de mato, cobras e lagartos. Que mal faz? É tudo natural, tudo recicla.

Ficará encoberta. E aí, nem a verei mais, minha escada, minha paixão. Vocês acham que não sei o que fazer?

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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