Minha altivez

Minha altivez (de Sergio Santeiro).

Vi a cena. A mulher envôlta em meninas, moças e mulheres, filhas e netas, todas suas, era a de porte mais altivo, parecia uma rainha africana. Conheço bem as ilustrações dos africanos criminosamente trazidos e mantidos no Brasil: Debret, Rugendas e tantos outros.A sua feição me parece bem identificada com um ou outro destes grupos étnicos ou tribos lá onde é, não esqueçamos, o berço da humanidade: Mama Africa.

Nela revejo o que tanto estudei na minha invejável formação acadêmica especialmente como nativista. Certa vez expliquei-me numa enquete da revista Módulo em 78, acho. O que vem a ser o nativismo? Repúdio aos nacionalismos, essa herança maldita da burguesia mercantil ao formar os países agregando povos e reinados distintos para se lançarem como os romanos ao domínio sobre o mundo.

Nacional e  nação são palavras sem noção. Desnocionalizadas. Serviram apenas e ainda servem para as invasões de povos, povos contra povos, nações contra nações. Nada disso: o nativismo é que garante o direito à vida de quem ali nasce. No cultivo de seus valores e sua cultura os que compartilham o chão têm o direito soberano de assegurar-se e  aos seus a vida.

O resto são invasores. Não têm direito à nada, nem a pão e nem a água. No seu entorno devia  abrirem-se crateras que os lançassem ao fundo do mar ou da terra. Salvo o turismo, claro. O turismo inocente, claro, se é que existe. É para apreciar as nossas belezas naturais e culturais, está bem.

Mas não encosta, não bota a mão, não esconde na algibeira. Olhou, viu, gostou mas não leva. Não é para levar, nem para ficar. Muito menos ficar. Ficar só os naturais da terra. Voltem para de onde vieram. Lá vocês também são nativos. Têm os mesmos direitos lá que nós cá. Cada um no seu cada um.

Afinal o que acontece na cabeça das pessoas deste meu país frente à invasão dessa enxurrada de palavras que ninguém entende e ainda assim repetem. Certa vêz em plena avenida Rio Branco, a central, no Rio de Janeiro, vi passar uma morena jeitosa apertada numa camiseta em grandes letras: FUCK ME.

Não me parecia uma profissional. Deve ter pegado a camiseta e pronto. Nem ela e felizmente nem o distinto publico apressado se davam conta do fabuloso convite. Sente o drama. Não vou enumerar exemplos, são inumeráveis.

Todo mundo identifica um monte como a loja de conveniência que na verdade traduzida é loja de utilidades. Neguinho aportuguesa o vírus e olha que conveniência em português é outra coisa. Bola pra frente. É assim que se joga.

Vejo-me nos poucos traços africanos que me sobraram. Digo que sou metade branco, metade índio e metade negro. E a minha altivez é que ninguém nasce e não pode ser escravizado por ninguém. Quem sabe um dia nós os dominados da terra também faremos turismo nas galáxias.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

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