Archive for fevereiro, 2011

Menti

segunda-feira, fevereiro 28th, 2011

Menti (de Sergio Santeiro).

Aquele não foi o meu último domingo em Charitas. Empurrei mais pra frente, a minha viagem era só na segunda. Dei um jeito de esticar mais um pouco e no domingo seguinte voltei à cata da minha cerveja. Logo de cara junto com a primeira fui enquadrado: O meu esposo …  Foi  o sinal. Eu sabia que ela sabia que eu sabia.

Estava dado o limite, não se confunda a simpatia. Nem precisava, estava conformado, é pecado. Não sei quem foi o gênio que inventou os dez mandamentos mas tiro-lhe o meu chapéu. Assim é melhor, descarta-se qualquer falsidade. O desejo nos movimenta o pecado nos paralisa. Nem sempre.

Nada impedia que de resto pudesse curtir o cenário que aliás é pra que a praia serve. Ver o horizonte, todo o contorno da costa rendilhada, barcos e barcas, velas e velas. No entra e sai das águas, aqui não tem ondas, tanta coisa boa pra se ver e sentir.

A segunda eu fui pegar na barraca. Estava lá também a mãe da menina as duas filhas dela, suas netas. Três gerações do mesmo corpo: a dos 50, a dos 30, e as duas de 16.  As meninas são demais. Apesar da vontade nem pensar. Pois é,  é mais pecado. Talvez se eu voltar daqui a dois anos.

A avó era boa de conversar, sempre referindo-se às meninas e ao marido, o único homem de sua vida, já falecido, é viúva. É  curioso, é uma cabocla mais leve que as meninas, mas é cabocla rija e jeitosa também. E eu não vi a uva? Dizia-me ela: O senhor mora aqui, não é? Eu  moro logo ali subindo o morro.

Ai, que vontade de subir o morro! E também que gostava de andar no calçadão. Ai, o calçadão! Mudei o foco do meu  interesse, afinal  são todas mais novas que eu, devem-me atenção. E eu gosto de ouvir histórias assim descompromissadas por quem tem histórias pra contar e sabe como contar.

Uma coisa puxa a outra sem causalidade aparente, o que manda é o fio da conversa. Prefiro ouvir. Tenho uma tendência à exaltação que é péssimo negócio. Assusta. Espanta a presa. Às vezes atrai e aí quem se assusta sou eu.

Na terceira cerveja além dos que ali desfilavam via desfilar outros momentos, outras praias, outros tempos. Sou praieiro, sempre fui rato de praia, de livraria e de cinemateca, vivi na praia boa parte da minha vida.

Mas não sou de conquistas na praia, o meu melhor ponto é o bar que muitas vezes confirma o entreolhar no mar, e tem as gaivotas, um monte de criança correndo, os pregoeiros, é muita confusão, as oportunidades escapam não sei  se por acaso ou de propósito. O bar é melhor, não tem pra onde correr, e desfilar pro banheiro, é tiro certo, só ou acompanhada tá  dando mole. Vale torpedo.

E como tenho os olhos como armas guardei e guardo imagens e situações na memória comigo e sem migo. A conversa dos outros embala a nossa conversa interna de nosco para conosco. Se quiserem podem chamar de cinema ao vivo, a cores e ingravável com todas as pitadas de tons e temperos.

Depois da quarta cerveja só me resta emborcar numa peixada ali na esquina, mergulhar naquelas carnes, o peixe ou a sereia. Podia convidá-la. A agradável conversa da avó ficava como a nova despedida. Não direi mais a última. Sabe como é, mentiroso mente uma mente mais. Não que não se queira. A avó eclipsara em mim as meninas. Não é pecado.

SergioSanteiro (santeiro@vm.uff.br).

A flor

quinta-feira, fevereiro 24th, 2011

te quero diz a abelha à flor
que bom diz a flor à abelha
sorridentes passeiam amarelos no ar

quero te dizer te quero
dizer-te quero que quero
que me queiras e que me digas o que quero
que me digas que me queres e o que quero.

ai, tá sugando muito forte, diz a flor.
é que isto aqui tá uma delícia, a abelha.

O cheiro

quinta-feira, fevereiro 24th, 2011

Assim é melhor, é mais livre.

Por que ao invés de deixar
não me dás um cheiro . Nem unzinho!

E quando eu digo cheiro, não é um cheiro qualquer,
o cheiro que eu quero é um cheiro de mulher.

Aquele que emana de onde basta um olhar
pra que ele prenuncie o quanto vai gozar.

É assim que eu digo cheiro e muito gostaria de ver você cheirar.
Cheirar também o meu, cheirar, lamber, chupar.
Curvados um contra o outro, a boca cheia sem poder falar.

Falar pra que, se o corpo forte já está pedindo mais,
até que jorre e esparrame de boca em boca o melado.

Melou, lambuzou. Em 79 escrevi um poema:
“Lambuzei-me de sêmem
lambussêimem”

Pode ser que assim nunca seja
e  aí talvez nem queira mais saber de ti.
Acho que o olhar atrai, depois é só cheirando.

Não vale ficar de chororô. Ah! Não sei se devo.
Ah! Não sei se é bom. Como é que vai ficar?

Não me obrigue a ser vulgar, vai ficar …fudendo.
É claro que não é mais como em 79, mas um 69 dá gosto de fazer.
E tem uma vantagem, pode rolar mais tempo, mais tempo à vontade.

A outra, a cavalgada, também é boa de fazer, é boa e incontrolável,
tem a hora que não dá pra parar e nem dá pra maneirar,
a moça aguenta, ela dá um jeito e amacia o que vier.

Até pode reclamar um pouco, só vai me estimular.
Mas não gaste tudo, ainda tem a rapa do tacho.
Não é a tôa que eu te queria ver de bruços, ajuda a imaginação.

Imaginar voce, carinhosamente plantada
com as quatro patas apartadas o teu entre coxas erguido.
Fôsse em 79 terias menos trabalho, mas hoje vais ter paciência.

O bicho também erguido tem que estar
e ajeitando com jeito, com as duas mãos e os dedos,
o teu buraco ainda que róseo negro deixa escorregar.

Sei que podes suportar, até o talo, até os culhões, se desse.
O melhor dessa hora é que tudo pode, tudo cabe.
E o teu cheiro e o meu cheiro, quem sabe qual cheiro que é.

Queixumes

quarta-feira, fevereiro 23rd, 2011

Queixumes (de Sergio Santeiro).

Você só quer me comer

A pancada também fere a quem bate

Esqueci-me de ti

Eu tenho que dar? Só o que tiveres de melhor

Imagina uma mulher que diz que não te quer por todos os meios menos o verbal

Nada que eu faço faz mal

A minha gata é a mulher ideal

A qualquer momento se mandar parar eu paro

Se for pra ser há que ser publico e notório

Chega perto e se afasta, qual é?

Eu só quero o que você quer

Meu bem pague a prenda ao predador

Ajoelhar nem rezando

Manda cortar

A gata é boa de boca

Dói dar a cara a tapa

Devemos cultivar as diferenças

Só faço na rua o que não puder fazer em casa

A melhor medida na vida é o que não se pode fazer

Ideal irreal

O que não pode não pode

Fique com o meu luxo e deixe-me o teu lixo

Aonde está minha atenção?

Pior que o abatimento moral só o financeiro

Suplico que ninguém se aborreça comigo

Nada a dizer-se

Recebi a mais brutal ofensa: ninguém quer me ouvir

Você acha que eu atrapalho

Na casa deixada por quem abandonaram ficaram os que o abandonaram

O amor é incondicional

Menos é mais

Chifrado tenho onde exorcizar nas minhas guampas

A gente tenta, tenta, nem sempre a bola entra

Sem assédio: és uma mulher interessante

Eu não acabei de tomar o gostinho que eu tomei

Tarde é quando a coisa passou

Perde de um lado compensa de outro

Nuvens somem sem querermos

Você seria meu melhor premio nesta noite

Alguma hora o tempo há de passar

Não vou denegrir ninguém nunca com o passado

Com o outro do lado fica complicado

Acontece o imprevisível

Não dá pra ficar chorando na cama

Meu sucesso é irmão do meu insucesso

Pena que pra isso perco o calor do teu corpo

Até a mim mesmo sobrevivo

Se você for não vou

Vou comprar uma mulher de plástico

Sinto-me soberano e irresponsável

Não o que sou mas o que sinto

O que mais falta me faz é o encosto

Ela não quer sequer ser alvo da minha sedução

Só tá me faltando alguma coisa para eu bolinar

Que coisa fantástica a vida onde nunca me faltou o essencial

Ando pela casa que sempre foi minha

Você está muito disponível demais

Sobreviver é a maior vitória possível

Você seria o meu melhor consolo

A vida é a única escola que existe

Voltei pra ver a lua, nu, uma tiquira numa mão um baseado na outra aí ouvi no morro atrás de mim o canto da coruja sou ou não sou um abençoado?

Estou doido  para estreitar-te em meus braços

É tarde a tiquira resiste e eu também

Você quer que seja passado

Ela delira

O outro também pode namorar

Lá eu tinha a paróquia, eu prefiro, aqui eu tenho a metrópole mas com uma floresta nas minhas costas

Não fique brava se eu te encosto

Eu não só mas também

Dou de bico ou de trivela o que quero é fazer gol

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)

A 1a.

domingo, fevereiro 13th, 2011

A 1a. Pronta Ação Audiovisual do Rio de Janeiro (de Sergio Santeiro).
(veja em http://www.youtube.com/watch?v=QFehxdUx7ww)

E fomos. Não éramos tantos mas éramos muitos. O ponto era o Stic: o  sindicato dos trabalhadores e não o dos patrões, esses burgueses que  se insinuam e desviam a vocação popular do cinema brasileiro para  essas ridículas pegadinhas de mercado do cinemão que às vezes, uma em  cem, até podem dar dinheiro mas arranham a formação da consciência  brasileira induzindo-nos felizmente sem sucesso à alienação da  realidade brasileira.
Copiam o formato dos invasores sendo assim seus cúmplices na dominação  do nosso mercado pela estética da violência. Debalde, a nossa é a  estética da fome, essa maravilha lançada em 65 por Glauber que além do  grito de guerra “uma camera na mão e uma idéia na cabeça” mudaram o  cinema no Brasil, na nossa América e no mundo, com ninguém menos que  Godard de aliado na encruzilhada do Vento do Leste.
Nem precisaria fazer os gloriosos filmes que fêz mas fêz, bastaria sua  revolução téorica para nortear nossos passos que pisaram ontem o Largo  de São Francisco com as sujas e maltrapilhas gerações de mendigos,  umas três, contando a que estava na barriga dessas mães. Pobres mas  atentos dizendo-nos o que precisamos ouvir.
A praça é do povo e não desses parvos mercenários que acham que a  cultura é um negócio, cinegócio, filmenegócio, e não é, a cultura é  onde o povo está, é o que o povo precisa para varrer os vendilhões de  nosso templo do cinema brasileiro que desde o início há mais de 100  anos veio para nos libertar a todos das sucessivas invasões  estrangeiras os portugueses, os franceses, os ingleses, os americanos  e quem mais vier.
Nós sim, eles não, precisamos levar à ministra, uma artista  independente, que como dizia o slogan pretérito, se este é um país de  todos tem que ser um país para todos e não só para esse cinema,  burguesinha, burguesinha, burguesinhá. A cultura não é a dos palácios,  no Rio, Sampa, Brasília e do Oiapoque ao Chuí.
Os palácios tem que ser abertos para abrigar os desabrigados. Os  burocratas se insistirem em existir que troquem de lugar com os  favelados, ao menos um mínimo de dignidade, para aprenderem que a  vida, a arte e a cultura é a que vive nas ruas e não em seus malditos  gabinetes refrigerados.
A cultura é como bate o coração dos deserdados da sorte morando e às  vezes morrendo à frente destes lupanares centros culturais oficiais,  desperdícios que querem escondê-los de nossos olhos como se fôssemos  covardes e traidores para ganharmos a vida que a êles negamos.
Seja este o governo que faça o que nenhum, nenhum, dos anteriores fêz.  Tem que circular todos os filmes realizados por brasileiros, filmes  bons ou maus, melhores ou piores, como o petróleo que dizem que é  nosso, e esse tal de petrosal que se não forem para redimir o povo  brasileiro melhor que fiquem enterrados, essa água suja que suja e  dizimará o planeta.
O cinema brasileiro é o que liberta o povo ou não é nada. E está  pujante entupindo as gavetas enquanto o poder tira ouro do nariz.Não  adianta prêmios nem discursos, essa festa de merdalhas, não passarão,  nós passarinho.

P.S: Assim não pode (Ditadura do P-Sol:Manifestação de ambulantes no dia 10-02-2011 no bairro de São domingos em Niterói quase termina em linchamento de dono de comércio e secretário de governo devido a ativismo político irresponsável de militantes do P-Sol e seus lideres – veja em http://www.youtube.com/watch?v=kfM_cK9h3WY)

Políticos não podem insuflar conflitos sociais. Têm que resolvê-los. A farsa do trabalhismo getulista gerou a multidão de desempregados que só fez crescer empurrando-os aos milhões pelo país afora a montarem suas barraquinhas a vender qualquer coisa para sobreviverem. Estão errados? Não.

Tampouco estão errados os comerciantes legais. Quem está errado são os governos que se sucedem sem olhar e atender às necessidades da população. Preocupam-se apenas com as mordomias dos capitalistas seus cúmplices e parceiros ao invés de criarem o ideal liberal do pleno emprego para todos. O desemprego é o maior flagelo da sociedade e a maior responsabilidade de quem se arvore por vaidade ou ambição em representar o povo nos governos.

Um partido mesmo de oposição é parte do govêrno e não pode acirrar conflitos de interêsse na base da porrada. Quem já viveu sabe que a violência é uma  arma da direita. Espero que vocês tenham propostas mais construtivas. E se não tiverem aprendam.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Aos creativecomonistas

sexta-feira, fevereiro 11th, 2011

Atenção, sois a vanguarda na rede mundial mas quase sempre a vanguarda
como na história menos recente do país afasta-se e compromete a
ascensão do movimento das massas ainda mais quando erroneamente se
alia aos invasores.

A rede livre todo mundo quer mas também aqui tem que ser a nossa
nativa e não a deles bancada pelos súbitos milionários multinacionais
da tecnologia da comunicação.

E mais: êsse tal progresso tecnológico desejável não pode apropriar-se
do inalienável direito autoral dos criadores artísticos que desde a
imortal Cacilda Becker gritamos: – É só o que temos, o nosso trabalho.

Há que se combinar êsses interesses sem açodamentos, respeitando a
todos, criadores e usuários, mas sobretudo sem tascar a nossa poupança
criativa. O país é grande, cabe todos nós, trabalhadores brasileiros,
primeiro. Depois de assegurar 4 refeições diárias e teto para todos,
talvez quem sabe sobrem para os gringos as migalhas que hoje são só o
que sobra pra nós.

A conciliação é possível e é pra isso que existem o estado e os
governos. Cautela e caldo de galinha é a receita ancestral para todos
os males. Conversemos, discutamos abertamente sem pé atrás e com a
história na frente.

sergio santeiro.

O direito autoral

quarta-feira, fevereiro 9th, 2011

*Direito autoral: sejamos
modernos, mas não otários* .   *Por Ana Terra, do Rio de Janeiro*

A cultura tem como função nos humanizar, entrando em acordo com a nossa
natureza animal que, sem a razão, pouco nos diferencia das feras. E sua
primeira lição é a de nos educar para a convivência, essa educação
extracurricular que nos ensina principalmente a ética.

Quando alguém se apropria de um conhecimento formal, como o das ciências
políticas e das leis, e o manipula para falsear seus objetivos, a ética foi
seriamente ferida. Assim como quem defende a sonegação de pagamento do
trabalho alheio também.

Como eu não acredito que todo mundo tenha má fé, principalmente meus
companheiros do PT, talvez falte a eles, e à sociedade em geral, ouvir o
outro lado: o dos trabalhadores intelectuais. (Para informações mais
detalhadas acessem o link do seminário “Autores, Artistas e seus
Direitos”<http://www.cultura.gov.br/site/wpcontent/uploads/2009/08/anais_sem_autores_artistas_direitos_rio.pdf>,
do qual participei ao lado de Gilberto Gil, Amilson Godoy e Carlos Mendes).

Estamos assistindo ao embate público entre setores da sociedade civil e o
Ministério da Cultura, que retirou de seu site o licenciamento do Creative
Commons em vigor desde 2004. Esta atitude da ministra Ana de Hollanda
sinaliza apenas que ela procura uma correção da rota, que a proposta de
mudança da lei dos direitos autorais perigosamente desviou dos caminhos
éticos ao induzir a população à ideia de que o direito autoral impede a
democratização do conhecimento.

Quando grupos ligados à cultura digital e aos movimentos sociais pedem uma
continuidade da política anterior, será que sabem o que estão fazendo?
Colocar no mesmo cesto software e obra protegida é misturar duas questões
totalmente diferentes. O software é uma ferramenta enquanto a obra artística
é um conteúdo!

Claro que todos nós, com excessão do homem mais rico do planeta, defendemos
o soft livre e o de código aberto. Não é à toa que o GNU/Linux é a
ferramente operacional mais utilizada por órgãos governamentais e empresas
no mundo todo. Lembrando sempre: o autor fez uma doação desse seu invento.
Mas a ferramenta não existe por si só, é necessário agregar conteúdo para
que tenha serventia.

É preciso que fique bem claro que a obra de arte é o patrimônio moral e
pecuniário de seu autor. No sistema capitalista brasileiro deve ser tratado
como qualquer patrimônio, que é transmissível por herança sem prazo para
extinção desse direito.

Revestida de um verniz de “modernidade e democratização”, a gestão do
Ministério da Cultura pelo Partido Verde financiou durante anos consultas à
sociedade civil sobre o direito autoral no Brasil. Seria mais ou menos
equivalente consultar a sociedade para saber se concordam com o Art. 225 da
Lei Maior: *“todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se
ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para a
presente e futuras gerações”*. Este, um novo direito da personalidade, assim
como o direito autoral, são conquistas da civilização.

Dizer que o autor impede a democratização do conhecimento ou que a internet
é gratuita e por isso todos têm direito ao seu conteúdo gratuitamente é
mentira. A internet é uma mina de ouro para as corporações que a dominam e
não querem pagar aos criadores que as alimentam. Experimentem tirar músicas
e imagens da internet.

Nenhuma lei impede que qualquer pessoa doe sua propriedade. Eu mesma
publiquei um livro virtual e o disponibilizei gratuitamente. Mas, se acham
complicado sair à procura do autor e sua autorização, acho prática, sim, uma
forma de licenciamento na internet que preveja várias categorias de
autorização, inclusive a gratuita. Para isso basta o Ministério da Cultura
criar este selo brasileiro de licenciamento. Que é simples. Não precisa
ficar pendurado num selo americano, que, sem anti-americanismo, é meio
ridículo. Sejamos modernos, mas não otários.

5/2/2011

*Fonte: ViaPolítica/A autora

Ana Terra é escritora e compositora.

E-mail:  <anaterra01@gmail.com>anaterra01@gmail.com

Blog:  <http://anaterra01.blogspot.com/>http://anaterra01.blogspot.com/

Homepage:  <http://anaterra.mus.br/>http://anaterra.mus.br *

Estupores

quarta-feira, fevereiro 9th, 2011

Estupores (de Sergio Santeiro).

Ela não gosta que eu me deite sem banho tomado na cama

Imagina cheirando a cerveja

Vi as botas no cavalo branco

O horizonte é uma linha virtual

De costas a bicha tinha uma anca de vaca

Deixou-me a mim e às contas

A minha gata acha que é gente

O problema não é a burrice é a presunção

O de baixo no de cima

Os bombardeios da vida nos empurram para as barricadas

Ficas roçando meus olhos e não queres nem que eu pisque

Não mordo só lambo

A tua dissonância atrapalha o meu acorde

Prefiro jogar damas nas praças

Beber não é a solução é só um caminho

Que venham as drogas e as cachaças eu as rebaterei na soleira da minha porta

Não se deve beber em casa

A casa é o repouso do guerreiro no remanso do lar

A vida se complica

A perfeição é tu gozares com o meu gôzo

É tu jorrares com o meu jôrro

E faça como eu engole tudo

O maior palavrão brasileiro é inconstitucionalìssimamente

Quando começa a curva não se sabe como acaba

O que há de mais súbito é o tombo

Mais um é mais um

Não se deve dar mole pra piranha

Só dou se casar

Essas meninas deviam vir mamar aqui no velho

Elas me escapam

Vou acabar comendo a minha gata

Tenho menos telefones do que gostaria

Subirei sorridente o cadafalso se me condenares

Pedaços também satisfazem

Não lhe quero tirar nada, ao contrário

Pareces a chama de uma vela

Eu quero virar você pelo avesso

Bacalhau não combina com lentilhas

Não se esqueça  de me esquecer

A minha já era a tua que se cuide

Um convite teu ninguém recusaria

Mesmo sem gostar podia dar

Apertem os cintos o mundo vai decolar

Vamos nos mergulhar

A vida é surpresa

Metade de mim discorda de metade de mim

Formas são fluidas não são fôrmas

Ver sem tocar é ruim tocar sem ver é sublime

Compulsivo sim compulsório não

Que tanto falas ninguém te perguntou nada

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

Meu ultimo domingo em Charitas

quarta-feira, fevereiro 2nd, 2011

Meu ultimo domingo em Charitas

Fui à praia mais de uma vez. Logo ao comprar jornal e  cigarros vou e volto à beira mar com direito a quantos mergulhos quiser. Perto de mim, já em meio à confusão de gentes que acorrem ao mar, abancou-se uma banca de cerveja e água. Não sei como acho que tem mais gente vendendo que comprando.

Era um compadre que lá esteve ano passado acompanhado pela  mulher, uma bela figura, transbordando simpatia, ancas fortes capazes de suportar peso.  Nesta manhã estava ele só. Mais tarde ao fim do dia, como às vezes faço, voltei. Prefiro a praia antes ou depois do meio dia. Nesse miolo de tempo em torno do almoço encontro outros prazeres.

Lá estava ela na barraca, alguns meses de gravidez, o corpo aquela forma maravilhosa que está a gerar outra forma. Firme, reluzente no bronzeado, é uma cabocla. Fiquei a vê-la de vez em quando à distância. Sou tímido. Explico-me: de nada adianta chegar-me, não é esse o espírito da coisa. O ar de desejo é mais que suficiente para tocar a vida. Não se vai querer complicá-la: é a fábula da galinha dos ovos de ouro, não se vai matá-la. O sentimento disperso também me satisfaz.

Não demorou muito e como ano passado foi ela que se chegou a oferecer a cerveja. É pra isso que ela ali está. Esbanjando simpatia e sedução como nós povos mestiços sabemos fazer e portanto aceitei a cerveja. Só porque era ela. Vou à praia em frente de casa. Não preciso consumir na areia, mas era ela.

Recusar por que? Uma é dois reais. Dou uma nota de cinco, ela me pergunta se quero duas. Claro que quero. Depois quando eu quiser ela trás a segunda. Não é possível que a minha admiração passe ignorada. E não passa.

Diz-me ela: lembrei de você. Eu digo pois é não vi mais vocês. Ela diz: É porque a gente só faz isso quando firma o sol. Tava chovendo. Eu digo: É foi essa coisa horrível. Ela sorri: Tem tanto preto bonito por aí, pena que eu não posso.

Queimado como estou de sol, não sei se ela me inclui nessa categoria como eu gostaria ou se ela pensa que eu com esse meu jeito afetado, com essa tanga, me interesso por eles. Devolvo-lhe um olhar de desejo sem nada dizer, nada é mais eloquente.

Bebo a cerveja, fumo um cigarro, douro ao sol, dou um mergulho, de volta à areia, pouco depois, ela chega a meio caminho, eu digo que sim. Trocamos a vazia pela cheia. Ela diz: Se precisar me chama. Penso: Não se precisa ir às vias de fato sempre. Pode-se ficar na esquina.

O sol tá caindo, um tempo depois me arrumo pra sair, a cabocla volta: Quer mais uma? Não meu bem já estou de saída. Ela diz: É, o sol tá caindo, volta domingo que vem. Digo que sim. Não voltarei: é meu ultimo fim de semana em Charitas. Estou de mudança pra Copa ,enfim só, mandado de volta pra Copa, onde nasci e me criei. Nada mal.

Melhor despedida não poderia sonhar. É destino. Despeço-me com o sorriso da cabocla. Será que ela se ria pra mim? Por que não? Nestes tantos tempos aqui encontrei tantas simpatias anônimas. Os lixeiros cedo, o ônibus que pára pra saber se estou indo pra lá, o táxi que sabe onde moro e posso pagar amanhã.

Todo mundo aqui já sabe o que eu quero Nem preciso falar. Faço as mesmas coisas nos mesmos lugares. Inesquecível. O ver-se sempre, o cumprimento com a cabeça, um sorriso, um bom dia, boa tarde, boa noite, fazem da vida um convívio agradável sem a menor necessidade de se estender além.

Não que de repente não se queira. Êta vida cabocla! É o mais melhor da vida.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).