Amanhã

A  manhã.

Resolvido. Amanhã vou resolver tudo que deixei pendente. Contas atrasadas. É um vexame. Contas mixurucas. É um sinal de desordem.

E já dizia meu saudoso pai que me conhecia melhor que eu mesmo: – Meu filho! Nessas horas você deve fazer só uma coisa por dia. Vai lá e paga uma conta. Pronto, o dia tá resolvido. Se você insistir em fazer mais de uma você vai ficar nervoso e aí mesmo é que não vai fazer coisa nenhuma.

Desordem mental: incapacidade de responder aos reclamos normais da existência. Vai do bolso ao coração. Paciência. Obedecer aos ciclos da vida. Paciência tem que ser a solução para todos os males.

Paciência com os outros, principalmente,  porque os outros reagem e as coisas se agravam. Paciência consigo mesmo, o que não for hoje amanhã poderá ser. E quando estiveres a ponto de perdê-la respira fundo. Com o  maravilhoso porque indispensável ar que nos mantem vivos entra um novo jorro de paciência.

Se a moça não olha, se a moça não vem, paciência. A moça não é.  É um ser passante. Será pedir demais que seja também parante? E por favor sem maiores exigências ou demandas. Simplesmente ser. Às vezes, muitas, nem gosto de  falar. Pior, bem pior, é quando gosto. Não sei como alguem aguenta ouvir. O resultado é que ninguém aguenta nem eu. O pouco que vi de mim mesmo gravado é de arrepiar carneiro.

Não é parante, na verdade, porque o velho babão à espreita é fingimento, finge de distraído, nem é velho, nem é babão. É do bom. Será que elas não gostam de fingimento? E elas aos meus olhos fingem que existem e que são o que eu imagino.

Olhem em volta. Alguém pode imaginar que isso existe? Para o bem felizmente, para o mal infelizmente. Como enfrentar o mal? Aumentando o fazimento do bem. Não precisa ser um bem espetacular. Basta um pequeno bem, lembram-se, apenas um bem no dia é suficiente. Nem que seja pagar uma conta.

O que não pode é ficar parado senão a bebida esquenta e a comida esfria, dois insuportáveis males concomitantes. Concomitância boa seria com os números da sena. E você joga? Jogo, bebo, fumo e como todo mundo finjo que acredito na minha sorte e no azar alheio.

É por isso que o jogo é ilegal, legal só o do governo. E até as palavras: o que é legal é ilegal e o ilegal legal. Concomitâncias. Imagina acabar com o jogo nos governos. O melhor quem sabe não seria acabar. Seria democratizar os ganhos e não só as perdas.

Acabar é difícil mais fácil  é multiplicar e dividir, somar sem diminuir. Só pode ser pra um o que é pra todos. Mas o compadre que manda finge que fala e o que finge que ouve  não cumpre. E no fazer as contas não houve concomitância entre o que se fala e o que se cumpre.

Atingi a plenitude: mijar e cagar em intervalos menores. Nunca te mijaste ou cagaste sem querer não sabes o que é bom na vida. Frágil como  estou o que quero é  ser achado, a noite é a melhor conselheira. A gata apaixonada abanava com as mãos os gases de prazer que me saíam de onde deveriam sair.

Fingimentos, é tudo fingimento.

Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br)..

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