Archive for junho, 2011

A Gustavo

segunda-feira, junho 27th, 2011

Pegos  de surpresa pela surpresa de seu falecimento talvez ainda não seja a hora para mim de avaliações profundas de seu papel nesta vida. Vamos às lembranças.

O primeiro registro que tenho foi no curso de cinema do MAM em 64 (?) que mesmo não inscrito como fazia sempre às vezes dava uma olhada. E certamente fui ver o desembarque do Gustavo vindo do Centro numa aula que deu no curso. Não havia como não encantar-se com sua elegância ostensiva.

Ainda há pouco quando estive com ele na Ancine, não foi um bom momento, a primeira coisa que vi é que usava sua camisa com  monograma bordado, numa combinação única de padronagens diversas, calça, camisa, paletó, gravata, suspensórios. Um craque.

Como vêem não por acaso chamei-o a encarnar o Oswald de Andrade na minha colcha modernista de retalhos, o Klaxon, de 1972. É claro que chegou-me com o figurino pronto e disse-me como que displicente: Eu peguei umas roupas no armário e achei que ficou bom. Estava ótimo.

Deliciou-se em ler a página do romance de Oswald e finalmente no tom da tirada contra o Mário esteve perfeito. Não era o Oswald, era o Gustavo fazendo o papel de Oswald, de um Oswald possível ou de um possível Oswald. Apesar de sua formação em Sampa sempre tive a impressão de ser um gaucho (sem acento).

Surpreende-me sua opção teórica e metodológica a favor do mercado. Mas também o maior cineasta brasileiro não esconde sua repulsa ao Estado optando portanto também pelo mercado. Até não deixa de ser coerente, afinal gestaram-se no impulso do desenvolvimentismo. Nós não, os que viemos depois sobrevivemos espremidos entre a lógica de mercado e a ditadura civil militar que nos atropelou a todos desmanchando as estradas.

Na verdade eles eram o cinema novo, um grupo de amigos, uma comunidade virtual, em que cada um é si mesmo, personalidades fortes, e todos com um vêzo autoritário. Ou será que todos nós temos vêzos autoritários?

Os filmes é que trocam-se entre si até personagens e certamente os sentimentos do mundo. E cada filme estampa a alma de seu autor. Pode-se imaginar por exemplo que O Bravo Guerreiro de alguma forma ecoa o Álvaro de Terra em Transe bem como Uirá entre tantos filmes indigenistas converse com o Francês.

Confirmam minha teoria de que o cinema brasileiro é como se todos  e cada filme fossem planos de um mesmo interminável filme. Como se  vê, essa também é uma conversa interminável.

Saudades de Jijoca de Jericoacoara

quinta-feira, junho 23rd, 2011

O que é fazer um festival? Geralmente se faz para servir aos sistemas. Para que o publico se esprema junto às passarelas para ver uns grandes nomes desfilar e grandes filmes para aplaudir.

Ou se faz como aqui onde o que se pretende é expôr ao publico excluido do sistema e dos cinemas o caminho de como o cinema pode ser parceiro e estrada para a superação das dificuldades da vida e do reconhecimento de seus valores, os do público, e não daqueles que se acham donos do poder e contra nós, espectadores e artistas, exercem o único valor que conhecem que é o do dinheiro apenas.

Dificultam as nossas vidas e esta é a melhor resposta que podemos dar. Apesar de vocês o amanhã há de ser. Um festival é para ir ao encontro, é para estar a serviço da comunidade, da que o recebe e anima.

Que coisa melhor do que inaugurar-se com a saga dos Tremembé ousadamente traduzidos em filme que não se mexe só em registrar ocorrências mas entra junto entrando na pele de quem registra, seus vivos e seus mortos.

Nossos grandes nomes não são lá tão grandes e são tão desconhecidos deste nosso publico da comunidade como do grande publico em geral. Mas são trabalhadores  há décadas empenhados em manterem-se fiéis à melhor vocação do cinema que é crescer e fazer crescer a imaginação das pessoas.

Reunindo alguns velhos e a rapaziada que desembarca variada e diversa na tomada de nossas telas temos o prazer de nos contagiar com a resistência de vida da comunidade e também nós insistimos em manter nossa resistência ao magro e pífio aparelho de dominação do estado.

Boas e novas conversas e a menina de Jeri na primeira sessão, olhares trocados, ela sabia dobrar ora uma ora outra perna sem mostrar sequer o joelho no vestido. Acho que era uma jovem índia, presumo uns treze anos portanto inabordável. Mais pro fim saiu, demorou um pouco, depois voltou.  Achei que … Esguia, linda, já no corpo a promessa de formas futuras. Inabordável.

Melhores e mais filmes virão inclusive os que já se andam fazendo aqui mesmo e logo ali em outra esquina e numa outra cidade. É um encontro marcado a cada ano: Cinema em Jericoacoara (www.jeridigital.com.br).

Bondades

quinta-feira, junho 23rd, 2011
Eu tão bonzinho!
Essas meninas vão me deixar doidão
Eu não sou fútil
Eu não sou fácil
Mas eu dou  mole
Antes de mil bobagens mil desculpas mil prazeres
Nenhum parceiro pode reclamar de mim às vêzes minto um pouquinho
Mais devagar mais baixo e menos
Diametralmente oposto não é tão afastado
Vai que eu já vou
Decepcionado com a ação política
O toco que se come cru não é o mesmo que se come cozido
Quem só pode o pouco tem que querer o muito
Dei bom dia a quem não devia o dia não começou bem
Não gosto de sair de casa não gosto de viajar viajei
Seja feita  a tua vontade
Assim você faz tudo e eu faço nada
Eu não sonego eu só nego
Meu prazer não pode ser desprazer
Nada contra mas eu não sou garoto de programa
Você não dá nada pra mim
Se você não estivesse apenas fingindo se não estivesse apenas prometendo eu era capaz de acreditar em você
Não hás de me querer como eu te quero
A namorada não quer que eu tenha outra
Não adianta ser tão radical minhas raízes ninguém arranca
Nunca dei tanta satisfação da minha vida
Dobrava as pernas sem que se lhe visse sequer o joelho no vestido
Falei falei e fali em publico
A ficção é a interioridade de seu autor o documentário é a exterioridade
Passamos a vida perseguindo as palavras ou evitando que elas nos atropelem
Você não pode gastar minha energia preciso trabalhar
Convenientes podem ser conveniados
Ganhei bitoca pitoca e o depois do depois
Se hesitamos um pouco morremos
Nem sempre lá nem sempre cá
Uma  vêz por semana já tá bom
Isto é a minha bílis

Desculpas

terça-feira, junho 14th, 2011
Ela disse que só vai se fôr casar
Eu disse que ela fôsse casar noutro terreiro!
A lingua rebolava para agradar
A quem espero que não me sirva!
Que foi? Ganhei castigo?
Não me estimula que eu desempaco
Curtir a bela frase não ajuda na real
Charme não foi suficiente pra eu  te  botar na minha cama
E se eu fervesse?!
Esbanjo a plenitude da solidão
E da só idade
O cabrito  que comi na esquina tava ótimo só me faltou a cabrita
Querer nem sempre é querer
Ao despertares vou te ver até perder de vista
Eu lembrava de você mais dengosa agora está mais atirada
Eu também não queria
Queria escrever-me em ti
A vida é abstrata
Exemplos é o que fica na  memória
Queria te ver aqui na minha nova casa velha ou velha casa nova
A que eu tenho não é a que eu queria
Nunca cotas em nada basta pôr em ordem de entrada em cena como nos letreiros
Acho que devia aguardar-se a CPI da remessa de lucros e depósitos estrangeiros da “burguesia nacional”
Levarei a cabrita pra comer o cabrito ou ela me levará não sei
Eu queria você sempre assim aos pouquinhos
A cabrita não me leva pra comer o cabrito
Acho que vou pagar uma puta em tua homenagem
Como me arrependo de tantas conversas entre nós ainda mais depois de tanto que prometes
Vou comer-te a têta esperto escorrego anca abaixo até morder-te o calcanhar
Falhei! Não consegui juntar cabrita e cabrito
Sergio Santeiro (santeiro@vm.uff.br).

S.O.S BOMBEIROS RJ

domingo, junho 12th, 2011

A liberdade é  vermelha o sol é vermelho a  rua é vermelha o povo é vermelho os governos são cinzas

www.sosguardavidas.com

A alvorada é vermelha

Se pode no quartel em Niterói por que é que no do Rio não podia?

Niterói é vermelha

O governo é cinza

A repressão é cinza

O azul o verde e o amarelo são vermelho

Os quartéis são vermelho

O amor o sorriso e a flor são vermelho

Atenção! Cuidado! As crianças não entendem a prisão de seus pais

O coração é vermelho

Um só é cinza

439 é vermelho

O vermelho é água o fogo é cinza

O trabalho é vermelho o salário é cinza

A comida é vermelho a migalha é cinza

Bombeiro salva o governo prende

Brasileiro é vermelho

S.O.S. BR

A prisão é cinza

Ninguém quer o cinza

Brancos pretos amarelos e cafusos é vermelho

Ser vil é cinza

A prepotência é cinza

Quem invade é quem não é dali

Vândalo é você

A casa é vermelha o palácio é cinza

A denúncia é falsa é abuso de poder

A vida é vermelho

O vermelho é vermelho o cinza é cinza

Tudo é vermelho o resto é cinza

Os imortais

sexta-feira, junho 10th, 2011
Os Imortais.

(para Otávio III flanando na praia em Copa).

Nós, seres sem a menor importancia, seres humanos perdidos na galáxia … Somos só nós de nossa espécie nos universos? A infindável praia.

Parece que somos o que não somos. Na verdade não somos nós. Nunca fomos nós. E assim sempre somos sós. Somos eu, tu, eles, vós, eles. Falta-nos o nós. Não adianta seres humanos segregarem-se distanciando-se entre  si. E quem pensar que vence, só perde.

E perdemos todos. O quanto a humanidade se perdeu nestes milênios de penas, ódios, violências. Populações inteiras, civilizações inteiras e multidões de pessoas, multidões, massacradas pelo domínio de alguém ou de alguéns.

Como não pode a humanidade inteira fraternalmente comer no mesmo prato? Magina! Que beleza! É que nem a feijoada do barraco. Quem precisa de mais? E tem o papo gostoso, as inconveniências … Tudo que há de bom!
O troço é meio chato porque afinal não vamos ficar pra ver no que vai dar. Mas a gente  vai vivendo o que é preciso e até o que não é.

Com Los Hurdes descobre-se que não há documentário e ficção, é tudo cinema, mas tem que ser do bom. Na predação capitalista que gera a miséria o que se ensina a crianças descalças e famélicas está no quadro negro da escola: Respetad los bienes ajenos. Respeitai os bens alheios.

Alheios de quem? Alheios a quem?
Tem o cinema imperial soviético e tem o cinema popular soviético. E tem o primeiro filme político que é La Fièvre o último de Gérard Phillipe e tem o Rosselini com Stendhal em Vannina Vannini.

É o que veio a se dar entre nós com a primeira Atlantida e Nelson Pereira dos Santos no cinema popular socialista desmontado pelo 1o. de Abril quando tudo virou cinza. Não é neo-realismo,não! Nós não nascemos da guerra, nós em parte morremos com ela, essa interna, irmão contra irmão.

Mas desde O Desafio, de Paulo Cézar, fomos renascendo. E aqui também não era o nacional popular, era o popular socialista, era um, era dois, era mil. Não é morrer pelo Brasil é viver naturalmente nas naturezas. E nem é grande coisa: é devolver tranquilos à paisagem os vômitos da experiência.

Amotinados até pode ser como em Canudos, na Chibata, nos Metalúrgicos, como hoje. Não nos percamos nas  palavras. Amotinados com causa e indefesos. Pressão sim. Repressão não. Nunca mais.

É quando o povo reage e se rebela, até sem saber,contra a dominação burguesa. E se organiza e se defende e vai às ruas ordeiramente. Está certo quem? Quem trabalha ou quem desemprega pra  faturar mais? Agora ficou  melhor: trabalhadores à luta e que a repressão nunca vença!

Liberdade para os presos. Para todos. Os de sangue, os violentos, é mais complicado. Vai pensamento brasileiro resolver a questão. Não temos inteligência suficiente no país para resolver os problemas? Não há solução sem problema mas não pode haver problema sem solução. É como dizia minha mãe: Pra que serve tanta inteligência se você não aprende a viver?! E ninguém pode morrer antes de chegar sua hora.

A única que não é solução é a prisão. Ninguém se pode dar o direito de enterrar vivo ninguém mas os crimes de sangue, os  violentos, são um problema. E não é da natureza humana. Todos sim nascemos bons. É só olhar pros pequenos cada dia mais inteligentes até que os adultos atrapalhem. É difícil perdoar os mais maus mas tem que se extinguir a maldade.

A sociedade toda é responsável pelo que produz. Se infelizmente produz o mal, produz a morte, todos temos que  responder por isso. É uma sociedade doente! Precisa de remédio.

Mais guerra? Não! Mais paz! A sociedade que produz o mal tem também que produzir o bem. E tem que ser para todos. Cada um é nada, juntos somos  fortes! Cada um só pode ter o que todos tenham.

Pelo salário único: cada um recebe sua parte igual no que todos produzem. É o produto interno bruto dividido pelos 200 milhões que nele vivem. Nem um só de fora. Nem um só à míngua. Se quiser mais salário vamos todos gerar mais produto e se socializa tudo. Adeus miséria, adeus pobreza, adeus inveja, adeus ódio, adeus morte.

Abaixo o desperdício! Abaixo a competição! Pela cooperação! Vivamos imortais até a prova em contrário. Não há Belo Monte. Inventa outra. Belos montes são os que a natureza criou. Não se pode desmontá-los. Que se desmonte então o que ainda não foi montado. É preciso salvar as águas.

E nós cavalo não é xucro, nós esperneia, nós escoiceia, nós dispara campo afora! Corre pra nos pegar, nós some no horizonte, e nóis vorta. Ah nóis aí tra veiz! Nóis é duro nas quedas. E nóis também é fogo que não se afogue na tina que vovó lavou e nóis segue lavanu.
Aqui água não falta, pelo menos por enquantos. Tá suja? Lava a água! Nem carece. Basta não sujar mais. E, quem sabe, a centelha que chamamos vida não pereça e seja no universo imortal.
Sergio Santeiro (às 7 horas da manhã de 9/6/2011 em Copa).

Esquemas

quarta-feira, junho 1st, 2011

Galo fraco canta baixo

Não perdôo quem não perdoa

Prefiro a droga da saudade à do sofrimento

Você me leva pra almoçar?

O que é grátis custa caro

Tô que tô atrás de quem tá que tá

Nem confissões nem confidências  só confluências

O navio desaba no horizonte

Nóis não anda pra frente?

Deixei recado pra menina será que ela vai?

Não discuta, bem, aceita

Dê o que nem pensaste em dar

Apreciar a presa é dom  do caçador

Não me respondas mal eu só quero o teu bem

Não é a forma é a coisa

Não se preocupe em  me deixar falando sozinho

Só não quero é me fuder

Nem fico nem boto ninguém pra baixo

Mais vale o que menos se tem?

Se a vida correr a gente chega mais rápido

Não sou nobre sou pobre

Não sou melhor que tua mulher

Fabricamos nossos medos

Mal te quero se bem não  me queres

Fica quietinha aí que eu vou lá dentro pegar um porrete pra te amansar

Mais ingênua que o meu pensamento

Viras nebulosas da mente

Quero assistir de camarote

Diga lá o que não digo cá

Deixa escorrer alguma hora pára

Dançar no escuro periga cair

A imagem ajuda a sublinhar

O que eu não disse você pensou

Não fui eu que comecei não fui eu que acabei

Faço o que posso pra não ser  derrotado

Arrastar a asa pode atrapalhar o vôo

Querer-te é poder-te?

A menina é menina mas pensa que é mulher

A joana não sai da minha boca