A Gustavo

Pegos  de surpresa pela surpresa de seu falecimento talvez ainda não seja a hora para mim de avaliações profundas de seu papel nesta vida. Vamos às lembranças.

O primeiro registro que tenho foi no curso de cinema do MAM em 64 (?) que mesmo não inscrito como fazia sempre às vezes dava uma olhada. E certamente fui ver o desembarque do Gustavo vindo do Centro numa aula que deu no curso. Não havia como não encantar-se com sua elegância ostensiva.

Ainda há pouco quando estive com ele na Ancine, não foi um bom momento, a primeira coisa que vi é que usava sua camisa com  monograma bordado, numa combinação única de padronagens diversas, calça, camisa, paletó, gravata, suspensórios. Um craque.

Como vêem não por acaso chamei-o a encarnar o Oswald de Andrade na minha colcha modernista de retalhos, o Klaxon, de 1972. É claro que chegou-me com o figurino pronto e disse-me como que displicente: Eu peguei umas roupas no armário e achei que ficou bom. Estava ótimo.

Deliciou-se em ler a página do romance de Oswald e finalmente no tom da tirada contra o Mário esteve perfeito. Não era o Oswald, era o Gustavo fazendo o papel de Oswald, de um Oswald possível ou de um possível Oswald. Apesar de sua formação em Sampa sempre tive a impressão de ser um gaucho (sem acento).

Surpreende-me sua opção teórica e metodológica a favor do mercado. Mas também o maior cineasta brasileiro não esconde sua repulsa ao Estado optando portanto também pelo mercado. Até não deixa de ser coerente, afinal gestaram-se no impulso do desenvolvimentismo. Nós não, os que viemos depois sobrevivemos espremidos entre a lógica de mercado e a ditadura civil militar que nos atropelou a todos desmanchando as estradas.

Na verdade eles eram o cinema novo, um grupo de amigos, uma comunidade virtual, em que cada um é si mesmo, personalidades fortes, e todos com um vêzo autoritário. Ou será que todos nós temos vêzos autoritários?

Os filmes é que trocam-se entre si até personagens e certamente os sentimentos do mundo. E cada filme estampa a alma de seu autor. Pode-se imaginar por exemplo que O Bravo Guerreiro de alguma forma ecoa o Álvaro de Terra em Transe bem como Uirá entre tantos filmes indigenistas converse com o Francês.

Confirmam minha teoria de que o cinema brasileiro é como se todos  e cada filme fossem planos de um mesmo interminável filme. Como se  vê, essa também é uma conversa interminável.

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