Conterrâneos Velhos de Guerra

Ainda não é desta vez que vou fazer justiça à tarefa que me dei: falar deste filme. Não que seja complexa é por demais simples mas tinha que ver a trajetória do artista que não é pouca ou talvez nem precise podia ser só este filme.
Vejo o filme como uma sinfonia. Relembro clássicos “Sinfonia de uma Metrópole” sobre cidades, o moderno. Mas este filme não é sobre uma cidade é sobre a gente que fez a cidade. Louvo o confronto corajoso da realidade dos candangos com a dos criadores nós os artistas talvez seja nossa sina às vezes descuidamos do fundamental que é a vida em troca da forma.

A vida de uma só pessoa equivale à vida de qualquer outra imagina o massacre na revolta dos peões no refeitório episódio abafado na glória de sua arquitetura e aqui densamente revelado. Aqui se fez justiça aqui não se deixa ser apagado.

O companheiro Vladimir no seu estilo básico sem ademanes mais que uma câmera vigorosa e um discurso incisivo reúne vidas percursos como os dele saídos dos sertões de fora para os sertões de dentro.

Faz sentido a construção de Brasília que fomentou o progresso técnico das técnicas e artes da construção civil mas quem a executou com o risco e a perda das próprias vidas foram os conterrâneos velhos de guerra.

Erra Umberto Eco ao dizer que já naquele tempo era para ser feita em pré-moldados esquecendo o que significou em termos de absorção maciça de mão de obra a especializar-se e a povoar o interior: a marcha para o oeste e o que significou para a tecnologia do concreto armado e do vidro plano para tanto expandindo as fábricas da construção.

E êle vai buscá-los e vai dar-lhes voz. E pra isso é que serve o cinema para dar voz e imagem a quem os donos do poder insistem em usurpar. De novo ele o faz desde sempre com o olhar atento para a parte e o todo mas tenho a impressão que interfere pouco ao menos na filmagem por mais tensa que seja. Depois vem a montagem como é que ficam os pedaços pra juntar o todo.

Somos um tanto contemporâneos não conterrâneos não tenho como seguir em mim um Aruanda a não ser como admirador mas acompanho vi e senti todos os seus filmes a cada momento. A vida pode ser complexa mas nossa arte tem que buscar ser simples para não atrapalhar a mensagem.

O que faz um sertanejo migrar senão o fracasso de uma sempre inexistente reforma agrária. Os peões do campo tornam-se os peões da cidade e ela feita como a safra afastam-nos do cenário nascem as periferias nasce o faroeste caboclo.

É com eles que o poeta sertanejo que com eles veio preza registra e louva a tradição popular e vai reencontrá-la longe no planalto central do país onde fincou raízes e gerou a força de um cinema brasiliense.

Ele acha que é pouco depois da sinfonia veio aí o Rock-Brasília.
Êta candango velho de guerra.

Sergio Santeiro.

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