Archive for outubro, 2013

Caretas

quarta-feira, outubro 30th, 2013

Tenho que tentar dizer o indizível
Ele acredita na palavra do colonizador
Não sei pra que serve tanta tecnologia se não for pra acertar na boca da vagaba
O que pra uns é problema pra outros é solução
Deixa eu me fazer feliz
Quase nunca a verdade é mais convincente que a mentira
Só falta correr
Ah como esse país podia ser melhor
Graças a Deus a mim não falta nada
Eu falo porque eu falo
Velho por velho sou mais eu que sou menos velho
O executor o executivo executou
Os olhos dizem o que as palavras sonham
É uma delícia ver vocês meninos e meninas resolvendo a vida
Não engato nem resgato
Eu não fui eu sou
Vivendo a vida que a deus pedi
Quem não arrisca perde a isca
Quem ganhar não vai ter de quem cobrar
É como se diz de promessas vai pagar com a língua
Eu também quero o que já provei
Onde a imagem abunda
Não sou versado em tais versos
Eu não acho procuro
Divergir pode não pode é desrespeito
Isso é bom ou isso é ruim?
Quem ganja dá ganja ganha
Não estou mais na inspiração agora é expiração
Quem quer pode
O que eu queira posso ter
Vale nada é joia
A ABD é a primeira entidade do audiovisual na área não sindical
O que é pior que a dor
Quando souber eu aviso
Meu jeito meio desajeitado merece atenção
Ah se juntasse as energias!
Fazer sombra na parede é a minha definição de cinema
Ainda não acertei o lugar dela mas ela inspira
Melhor é comer a produtora
É isso aí?!

Dicas

terça-feira, outubro 22nd, 2013

De tanto republicar não vira republicano
Às vezes crer é melhor que descrer
Eu não sou você
Isto quer dizer que eu sou eu
Chuva ou frio não sei o que é pior talvez os dois
Como ser gentil ao dizer não me aborreça
Quem acredita em mensalão é otário de plantão
Basta um beijo na tela pra me encher o saco
A boca tem outras utilidades
Pode-se com ela bater boca
Diz-me quem sois e direi quem és
É no que dá o desperdício
Sou só introvertido mas muita gente acha que sou é intrometido
As palavras jogam-se entre si eu só corro atrás
Não falta só não sobra
A repressão institucionalizada do Supremo às ruas
Qualquer coisa pode ser ótimo só depende de quem o faça
Até nisso nóis é mió só num tem propriagranda
Entre o que foi e o que será
A vida é maior que a morte
O padrão é sem patrão nem padrinho: MST
Não há nada a comemorar em 7 de setembro cuidado: que ninguém morra
E eu assisto nada eu só bebo
Sou destro mas me falta destreza
Não é 7 de setembro é 21 de abril
É um erro atrair a repressão
Quase aos 70 anos não posso ver essas crianças se oferecendo à repressão como no passado
Nunca se esteve tão perto do poder não se pode não avançar
Os governos civis eleitos tem que encontrar uma solução para a encrenca em que nos meteram
A política é a arte de solucionar problemas não de criá-los
Nada vale uma vida pode ser a sua
É impressionante como se acolhe os alienígenas e se desconhece os autóctones
Todo preso é preso político está na prisão por ordem do Estado
Frio no Rio de Janeiro em setembro
Temo pelo pior mas acredito no melhor
Os governos deviam trocar de casa com os favelados
O mundo tem que ser da paz
As coisas me acontecem de supetão aí eu reajo
O meu equilíbrio depende de uma profunda imersão em mim mesmo
Nada faltou a aclarar?

Os Desaparecidos (1970-1979).

domingo, outubro 20th, 2013

a r a r d e l i b e r a r d e
l i b e r a r s
a r s s s s s s s s s s

‘Seu’ progressio perfilou-se : – Qual é as ordis? o o o o r
aaar s s s s s s s ssssssssssssssssss i i i s s s
d e i s l i b e r a r s
a r s l i b e r a r s a r s
s s s s s s s s s ss ss ss ss ss SS SS SS SS SS SS SS

p e l o s c é u s p e l a t e r r a
a r s p e l o m a r s s s ssss
n a r r r r r s s s s s s s s

n a s r u a s p a s s a v a à a l t u r a d o s o l h o s
de quem estivesse sentado de dentro dos ônibus de casa a
trafegar para o trabalho para o trabalho para a casa
para o trabalho para a casa para o trabalho para o trabalho
os canos serrados as caras cerradas no metralha a a a doras
no a a ar a a ar a r s a a a r e s s s s s s sssss

a v i õ e s à s c a r r e i r a s passa por um passa
por dois dribla dribla às direita às esquerda
d e s a r s s s s s s s s s s s s s s
d e s a p a r e c e u
c e u e u e u e u e u c e e u e e u u u
s e u e u e u e uuuu e u e u u u u u u

i b e r a r l i b e r a r a r
a r s s s s s s s s s s s s
meus companheiros também vão voltar e a a d e e e u u u s
o c é u u s ssssssss e u e u e e e u s

de dentro as janelas e l a s s s s s s s s
sozinha imensa no estádio um berro cala a multidão

a m a s s a a m a s s a a s s a a s s a a s s a
o ô s s o o f ô s s o o m ô ç o d e s a a a p a r e
c e u e u u e u e u e u e u e u e u e u

não fôsse o braço abraço o môço des a aa pareceu eu uuu
traço deixou ou ou quando esta carta chegar queridos pais
eu estarei prêso. N ã o v o s a s s u s t e i s sabereis
que aqui honrado serei. Façam tudo. I m p o r t u n e m a
toda hora a d i t a d u r a . A D I T A D U R A

Nos quartéis prisioneiros somem homens matam homens atam homens
na t e r r a a v i b r a ç ã o é geral al al al
o gôl ecoa ôe ôe o vento vira a geral o gôl levanta a geral
na rua passa o general carros de armas nos vídeos das janelas
e l a s e g o v i d e o s e g o v i d e o s egovideos

o s p a s s o s p a s s a m n o s p o r t a i s ais ais
a cana é dura mas nas saídas as idas a s s s s s s s s s s
n a s r u a s p a s s a m o s t e m p o r a i s ais ais
M a i s! N ã o m a i s! N ã o m a i s! N ã o m a i s! A i s n ã o mais!
as chuvas chovem as uvas ovem ovem a m u l t i d ã o
as multidãos ululam ulam ulam o ê r r o é c e r t o
perto a tenaz aperta o cêrco o certo perto o apêrto êrto o certo
o êdo m m m mmmêdo um mêdo serve ao êrro êrro após êrro
mêdo êdo êdo mmm mmmmmm mm m m murmúrios contam tudo
Pensam que enganam? Abe o povo diz q u e m s a b e.

Houve um dia em que pegaram em armas. Como? O que? A liberdade
arde para viver é p r e c i s o viver é preciso mas a que preço?
O preço é escasso. Um maço de esterlinas não liberará as Indias.
É preciso v o a r a r arrrrr É p r e c i s o lutar ar arrrrrrrrr

O canto é o espaço pouco do rouco poeta louco que cansou
d e c a n t a r q u e c a n s o u d e d a n ç a r d e da n ç a r o ar o ar o o
p o r n ã o s a b e r v o a r e s t r ê l a e s t a t e l a – s e n o c h ã o
O u v i o b a q u e s u r d o o u v i m a i s n a d a n ã o.
A porta precipita–se n o s g o n z o s e n t r a m o s g e n d a r m e s t u d o a
r e v i r a r e r a e r a e r a n ã o e r a e r a f o i n ã o f o i n ã o e r a.O que foi?

na rua passam carros passam casas para o trabalho das casas
para o trabalho das casas para o trabalho o trabalho
Quem passou? O passado no trabalho para casa passou o passado
o môço desaparecido o m ô ç o d e s a a p a r e c i d o
quem sonhou quem amou o môço desaparecido o môço é desaparecido
é cido é cido é cido é cido e u s a b i a q u e o môço o desaparecido
f oi na manhã de ontem prêso quando cobria o ponto desaparecido
Quem lembrou o passado? É passado o passado passou quem matou
o m e n i n o d e s a p a r e c i d o ?

Desgarrada da massa a liderança entrou na área e fêz o gol.
Quem fêz o gol que salvou a nação da nação danação a danação
da nação a danação a danação da nação a danação da nação a
Foi de frente? Foi de curva? A d a n a ç ã o d a n a ç ã o
Foi de longe? Foi de perto? A d a n a ç ã o d a n a ç ã o
Quem marcou o gôl de falta? A d a n a ç ã o d a n a ç ã o
E quem foi que o gôl serviu? A da n a ç ã o d a n a ç ã o

O gôl é gôl É gôl vídeos transmitem para as casas transitem
para as casas para os trabalhos para as casas para os trabalhos
para os trabalhos para os trabalhos. O gôl emite-se a notícia
chega o tempo é pouco a corrida é exata sequestraram o embaixador
o embaixador rolou no peito rolou a pelota no gramado ado o que come
o homem é o que come o homem é o que sonha o homem é o que o homem
é o que o homem é o que o homem é

o gôl passou no vídeo da têvê o prisioneiro passou no vídeo da têvê
o embaixador embaixadou no vídeo da têvê o tempo passa no vídeo
da têvê comunicado ao vídeo da têvê o vídeo da têvê é o vídeo da têvê
quem suspeitar que algo é suspeito o vídeo passou o comunicado na
têvê é obrigado a comunicar o fato passou no vídeo da têvê
o ato é vídeo da têvê o ato é dito no vídeo da têve
o general passou no vídeo da têvê o general falou no vídeo da têvê
alô o vídeo da têvê alô alôu a a loura e o vídeo da têvê
assalto ao banco no vídeo da têvê o banco é o anco vídeo da têvê
o campeão ao alvo é o vídeo da têvê o general é o vídeo da têvê
o coronel é o vídeo da têvê o capitão é o vídeo da têvê
que fugiu do quartel é o vídeo da têvê e anda ao léu
o capitão fugiu ao vídeo da têvê e foi criar a vida no sertão

no sertão o sertão não cobre o capitão no ar no ars ar s s s no ar
o capitão morreu no eu no eu no eu d e s a p a r e c e u
no eu morreu o capitão a marca é América A m – é r i c a
a aam é érica é rica mas morreu o capitão o tiro pegou o coração
o coração morreu o capitão no ar morreu o capitão no ar mora o capitão
o capitão morreu e eu e eu e eu e eu e eu e eu

Os companheiros armam a
armadilha em que a armadilha
é preciso cair o embaixador
deixou a casa para o trabalho
das casas para o trabalho
para o trabalho
o trabalho na esquina
o trabalho o trabalho na esquina
deu conta do recado
no vídeo da têvê pediram o
embaixador em troca do
embaixador em troca do
embaixador as vidas na prisão
na prisão a prisão aprisiona
aprisionados desaparecidos
aprisionaram os desaparecidos
na prisão aprisionaram os desaparecidos
troca o embaixador troca o embaixada
a embaixada troca o troca o embaixador
a embaixada embaixa
em baixo o embaixador embaixa
embaixo o embaixo
puseram o preso embaixo
do automóvel o automóvel
é móvel mataram o prisioneiro
embaixo do automóvel

O avião levanta o céu levanta
O avião o avião embaixo
do avião mataram o prisioneiro
embaixo o prisioneiro é prisioneiro
o desaparecido é o prisioneiro
embaixo acho do oceano o
prisioneiro é prisioneiro do mar
o mar os mares o ar os ares
ares voa os avião
no céu levando os companheiros
da prisão no céu o avião é o avião
no céu levando os companheiros da prisão
da prisão voou o avião
o avião voou levando da prisão
os prisioneiros embaixo no oceano
o prisioneiro é preso embaixo do avião
o prisioneiro voa no avião
o tor tu rar ar no mar
o tor tu ra do morre
morre no mar o torturado
embaixo morre o mar
o mar morre no mar

quero cantar e posso estender
o meu cantar o mar é meu cantar
por onde o mar é meu cantar
posso cantar o mar é meu o
mar é medo o medo é meu o
medo é meu cantar o canto
que eu cantar no canto o canto
é meu cantar o quanto o que cantou
o que cantou cantou cantar
no canto o que cantou
no canto calo
Ória, a história é a memória
canto a cantoria é minha
história o que cantou o quanto
soube o que cantou
O gol é o canto que cantou
e a multidão dançou
e a multidão que dança
é o gol que canta enquanto o gol
encanta o canto a multidão dançou
Quem fôr visto lesando
o quintal do vizinho será preso
e condenado a comer toda a merda do mundo
o mundo é o mundo é um poço sem fundo
no poço o osso do moço desaparecido
o gerente comenta o assalto
iminente o gerente lamenta
o gerir do dinheiro o dinheiro não é sopa
que enche a panela a janela
fechou na alameda lorena
a morena era falsa o tiro
soou no cair do presunto
a notícia correu
quem morreu? quem morreu?
não fui eu! não fui eu!
A morena a janela fechou
Marighella morreu
No ar o cheiro o céu é anil
morreu mais uma vez morreu
a liberdade no Brasil
no Brasil quem viu?
Quem viu o gol do Brasil?
quando a galera entoou
quem cantou? quem cantou?
o gol quem ouviu?

na vida a rua passa no fuzil
a vida passa a rua viu no
passa a rua no fuzil
Quem é do papo amarelo?
E quem é do cordão encarnado?
O cordão encarnou a vida no Brasil
no il a liberdade morre no Brasil
o ar o povo invade a liberdade
espouca no Brasil guerrilhas incessantes
guerra no Brasil declaram guerra ao povo no
Brasil os generais declaram guerra ao povo no
Brasil os generais encarnam no Brasil os generais
a carne no Brasil é um sofrimento ter a carne
exposta no Brasil expõem a carne no Brasil o
prisioneiro expõe a carne no Brasil o general expõe
à carne o prisioneiro no Brasil

A multidão encarna o grito cala a multidão
no Brasil o grito cala a multidão
É gol É gol do Brasil
contra a seleção

Quando o tempo passou
quando o tempo passar
já ninguém saberá
quem marcou o Brasil
O Brasil é o jogo o Brasil é um jogo do Brasil
O Brasil não é jogo
quem jogou com o Brasil?
No campo a seleção canta a canção
Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil
No campo o canto canta a seleção
Hoje é jogo
Afinal a final
Quem marcou o jogo do Brasil
na volta da seleção? na volta da seleção
marcou o campeão
o campeão marcou o jogo do Brasil
o jogo do Brasil marcou o gozo do Brasil
no jogo do Brasil voltou a seleção
o campeão ao alvo o tiro é o gozo o jogo é o gol
o gol é o gol que o tiro deu no jogo do Brasil
matou o jogo do Brasil o gozo do Brasil apareceu
o jogo do Brasil é o gozo do Brasil apareceu o jogo
o moço é morto é morto o moço o desaparecido
o jogo é o morto no jogo do Brasil
O gol é o gozo
Um homem matou o jogo do Brasil
quando a história voltar
quando a história chegar ao campo do Brasil
o morto voltou o jogo no Brasil o desaparecido
a torcida entoa o Brasil é à toa
à toa é o jogo do Brasil
general é o jogo do Brasil

Acabou a torcida
e o jogo acabou
Quando haverá liberdade no Brasil?
Haverá liberdade no Brasil quando o povo
entoar a canção do retorno
o retorno do moço dos desaparecidos
A canção é canção
quando o povo cantar a canção dos desaparecidos
idos idos a canção é de dor
a canção é de dos desaparecidos
No Brasil a canção morreu no jogo do Brasil

(Escrito no cair da noite entre as 17 e 22 horas do dia 14 de novembro de 1979 no Rio de Janeiro).
Sergio Santeiro.

Mumunhas

quarta-feira, outubro 16th, 2013

Esquecer é só não lembrar
O ar da noite é mais poderoso que o do dia
Que eu me lembre não há melhor
A lua é um escândalo
Começaram agora aguenta
O que eu menos quero é ver confrontos
O mais fácil pode ser o mais difícil
Não sou o que nunca fui
Como fazer pra botar a cabeça do lado oposto da tua cabeça
Um não pode ser o outro
Nem tudo é tudo
Se me chamar eu vou
Nenhuma mulher é submissa
Na escala majestosa desse país não há como recriminar pessoas
Enquanto os burgueses enriquecem é a polícia que paga o pato
Não acredito em nada que atrapalhe o trânsito
A bagunça de fora não ajuda a de dentro
A representação é crítica quem representa o que?
Assim sem interagir não tem graça
Se hoje não tem lua eu vou uivar pra quê?
A lei é o que o povo no ataque constitui
O que me acontece quando eu não aconteço
Não me peçam pra pensar prefiro dormir
Comer a gata a qualquer hora e de qualquer jeito é a chave da felicidade
Eu sei que ela tem vontade própria mas sempre dá pra aliviar
Perdido em si mesmo não é de todo mal
Imagina reclamar de estrangeiro no país!
E o Brasil dos confins esperando o desembarque
Nunca se esqueça onde é a entrada é a melhor saída
Ela mexe em tudo mas não tira o que é meu
Adoro cozinha mas o problema é que vem sempre com uma branquinha por isso é que sou bom cozinheiro
Já passei por muitas coisas na verdade bastante proveitosas
Graças a Deus a minha vida está uma zona
Só falta a flor pra eu babar
É preciso desarmar a bomba
As formas não as fôrmas
Desacirrar o mais possível
A última ninguém esqueceu
Soprar é fácil
Só não pode mastigar

A noção do social no cinema brasileiro

terça-feira, outubro 8th, 2013

A Noção do Social no Cinema Brasileiro
Sergio Santeiro
Muito pouco tem sido escrito sobre o cinema brasileiro apesar de que desde 1960 pelo menos o cinema venha assumindo uma posição cada vez mais decisiva e relevante dentro do processo cultural brasileiro.
Evidentemente esta situação não é específica do cinema nada mais sendo que reflexo de toda a atitude cultural brasileira verdadeiro atropelo de criações vigorosas não mediatizadas por um sistema reflexivo que reúna seus elementos dispersos.
É de novo evidente que esta incapacidade sintetizadora por sua vez repete a incapacidade geral da sociedade brasileira orientar seus próprios passos cumprindo seu caminho histórico à maneira dos deuses que escrevem certo por linhas tortas.
O que não só torna absurdo o ônus dos descaminhos como principalmente não permite que se acelerem respectivamente a história e a cultura exigindo que sua interação se faça por elipses e parábolas e não no confronto direto e imediato de uma com a outra.
Não por acaso faço coincidir a época de 1960 com a ascensão do cinema brasileiro. É nesta data que se considera o início do movimento conhecido por “cinema novo”. A reunião de artigos e debates formulando uma posição de ação cultural conjunta é o que serve de base ao começo do movimento que se lança a exemplo do modernismo agressivamente como imposição de uma nova consciência sobre a realidade e não meramente uma revisão de conceitos e produtos estéticos.
O complexo de colonizado da elite brasileira necessitou associar ao surgimento da ‘nouvelle vague” a formação do cinema novo. Incapaz porque a põe em risco de compreender a necessidade autônoma de reavaliação estética, cultural e ideológica de uma consciência carcomida de regionalismos rasteiros e folclorizantes a intelectualidade busca mais uma vez o aval inepto das elites culturais das metrópoles admitindo então que se lá pode surgir uma renovação de critérios estéticos é bom que aqui também tenhamos a novidade. Claro que esta aceitação só é mantida na medida e enquanto se respeita o modelo transatlântico que só existe para esta elite intelectual.
Minha reflexão parte de uma tese desenvolvida por Jean-Claude Bernardet em seu livro “Brasil em Tempo de Cinema” (Editora Civilização Brasileira, 1966). Mediante uma minuciosa análise da extração social de personagens e figurantes dos filmes realizados notadamente no período que se estende de 1960 a 1964 Bernardet conclui que na realidade toda esta produção ou seja o cinema brasileiro é produto da classe média sobre a classe média e para consumo da classe média.
Notável o trabalho pelo que sugere de rigor no levantamento de tipos e situações por outro lado se ressente profundamente de um menor rigor conceitual que deixa a desejar quanto às conclusões apresentadas deixando incompletas certas intuições latentes que nestas condições impedem a sistematização correta do material recolhido.
Assim por exemplo ao falar da produção como um todo sem explicitar os evidentes desníveis ideológicos entre um e outro filme ou autor, tomando para um a proposta do outro, é uma prática que tende, ao invés de acompanhar a evolução e o movimento do processo cinematográfico, a torná-lo massivo e recorrente.
Também é importante observar que de fato o grosso da análise é ocupado pelos filmes que se identificam com a posição do “cinema de autor” em detrimento das produções meramente comerciais e que na realidade são as que constituem a maioria da produção cinematográfica.
Deste modo a ênfase colocada pelo ensaísta está em que ao contrário do que pretendem os cineastas identificados nesta posição o cinema autoral brasileiro é que é uma produção cultural restrita ao universo da classe média.
Trata-se portanto de ressaltar uma incongruência entre a proposta teórica e a criação efetiva destes cineastas. Semelhante brecha no corpo da análise vem agravada no tratamento dos conceitos.
Sabemos que a classe média é um dos conceitos mais delicados na sociologia. Normalmente é definido com larga margem de imprecisão o que o torna difícil de manejo e com relativa qualificação para a análise.
O senso comum resolve tomar para a classe média toda a diversa camada social composta pelos que nem são proprietários dos meios de produção – a burguesia – e nem possuem apenas sua força de trabalho –o proletariado – divisão que ainda poderia ser altamente proveitosa não fosse o equívoco realmente grave que é o de supor esta enorme camada intermediária homogênea e indivisa.
Aliás o equívoco se espraia a ponto de presumir as duas outras categorias como igualmente homogêneas e indivisas. Face à complexidade das estruturas sociais inquietante pela imprevisibilidade das contradições entre um maior número de grupos o senso comum moldado pelos setores dominantes nas classes médias optou pela mera divisão da sociedade em estratos manejados com ampla liberdade.
O maior exemplo deste fenômeno é o mito da sociedade de consumo que num passe de mágica faz coincidir agora sim as classes médias com todo o contingente social sob o título de massas.
A classe média portanto não é uma compacta e homogênea classe social razão pela qual a terminologia sociológica prefere chamar a este estrato intermediário de “classes médias” no plural passando de imediato a noção de que se compõe de diversos setores com posição relativamente autônoma na estrutura social e cuja interação pode se tornar mais sólida em determinadas circunstâncias históricas mas que basicamente tem por característica a difícil homogeneização de seus elementos ao contrário da burguesia e do proletariado que por estarem mais definidos objetivamente ganham maior coesão social em função de seus interesses melhor demarcados.
Outra observação grave a respeito do trabalho em questão é a maneira a meu ver mecânica como encara o processo de produção da cultura ou no caso restrito de produção do cinema.
Ao mesmo tempo em que aponta a incongruência entre o projeto teórico e a criação efetiva do cinema de autor no Brasil supõe que este conflito se deva à natureza, imprecisa como vemos, da extração social dos autores numa visão algo voluntarista quando de fato este conflito encontra seu nível de existência mais concreto no plano histórico.
A contradição que é o cerne da produção cultural brasileira evidenciada pelo divórcio relativo entre os produtores e os consumidores de cultura assume um caráter de necessidade histórica pois repete o padrão mais amplo da sociedade como um todo.
Na verdade tanto os produtores quanto os consumidores representam não a classe média, uma só, mas as “classes médias” só que situando-se com disposições mentais relativamente diversas dentro do estrato social a que pertencem.
A delimitação precisa de tais disposições requer no entanto um estudo bastante acurado para o qual o primeiro passo foi dado pelo ensaísta com o levantamento filme por filme dos elementos sociais que povoam o cinema brasileiro entre 1958 e 1964.
Como se deu então a emergência do cinema de autor no Brasil? O cinema como toda forma de construção cultural é um pequeno setor da vida social que sofre as mesmas pressões e estímulos da sociedade à sua volta.
É antes de mais nada um mercado de trabalho que emprega a atividade do homem transformando a natureza. A realização de um filme se submete simplesmente às mesmas operações mentais e físicas que a produção de outra mercadoria qualquer.
Neste sentido é preciso entender com cautela a afirmação, usada para as mais díspares finalidades, de que “o cinema é a arte social por excelência” já que o fato de se destinar por imposições econômicas a grandes públicos não o habilita de imediato a corresponder a um ponto de vista social amplo podendo pelo contrário como acontece normalmente corresponder apenas ao ponto de vista dominante que é um aspecto significativamente restrito do social.
Como é sabido, um filme não é um produto isolado da intenção de seu realizador e seu maior ou menor valor social e estético não depende exclusivamente da menor ou maior dose de talento do realizador.
O realizador não é um indivíduo isolado que transpõe para a tela a realidade. E por outro lado o filme não é uma forma de apresentação direta do pensamento do autor; é mais um complexo de significações coerentes mediante uma recriação dramática que pretende expor uma síntese de uma dada realidade.
Requer por isso uma análise cuidadosa em que não se pode confundir a representação com a mera exposição de conceitos do realizador. A representação é feita por meio de personagens que jamais serão os porta-vozes diretos do realizador e sim elementos autônomos cuja natureza está referida a uma função dramática determinada no conjunto do filme.
O filme resulta de um sistema de produção mediante o qual o realizador transpõe para a tela uma representação do seu modelo de realidade ou a maneira como ele vê a realidade, maneira esta que é determinada socialmente como o é toda a vida mental e física do indivíduo.
O modo de produção determina o modo de pensar e agir dos indivíduos e assim como os modos de produção se sucedem também os modos de pensar e agir se transformam e são transformados permanentemente. Ao encararmos a sucessão dos modos de produção verificamos que alguns deles prevaleceram mais homogênea e geralmente por um certo período de tempo e dizemos que estes modos foram dominantes no respectivo período.
Vemos também que eles se sucedem necessariamente e atendendo ao desenvolvimento de contradições internas que os determinam e conformam. O modo de representação dominante engendra um sistema de representação da realidade que permita operar com a realidade no sentido de satisfazer às suas necessidades resultantes do confronto da sociedade com a natureza.
As necessidades portanto são de caráter objetivo e têm suas leis próprias de desenvolvimento constituindo a realidade ampla que não se esgota no sistema de representação dominante.
Assim como as necessidades intrínsecas de desenvolvimento do modo de produção impõem sua transformação permanente até o surgimento de um outro modo de produção que integre e responda às necessidades emergentes também o sistema de representação passa a revelar aspectos e conceitos da realidade incompatíveis com o sistema dominante.
O sistema dominante torna-se incapaz de compreender e explicar a realidade e passa a agir repressivamente procurando manter o seu controle e sobretudo os benefícios que aufere do monopólio de explicação da realidade, explicação que se transforma agora em obscurecimento das novas necessidades emergentes.
Embora o sistema se esforce permanentemente a guardar para si o privilégio de explicação do mundo a complexidade da vida social impôs a criação de instituições relativamente autônomas destinadas a transmitir e codificar o sistema de representações. São relativamente autônomas porque tem de lidar com fatores da realidade que não estão sob controle direto da camada dominante.
Tais instituições obedecem portanto a dois pólos de orientação que se originam respectivamente da realidade que se transforma e da camada dominante que procura se manter. As contradições que denunciam esse conflito vão a cada instante se tornando mais imperiosas e radicais terminando por declarar as instituições em crise e forçando a reforma das instituições em maior ou menor escala.
Declara-se rompido o pacto formal que estipula as regras sociais obrigando a camada dominante a intervir rejeitando a delegação que havia concedido às instituições e tentando o controle e o retorno a seu sistema de representação já agora totalmente inqualificado a dar conta da realidade social.
Neste momento torna-se possível que os indivíduos se apropriem parcialmente da representação da realidade de acordo com sua posição na sociedade global e na hierarquia institucional.
O sistema de universidades responsável pela coerência e pureza do pensamento da sociedade burguesa explode a cada instante na medida em que seus integrantes no atendimento específico de sua função não encontram nos códigos dominantes a resposta para os problemas interpretativos surgidos na realidade social.
Começa então a tomar corpo uma nova visão da realidade que não é mais a visão dominante, é uma visão divergente cada vez mais dissociada do sistema dominante até conseguir totalizar um modo de explicação da realidade historicamente novo.
Nesta fase de transição de um sistema de explicação da realidade para outro e de um modo de produção para outro observa-se um conflito generalizado em todos os níveis devido à inexistência de um padrão de referência socialmente validado: um conflito interno nas contradições do sistema dominante, um conflito entre os esquemas de representação deste sistema e os esquemas emergentes, um conflito dos esquemas emergentes mais ou menos parciais entre si.
A arte e o cinema participam do sistema de representação da realidade. A formação de novas preocupações estéticas correspondem a necessidades de transformação em atendimento à ruptura no sistema de representação dominante.
De tal forma que é necessária a máxima cautela ao imputar determinada criação artística a uma classe social com maior razão ainda ao estrato denominado classe média que não conta com uma homogeneidade de seus elementos suficiente para formular um sistema único de representações, prevalecendo certas formas de representação mais facilmente imputáveis a esquemas parciais emergentes ou aos conflitos entre estes e o sistema de representação dominante.
O cinema de autor no Brasil não é apenas um fenômeno estético, surge no bojo do mais amplo processo de transformação cultural que se estende desde a modernização da informação – jornalística com os tablóides e suplementos – o aparecimento da televisão – na música popular a bossa nova – o teatro da arena – a poesia concreta – na arquitetura e construção Brasília – as novas experiências educacionais de ensino integrado – processo cuja base é o surto industrial dos anos cinquenta.
A transformação atinge praticamente todos os setores da atividade cultural e o que é mais sob uma orientação que vem a ser a mesma. A evolução do conjunto da cultura brasileira neste período procede junto com a evolução específica de cada setor. Cada segmento de produção cultural isoladamente elabora um reaparelhamento de sua visão da realidade através da incorporação de novos recursos técnicos e críticos.
(Comunicação à “Jornada Nacional dos Cineclubes, Festival de Brasília, 1968”, publicada como pós-fácio a “Brasil em Tempo de Cinema, Jean Claude Bernardet, Editora Paz e Terra, RJ, 1976).

Vezes

quarta-feira, outubro 2nd, 2013

O interesse é ofensa?
Baba bebê baba
Quem com manha age com manha será agido
Disputas de poder nunca acabam
Cada um acha que se safa sozinho
Não reclame do que não quer ouvir
Quase sempre reunião com os intestinos é inadiável
Qualquer estado é totalitário
Uma sociedade sem estado
Não pode ser do tamanho dos países
Só pode ser de nações como as primitivas
E mesmo assim demarcação e jurisprudência de territórios é um problema
Só eu pra amansar a frô
E você nem vai ver vai estar com a cabeça pra fora da rede
O negócio é fazer babar a bruxa e aí ela desmancha
Viro pro lado e durmo
Primeiro eu depois eu deixo você
É preciso criar ilusões e persegui-las
Ele é galã mas tem cabelo branco
A gente aprende coisas com quem não merece
Os novos devem tudo aos velhos
Se quiser comer avisa
O animal não mete com a mão como eu meto na tua
Meu sonho era estalar os dedos e ter você nos meus joelhos
Tudo é melhor que nada
Uma coisa na mesa outra na privada e outra na cama
Nada misturado só quero o macio
Se ela vier com coisa eu sarto de banda
Introjeta o mundo e extrojeta o sentimento
Antenas para o futuro
Se o estado é o que garante a burguesia ambos devem ser extintos
A peixa salpica e sem sal é …
Ela vai ter que escolher um dos dois
Nem o melhor é para sempre
E fui fazer outra coisa
Dá cá a coisa
Capitalismo e imperialismo são indissociáveis ainda mais os tardios
Confrontar a polícia é um erro de classe
O soldado se desrecalca do que o faz ser um proletário na polícia burguesa
Na sociedade competitiva não convém desobedecer às ordens.